Morte Virtual
2004-07-29 10:48 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários DesligadosEle estava nervoso. O combate em Realidade Virtual (RV) estava prestes a começar. Para ele, um condenado, a vitória representava a liberdade, enquanto a derrota era a morte. Já para o seu adversário, um profissional, a derrota era, também, a morte, mas a vitória significava a riqueza.
Os combates em RV eram um dos poucos programas, num mundo com milhares de canais, com uma audiência de massas. Ocupavam um lugar equivalente aos grandes acontecimentos desportivos do século XX, como os Jogos Olímpicos e os Campeonatos Mundiais de Futebol.
A RV tinha há muito deixado para trás as rudimentares interfaces (capacetes, fatos e luvas) das suas primeiras décadas de existência. Numa fase intermédia, as interfaces eram ligadas ao sistema nervoso. Porém, numa terceira fase, a RV tornou-se mais convincente que a própria realidade, graças a interfaces ligadas directamente ao cérebro.
Os programas de combates em RV só se tornaram verdadeiramente populares com a ligação directa ao cérebro. A ligação directa permitia aos espectadores seguirem, para além da acção, as emoções dos intervenientes. Infelizmente, para o nível de audiências, as emoções soavam a falso. Os participantes sabiam que não sofreriam consequências na realidade não virtual (RNV) das suas acções.
As companhias responsáveis pelos programas tornaram os combates em RV crescentemente mais “reais”. Quem participava nas provas passou a estar sujeito a choques eléctricos e a ossos partidos. Desta forma, as emoções deixaram de soar a falso, e as audiências subiram.
Faltava, no entanto, qualquer coisa, para as audiências subirem a níveis “estratosféricos”. A autorização para realizar combates mortais demorou, mas foi obtida. Quanto aos voluntários bastou aumentar as recompensas monetárias, e prometer a liberdade no caso dos presos.
Ele podia ainda recusar participar no combate, e cumprir a sua pena. O problema era que a sua pena era de morte.
A mulher que ardia
2004-07-29 10:43 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários DesligadosO delicado cheiro a rosas enchia o ar da noite. O sol espalhava os seus últimos raios sobre as nuvens que flutuavam altas no horizonte. Esfriava, e as nuvens começavam a mudar de cor: o laranja brilhante transformava-se lentamente em roxo e carmesim.
No entanto, o homem permanecia no alpendre, de olhos silenciosos e sonhadores fitos no céu que escurecia, observando os vagos movimentos na escuridão que tudo envolvia, até que apareceram as primeiras estrelas tremeluzentes.
Com um suspiro, sentou-se na cadeira de vime e estendeu a mão para o copo de brandy pousado na mesa de ébano ao seu lado. A penumbra tinha tornado virtualmente negro o líquido ambarino. Pegou no copo, agitou gentilmente o brandy e tomou um gole. Sem pensar em nada de especial, subitamente olhou para cima…
… e viu a mulher que ardia pela primeira vez.
Ela corria ao longe, muito ao longe, no limite da sua visão, por entre os arbustos e árvores que só se vislumbravam na penumbra. Durante um momento ele julgou poder ouvir o seu riso cristalino a reverberar no ar nocturno.
Aquilo devia ter sido a sua imaginação.
Nessa noite dormiu tranquilo.
*
Quando o Sol baixou num mar de chamas, no dia seguinte, ele serviu-se de outro brandy e foi directamente para o alpendre. Não havia nenhum vento, nenhum som.
Sentou-se na cadeira de vime, fitando em silêncio os campos para lá da cerca do jardim durante talvez uma meia-hora. Já tinha quase terminado o brandy e limitava-se a admirar o céu perfeitamente limpo de nuvens e as estrelas.
Então, de súbito, olhou mesmo em frente…
… e viu de novo a mulher que ardia.
Ela estava mais próxima desta vez, talvez a cinquenta metros de si. Ele sentiu o coração palpitar furiosamente, pôde ouvir claramente o riso vivo da mulher, reparou que ela corria descalça. Sob as chamas tremeluzentes levava um vestido transparente que descia até ao chão. Corria depressa, demasiado depressa.
Ele dormiu bem nessa noite. Sonhou com um fogo de lareira, com brilhantes chamas cor de laranja que dançavam em torno dos lenhos.
*
Na noite seguinte esperou-a, sentado na cadeira de vime, o coração palpitando freneticamente, os olhos perscrutando a escuridão. Não deu qualquer atenção à casa vazia atrás de si ou às estrelas no alto, e nem reparou no cheiro a rosas que impregnava a atmosfera. Estava apenas ali sentado, ansiando por vê-la.
E finalmente a sua paciência foi recompensada…
… desta vez ela estava muito mais próxima de si. Podia vê-la correndo por ali, envolta em chamas, o longo cabelo vermelho correndo atrás de si.
Pelo menos agora sabia sem sombra de dúvida de quem ela se ria. O riso leve enchia o ar dissipando o cheiro a rosas e a frescura da noite. Lentamente ergueu-se da cadeira, deu alguns passos em frente e fixou o olhar nela até desaparecer da sua vista. O seu pulso voltou a bater mais lento. Amanhã, talvez amanhã. Hoje ela estivera muito perto.
Voltou para a casa vazia como que em transe, puxou as grossas cortinas de veludo, lançou um olhar sobre os livros cobertos de poeira alinhados nas prateleiras, sobre a jarra chinesa adornada com símbolos mágicos, aspirou o ar frio da noite e procurou refúgio nos lençóis de cetim da sua cama. Amanhã? Talvez amanhã?
*
Na noite seguinte não se preocupou em levar consigo um copo de brandy. Havia uma ténue brisa. Sentou-se em silêncio na sua cadeira de vime, um livro sobre a mesa a seu lado, por ler.
Quando o sol mudou para uma cor mais rica e desapareceu por fim abaixo do horizonte, ele começou a ficar nervoso e inquieto. Hoje a mulher iria chegar muito perto,… talvez viesse mesmo até si?
Ela apareceu mais uma vez…
… viu-a vinda da distância, surgindo entre os arbustos, atirando ao ar o vestido longo e leve, abanando a juba, as chamas lambendo-lhe todo o corpo.
O seu riso ecoava alto e cristalino e quando chegou a alguns passos dele, sorriu e segredou, “Amanhã, amanhã”, virou os olhos e correu de novo para longe, numa tocha de luz e calor. Ele limpou o suor da testa, e seguiu-a em alguns passos hesitantes. Os olhos permaneceram fitos nela por muito tempo, até que a silhueta nitidamente delineada estivesse demasiado longe para ser vista.
Nessa noite sacudiu-se e voltou-se na cama. Sonhou com fogos florestais, piras funerárias e cheiro acre a enxofre. “Amanhã,” dissera ela, “Amanhã”. Chamas cobriam-no e ele voltou-se na cama, resmungando.
*
Quando a viu apressada num remoinho de fogo na noite seguinte, fez tombar o seu copo de brandy meio bebido. O precioso líquido derramou-se sobre a mesa e sobre as suas calças. Nem se incomodou em limpar a confusão.
Olhou para cima…
… e viu como ela corria directamente para si, rindo alto, de braços estendidos. O coração batia furiosamente e ele cambaleou, embora conseguisse manter o equilíbrio. Então abriu também os braços e fechou os olhos quando as chamas o envolveram e ela colou os seus lábios de fogo aos seus…
*
As crianças sabiam que se tinham afastado demasiado de casa, e provavelmente seriam castigadas quando finalmente regressassem. Decidiram descansar um pouco antes de se porem ao caminho de regresso.
Uma delas arriscou entrar na casa mas não viu ninguém. Chamou mas não houve resposta.
Então entraram todas.
Temerosamente vasculharam a casa inteira mas não chocaram com ninguém.
Mas então…
… no alpendre encontraram o corpo de um homem. Estava totalmente esturricado.
Não Quero Ser Mamute!
2004-07-29 10:38 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários DesligadosO meu Programa Principal: ajudar os homens.
A minha função corrente: procurar os homens que necessitam de ajuda.
Informação visual: em meu redor há um terreno plano, tendo à direita um bosque e à esquerda um rio. Nao há homens no campo de visão. Em frente está uma auto-estrada de asfalto, que leva aos edifícios que se vêem no horizonte.
Análise da informação visual: muitos edifícios = uma cidade.
Inquirir as coordenadas da minha localização no espaço.
Resposta do bloco de auto-orientação: 45 graus 36 minutos 28 segundos da latitude Norte, 112 graus 38 minutos 59 segundos da longitude Leste.
Sugestão do bloco enciclopédico: «É a cidade de Dacores. 150 mil habitantes. Setores económicos principais: indústria ligeira e transformadora, agricultura, vários tipos de artesanato. Língua oficial: linguni, língua tradicional: inglês. Nao há especificação de relevo no que diz respeito à vida quotidiana e à actividade profissional dos citadinos».
Contactar a Rede local de Informações Electrónicas, a divisão «Anúncios dos particulares e das estruturas oficiais». As sub-divisões: «Exigem-se», «Procura de serviços», «Assistência mútua».
Resultados da verificação: negativos.
Sinal do bloco de autocontrolo: sobrecarga elevada nos circuitos de tensão.
Ligar o bloco suplementar de estabilização.
Elaborar o subprograma corrente: interrogar a população local com o objectivo da realização do Programa Principal.
Comando ao bloco de movimento: avançar pela berma da auto-estrada para a cidade de Dacores com a velocidade média de 40 km/h.
Sinal do bloco de visão: há um autoscooter em frente. Capa do motor retirada. A viatura está imóvel. O motor não está a funcionar. Ao lado da viatura está um homem. Análise da actividade do homem: tentativa de reparar a causa do mau funcionamento do motor.
Comando ao bloco do movimento: parar perto do autoscooter.
Ligar o sintetizador da linguagem:
- Posso ajudá-lo nalguma coisa?
O homem vira a cabeça. Idade: aproximadamente 40 anos. Sexo: masculino. Tem a face manchada com um líquido escuro. Nao é sangue. É o lubrificante do motor. O homem diz:
- Eh pá, donde é que apareceste, amigo? Sempre pensei que os Hábeis se tivessem extinto há muito tempo, tal como os mamutes!
Análise semântica da expressão do interlocutor: ausência de resposta directa à pergunta feita.
Informação do bloco enciclopédico: «Os mamutes são elefantes fósseis, da época quaternária. Viveram na Europa, na Ásia e na América do Norte. Extinguiram-se em consequência de mudanças bruscas do clima e devido à caça dos homens…»
Usar o sintetizador da linguagem:
- Cheguei aqui para prestar ajuda a qualquer homem em qualquer actividade. – (Resposta à primeira pergunta terminada). – Os Hábeis nunca morrem, senhor, apenas podem ficar inoperacionais temporariamente. – (Resposta à segunda afirmação do interlocutor terminada).
O homem está a sorrir ironicamente:
- Pelo que parece, não só és Hábil, mas ainda um grande filósofo…
Análise da afirmação: ausência de perguntas, é uma constatação.
Perguntar mais uma vez:
- O senhor permite-me ajudá-lo a eliminar os estragos na sua viatura?
O homem sorri de novo:
- «Os estragos» nao é o termo apropriado, Hábil. Já há muito que é preciso deitar essa carroça no lixo!
- Então, por que não faz isso, senhor? Talvez necessite de consulta sobre a escolha de um novo carro?
- Só o diabo sabe, por que não posso dizer adeus à minha velhota!.. Provavelmente acostumei-me a ela, nada mais. Mas não és capaz de compreender a minha afeição. E quanto à ajuda… Obrigado, mas de qualquer maneira vou tentar desembaraçar-me sozinho. Tanto mais, não é pela primeira vez que acontece uma avaria…
- Boa sorte, senhor.
Fim do acto da comunicação directa.
Comando ao bloco do movimento: continuar o avanço no regime anterior.
Sinal do bloco de autocontrolo: a sobrecarga nos circuitos computorizados vai aumentando.
Causa mais provável: falta da realização do Programa Principal.
Medidas preventivas: cessar a elaboração de conclusões lógicas e das analogias.
* * *
A cidade de Dacores.
Passar ao regime de observação circular.
Dados resultantes da análise de situação: uma série de prédios habitados de um piso, rodeados de cercas baixas. Transeuntes deslocam-se por toda a parte. As ruas estão cheias de meios de transporte de diversos tipos.
À direita, perto de uma casa, um homem necessita obviamente de ajuda. É um velho. Está a trabalhar, usando o instrumento antigo para cavar a terra que se chama «pá». Respira com dificuldade, tem a face coberta de gotas do líquido que o organismo humano segrega quando gasta uma grande quantidade de energia. Análise da actividade do homem: está a preparar os canteiros com o objectivo de semear plantas chamadas «flores». Interrogação:
- Permite que eu ajude o senhor?
O velho endireita-se, apoiando-se no cabo do seu intrumento.
- Como é que é?! Então tu achas, ó cabeça de ferro, que já não sou capaz de segurar uma pá?!
- Não, não acho, senhor. Mas eu poderia concluir esse trabalho com a máxima rapidez e alta qualidade.
- «Rapidez… qualidade» – repete o velho (Não se pôde identificar a entoação). – Se queres saber, a terra gosta mais das mãos do homem do que desses teus… manípulos!
O velho agita o braço de cima para baixo, depois cospe no chão e retoma a actividade laboral.
Fim evidente do acto de comunicação.
Continuar a execução do Programa Principal no regime antecedente.
Uma criança de sexo masculino aperta com as mãos um brinquedo estragado, soltando sons específicos e deixando correr dos olhos um líquido que significa uma aflição bem profunda.
Endereçar-lhe a proposta:
- Nao chores, menino. Deixa-me consertar a tua maquinita. Para mim é muito fácil.
- Não! Vai-te embora!
- Mas porquê? Talvez não saibas quem sou? Sei fazer tudo, entendes?
- E então? Mesmo que consertes a máquina, o meu papá fica chateado! Anda sempre a dizer que devo aprender a ser independente dos outros e nunca esperar uma ajuda de alguém… E também diz: «Tudo o que estragares, tens de saber consertá-lo!»…
Fim do acto de comunicação.
* * *
… – Poderia ajudá-lo, senhor.
- Deveras? E o que é que sabes fazer?
- Sei fazer tudo, senhor. Sou Hábil.
- Foi o que pensei. Porém, se eu utilizar agora os teus servicos, amanhã virás propôr-me de novo a tua ajuda. E assim por diante todos os dias. E nesse caso, o que me resta fazer a mim próprio?…
* * *
… – Tenho de constatar, senhora, que a sua mala é pesada de mais. A senhora não terá objecções quanto a um jeitinho da minha parte?
- Era só o que me faltava! Pois fica sabendo, nunca confiei nesses seres artificiais como tu! Pergunto: quem é que vos permite, robôs, andar à solta por toda a parte?! Não me esoantaria mesmo nada, se um dia te acontecer um curto-circuito lá por dentro e começares a destruir tudo à tua volta, como aquele ciborg maníaco no filme que passou ontem na TV!…
… – Tem problemas, senhor? Posso ser-lhe útil?
- Não, não podes, Hábil.
- O senhor não está a levar em conta que sei fazer tudo o que quiser. Foi precisamente para isso que fui destinado pelos meus criadores.
- Oh, meu pobre! Nem imaginas a quantidade de coisas que nem mesmo tu és capaz de fazer.
- Cite um exemplo de tais coisas, por favor.
- Serás por exemplo capaz de compôr música, escrever livros, pintar quadros… aliás, serás capaz de ser criador?
- O meu bloco mental contém muitíssimos programas eurísticos, senhor.
- Olha, rapaz, para criar obras da arte verdadeira, é preciso ser homem. Um homem que nem tudo sabe e nem é capaz de fazer tudo…
* * *
… – Pelo que vejo, o senhor necessita de ajuda. Creia-me, posso libertá-lo dum trabalho tão difícil.
- Libertar-me?! Ora essa! Mas pagam-me muito bem por este trabalho! Portanto, se vier alguém desempenhar as minhas funções, como é que irei sustentar a minha família? Estás a querer que eu fique no desemprego, ou quê?!…
* * *
Análise do estado de meio ambiente: o Sol vai descendo por baixo do horizonte. A diminuição brusca da iluminação condiciona uma ineficácia dos órgãos de visão. Comando ao bloco de visão: passar ao regime de observação nocturna.
A água cai de cima, havendo em média de 3 a 5 gotas por centímetro quadrado. É o que se chama chover a cântaros.
Tomar medidas preventivas de autoconservação: accionamento do sistema de lubrificação adicional das articulações de corpo e membros. Verificação da hermeticidade das juntas do corpo e do bloco da cabeça: tudo normal.
Nao há homens no campo de visão.
Alternativa: deslocação a uma outra localidade ou esperar um tempo diurno mais claro para continuar o cumprimento do P.P. em Dacores.
Generalização dos factores que facilitam a tomada de decisão…
ATENÇÃO! SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA EM QUE DEVES INTERVIR SEM INTERROGAÇÕES PRELIMINARES!
Em frente, sobre a ponte que cruza um rio, vê-se uma silhueta de homem. Está em perigo. Está a balancear em cima da balaustrada da ponte. Parece que ele mesmo não tenta conservar o equilíbrio. Agora cai para a água que corre 23 metros mais em baixo.
Prognóstico: choque resultante do embate com a superfície de água, penetração desta nos pulmões, morte.
Comando a todos os blocos e sistemas: passar ao regime extraordinário. Objectivo funcional: salvar a pessoa que está prestes a afogar-se. Rapidez da execução de comandos: máxima.
Salto.
Voo.
Queda. Choque. Regime de deslocação submarina. A visão torna-se obscura devido à pouca iluminação e à presença de pequenas partículas de terra na água. Ligar o regime de hidrolocalização.
O homem é descoberto no fundo. Rebocar o corpo até à margem. Inspecção de funcionamento do cérebro: o homem ainda está vivo. Prestar-lhe o primeiro socorro conforme o programa habitual. Extracção de água dos pulmões. Respiração artificial. Controlo de pulso, respiração, funções cerebrais. Injecção do estimulador cardíaco.
O objectivo funcional está atingido. O pulso e a respiração normalizaram-se, não há perigo para a vida dele.
O homem abre os olhos. O ritmo cardíaco agora é mais intenso. É uma consequência do choque emocional.
Inquirição:
- Posso ajudar o senhor com mais alguma coisa? Deseja que o transporte até à sua casa ou a um estabelecimento de cura?
O homem pronuncia quase inaudivelmente:
- Quem… quem te pediu para me salvar, idiota?
- A sua pergunta não está correcta, senhor. Presto assistência sem inquirição preliminar àqueles cuja vida corre perigo. Assim fui programado, senhor.
- Estúpido! És um grande estúpido, Hábil! Pois era eu próprio que queria morrer, ‘tás a perceber?!…
- Não percebo, senhor. Qual a razão dessa sua idéia de autoliquidação? Talvez eu possa ajudá-lo com algo?
- Não, não podes – rouqueja o homem. – Nem ninguém no mundo poderá!… Como te posso explicar melhor? Simplesmente, um dia chega-se à conclusão que ninguém… ‘tás a perceber? Ninguém!, precisa de ti… Imagina alguém que não tenha amigos, nem parentes. Tudo aquilo para que esse fulano vivia perdeu razão de ser. E quando esse homem se dá conta de que viveu a maior parte dos seus anos em vão, desespera-se. Não adianta refazer nada, pois não se volta atrás!.. Então o homem sente-se tão sozinho, isto é, talvez como uma folha seca que sobra no ramo de arvore por entre folhas verdes! Talvez ele próprio tenha tido a culpa pelo seu destino infeliz, mas é-lhe ainda pior quando se dá conta disso… O que é que achas?, valeria a pena continuar a viver assim?
- Sempre vale a pena viver, senhor. Cada sistema inteligente tem tendência para prolongar a sua existência, e é isso que o faz diferente dos sistemas que não têm intelecto. Parece que o senhor deve elaborar um outro programa funcional da sua actividade vital visto que o programa anterior ficou num beco sem saída…
- Oh, Hábil!.. Estás a esquecer que não sou robô, mas um homem, e os homens nem sempre são capazes de comecar uma nova vida. Pois bem, põe-te a andar par onde quiseres!…
* * *
Escolha do subprograma alternativo: deslocação para outra localidade.
Escolha de itinerário e de parâmetros da marcha.
Regime de visão circular. À direita há um campo. À esquerda vê-se um bosque. Em frente há uma estrada. Não há homens no campo de visão. Hora do dia: noite.
Resumo do cumprimento de P.P. pelas 24 horas passadas: o coeficiente de eficácia constitui um milésimo do valor potencial. Procurar causas desta pouca eficiência, com o fim de eventual correcção da Função Corrente.
Elaboração de uma série de conclusões lógicas: sou um robô que sabe fazer tudo. Os homens não sabem fazer tudo. Em consequência, eu devia ser muito útil aos homens, pois foi precisamente por isso que há cinquenta anos os homens construíram os Robôs-Hábeis Universais do meu género. Porém, agora os homens deixaram de aproveitar os meus serviços. Porquê?
Análise sincrónica e acelerada dos meus contactos com os homens ao longo dos últimos três mêses.
Conclusões:
1ª. As pessoas receiam que um ser semelhante ao homem, mas não sendo um tal, possa apresentar uma ameaça eventual para a humanidade.
2ª. Ao ficar conscientes de que os robôs são capazes de fazer tudo (ou quase tudo), os homens começam a ter um complexo de inferioridade.
3ª. Os homens não confiam na capacidade dos robôs para resolver bem as tarefas criativas e eurísticas.
4ª. Os homens têm uma tendência inconsciente paa se aperfeiçoarem a si próprios, o qual exige a sua realização em actividades prácticas.
Em resumo, os homens consideram que cometeram um erro, ao criar os seres, cujos saberes ultrapassam os dos seres humanos. Consequentemente, a recusa dos homens em aproveitar a assistência dos robôs universais é uma tentativa consciente da humanidade para corrigir o erro cometido. O erro… herro… ytgjyznyj… ï??C+h)w?p??+¦H_¦?F-?__9_–U-S?
ATENÇÃO! Um erro no bloco lógico LE 1543-8386! Causa: avaria do microchip G5-134.
Comando ao bloco lógico: cessar a elaboração das conclusões lógicas. Comando ao bloco de auto-reparação: substituir o microchip G5-134.
Diagnóstico de todos os blocos e sistemas: bom funcionamento a 100 por cento.
Continuar a marcha.
* * *
Inquirir o Sistema de Informação Electrónica, subdivisão «Serviços a recrutar».
Exame em regime de varrimento acelerado.
… «Contrata-se uma ajudante para todo o serviço de trabalhos domésticos, com menos de 35 anos. Não é para os Hábeis»…
… “Precisa-se dum homem que saiba construir fornos de tijolo e lareiras de tipo antigo»…
… «O Departamento Estatal de Emprego oferece trabalho em qualquer profissão a quem o deseje, excepto os Hábeis”…
ATENÇÃO! HÁ UM ANÚNCIO APROPRIADO!
O anúncio # 135769: «Há um trabalho para um robô universal do modelo Hábil que deve urgentemente comparecer no seguinte endereço: 16, St.Morgan Street, Townville».
Localizar a localidade de Townville.
Pôr-se em marcha no regime de velocidade máxima.
A estrada para os scooters tem 16 faixas de rodagem. É a via do Alaska ao Chile. O trânsito não pára, nem de dia nem de noite. A passagem subterrânea mais próxima encontra-se a dois km para Sudeste. Seguir por aí significa perder, mais ou menos, dois minutos e dez segundos. Seria óptimo atravessar a estrada aqui mesmo.
ATENÇÃO! UM SCOOTER VINDO DA ESQUERDA, A PROBABILIDADE DE COLISÃO ESTA PERTO DE CEM POR CENTO.
Realizar a manobra que permita evitar o acidente.
ATENÇÃO! DOIS SCOOTERS VINDO DO LADO DIREITO!…
Saltar para frente a 6,2 metros.
UM PERIGO DE COLISÃO! OS SCOOTERS ATRÁS E EM FRENTE.
Desviar-se das viaturas por saltos em ziguezague.
Em frente há um campo. O solo aqui apresenta-se sob a forma de lama. Os membros inferiores deslizam e tropeçam. Ligar o giroscópio automático para manter o equilíbrio.
Queda. Levantar-se para continuar a marcha.
Queda. Levantar-se para continuar a marcha.
Rio. Ligar o bloco de emergência. Tomar em conta a velocidade da corrente e avaliar a profundidade do rio.
ATENÇÃO! VIOLADA A HERMETICIDADE DO CORPO NA REGIÃO DO MEMBRO SUPERIOR DIREITO!
Comando ao bloco de autoreparação: soldar o orifício surgido, limpar todos os blocos com ar comprimido.
Para alcançar a margem restam 150 metros, 100 m, 50 m, 20…
Desligar o bloco anfíbio, continuar a marcha no regime anterior.
Floresta. Comando ao bloco de dispositivos suplementares: accionar os protectores mecânicos.
Evitar colisões com as árvores cujos troncos são maiores de 100 mm.
Impacto do corpo com um tronco. Sem estragos.
Golpes de ramos contra a face e as pernas. Sem estragos.
Golpes de ramos contra a cabeça. Escuridão.
Estrago mecÂnico dos ÓrgÃos de visÃo!
Ao bloco de reparação: restabelecer o bom-funcionamento da visão.
Comando ao bloco de manipulação dos receptores: passar temporariamente ao regime de radiolocalização dos obstáculos.
Visão restabelecida.
Continuar a corrida. Aumentar a velocidade. Aumentar a velocidade. Aumentar a velocidade…
* * *
Ao bloco de orientação: proceder à localização.
Informação obtida: cidade de Townville, St.Morgan Street, número dezasseis no lado oposto da rua.
Hora corrente: 3h 45 m. É noite.
Sugestão do bloco ético: a esta hora os homens têm o costume de dormir. Recomenda-se despertá-los apenas em casos urgentes, tais como… Não é preciso continuar.
Alternativa: esperar até que o dono da casa número 16 termine o seu descanso ou contactá-lo agora mesmo?
Decisão: segunda opção.
Argumentos confirmando a escolha: a) no anúncio falava-se em urgência, b) um outro Hábil poderia chegar durante a noite, o que provocaria uma confusão.
Accionar a campaínha da porta. Uma voz humana sai do alto-falante incorporado na parede:
- Podes entrar, Hábil. Avança pelo corredor, depois basta virares à direita…
Comando ao bloco de deslocação: seguir as instruções do dono de casa.
Toque da analisadora de situação: verificam-se algumas coisas estranhas que dificultam a devida análise ao ambiente. Os dados transmitidos pelos órgãos de percepção não são classificados. O corpo está sujeito a uma influência incompreensível vinda de fora. Se usar analogias, é a mesma coisa que uma observação alheia a executar-se sobre mim.
Comando ao bloco de autoconservação: estar pronto para acções de emergência.
Viragem à esquerda. Uma porta.
Informação visual: trata-se de um aposento de pequenas dimensões sem janelas. Não há móveis ou quaisquer outros objectos necessários para a vida dos homens. Não há homens no campo de visão.
O sinal: ATENÇÃO! PERIGO! vem do bloco de autoconservação com atraso (nota para o bloco de auto-reparação: posteriormente, há que realizar-se um teste ao bloco de autoconservação conforme todos os parâmetros principais).
O chão do aposento cai de súbito.
NÃO HÁ PERIGO! É um elevador que desce. O elevador pára.
A profundidade deve ser 10 metros e 15 cm, mais ou menos.
As portas abrem-se. Abandonar o elevador. As portas fecham-se nas minhas costas. Segundo a informação sonora, a cabina do elevador começa a andar para cima.
Análise visual do ambiente: o comprimento do aposento é de 20,1 metros, e a largura e altura são, respectivamente, de 10,53 m e de 3,82 m. O chão e as paredes são de betão armado. Móveis: do lado direito, tal como do esquerdo, encontram-se ao longo das paredes uns armários metálicos de finalidade desconhecida. Em frente, junto à parede onde se incorpora uma janela holográfica que dá para um pomar falso, há uma escrivaninha atrás da qual se senta um homem de meia idade, cabelos escuros e vestindo um fato sem nada de especial. Análise da expressão do seu rosto: ausente qualquer mímica emocional. O homem não faz nada.
No meio da sala, a 4,35 m da mesa, há uma cadeira de braços com espaldar alto. O homem diz, ao indicar a cadeira com a mão:
- Podes sentar-te, Hábil.
Conclusões resultantes da análise de situação: algumas contradições lógicas não têm a solução. Por exemplo: o interior do prédio não dá a impressão de ser um aposento de habitação, como parecia ao olhá-lo de fora. Primeira pergunta: qual a função do prédio em geral e, mais concretamente, a do aposento subterrâneo? Segunda: por que é que o homem está acordado a esta hora, violando as normas típicas da conduta dos seres humanos? Explicações prováveis: o homem está de serviço nocturno? Ele já sabia que eu vinha esta noite? Mas como o conseguiu saber?
Inquirição a todos os blocos analisadores: existem alguns indícios da presença de um perigo?
Resposta: negativa.
* * *
O homem repete, ao debruçar-se ligeiramente para frente:
- Senta-te na cadeira, amigo.
- Obrigado, senhor, mas a posição sentada é utilizada pelos homens para descansar, e eu não preciso de descanso.
- Falas de mais, amigo – sorri o homem. – Apesar de tudo, senta-te. Ser-me-á mais cómodo falar contigo se te sentares.
(Falar? Afinal, sou necessário a este homem para falar, apenas, e não para ajudá-lo?)
- Cumpro a ordem face à sua insistência, senhor.
Sentar-me na cadeira, inspeccionando-a com todos os receptores. Resultado da inspecção com o objectivo de descobrir algum perigo: negativo. Falar:
- Vim em resposta à sua inquirição, senhor. De que ajuda necessita?
- Antes de tudo, queria que respondesses a algumas perguntas, Hábil.
- Estou pronto, senhor.
- Quando foste fabricado?
- Há cinquenta e dois anos, três meses e vinte e quatro dias, senhor. O nosso lote foi experimental e consistia em duas mil unidades. Permita-me lembrar-lhe, senhor, que na altura a humanidade conseguiu um avanço tecnológico muito significativo para criar a Razão Artificial. Foram fabricados os sistemas aptos de auto-aperfeiçoamento que sabiam realizar qualquer actividade…
- Sei isso perfeitamente, Hábil, escusas de prosseguir. A fabricação dos robôs de teu tipo foi uma invenção genial dos homens, e assim por diante. Mas diz-me uma coisa: será que sabes realmente fazer TUDO?
- Sei, sim, senhor. Durante todo o tempo da minha existência realizei cerca de quinze milhões de operações diversas, inclusive as que exigem um alto nível profissional e conhecimentos especializados. Se me permite, posso enumerar as profissões que tenho exercido com o objectivo funcional de ajudar os homens.
- Não vale a pena, pois estou certo que tens cumprido a tua função principal com o maior zelo. Prefiro que me digas como é que estás a cumprir o teu Programa Principal nos dias que correm. Isto é, fazes muita coisa para os homens? É com freqüência que os homens pedem a tua assistência?
(Por que é que o homem mo pergunta? Porquê um interesse tão elevado quanto aos problemas de criação e de funcionamento dos robôs? Será que?… Será que é um daqueles engenheiros anónimos que criaram os Hábeis? Provavelmente, decidiram reunir-nos para resolver os nossos problemas?)
- Infelizmente, tenho de dar uma resposta negativa a todas as suas perguntas, senhor.
- Qual pensas ser a causa principal de tu e os teus colegas terem ficado inúteis para toda a gente?
- Quando tento analisar esse problema, o meu bloco lógico começa a falhar, senhor.
- Pois bem, serei eu próprio a dar-te a resposta. É que no decurso de cinco decénios a humanidade mudou, Hábil. Os homens mudam sempre, mas nos nossos dias eles mudam cada vez mais rapidamente, por causa do progresso. De início, pensavam criar-vos para se libertar de trabalhos pesados, utilizando-vos apenas na produção. Depois começaram a empregar os vossos conhecimentos na vida quotidiana, e depois também noutros domínios mais públicos. A pouco e pouco os homens começaram a ter mais tempo para se aperfeiçoarem, desenvolvendo progressivamente as suas aptidões intelectuais. O aparecimento dos robôs que sabem fazer tudo foi uma consequência da teoria que então vigorava, de que os homens se viam obrigados a desenvolver constantemente os seus meios de trabalho. Seguindo este caminho, chegaria uma etapa da evolução em que os homens acabariam por fabricar modelos de si próprios, o que vieram a fazer! Mas depois a humanidade tentou recuar, porque viu que tal caminho levava a um beco sem saída. É que cada sistema tem o seu destino funcional para com outros sistemas, não podendo trabalhar só para si mesmo, entendes? Mas para compreendê-lo, foi preciso aos homens criar-vos, Hábeis.
* * *
- Bem, e que é que devo fazer agora, senhor? Que devemos fazer todos nós, robôs que sabem fazer tudo?
- Foi por isso que pus o anúncio na Rede… Estás a ver que, mais cedo ou mais tarde, chegarias à conclusão de que não serias preciso a mais nenhum dos homens. Pelo menos como robô. As pessoas precisam da ajuda de outras pessoas, Hábil. E como és um sistema apto para te aperfeiçoares, um dia serias obrigado a introduzir certas correcções nos teus programas funcionais. Não te seria difícil concluir que, uma vez que os homens precisam de outros homens, ser-te-ia necessário pareceres-te ao máximo com um homem, aliás, fingir mesmo que és realmente homem. Nem é tão-pouco dificil fabricares um outro invólucro corporal quase indistinguível do corpo humano, e depois, empregando as técnicas de bioengenharia, substituíres os teus blocos electrónicos por órgãos humanos, ou QUASE humanos. Com certeza, tal tarefa exigiria muitos esforços e muito tempo, porém tu sabes fazer TUDO, pois és um Hábil, e tens uma eternidade, ou pelo menos, alguns séculos ao teu dispor… Deste modo, um belo dia chegarias a ser um homem artificial dotado de razão artificial.
- Ora, que mal vê nisso, senhor?
- A humanidade tenta evitá-lo, porque os homens têm medo que tal aconteça, Hábil. Ser portador de razão artificial não é a mesma coisa que ser homem. É por isso que a mais perfeita cópia de um quadro célebre difere da versão original. Não é possível tornar-se um homem a 99,99 por cento. Enquanto restar um milésimo de percentagem das diferenças entre ti e o homem, a gente terá medo de ti e dos teus análogos. Pelo menos, no futuro próximo…
- Tem a certeza de que os seus prognósticos são correctos, senhor?
- Na semana passada um operário de construção civil morreu em Brixton. Caiu do 25.º andar do arranha-céus em construção. E sabes o que é que ele tinha na cabeça em lugar do cérebro? Peças e miniblocos electrónicos, nada mais! Foi um teu semelhante que se havia transformado em homem.
- Aonde pretende chegar, senhor?
- A humanidade está a tentar evitar, antes que seja tarde, a aparição dos «quase-homens».
- Mas de que maneira, senhor?
- Pelo que vejo, o teu bloco prognóstico tem uma avaria, Hábil – sorri o homem sentado atrás da escrivaninha. – Mas já não terás oportunidade de corrigi-lo!
Um pequeno objecto surge na mão direita do homem. É uma coisa escura que na extremidade tem algo parecido com um funil. Informação do bloco enciclopédico: «Pistola atomizadora de calibre 100. Destina-se a destruir quaisquer objectos sem deixar o menor rasto deles. Trata-se de uma arma baseada na violação das forças de ligação das moléculas. Hoje em dia, só resta ao dispor de vários serviços especias…»
* * *
Arranque automático do bloco de autoconservação.
FALHA DO BLOCO DE AUTOCONSERVAÇÃO.
FALHA DO BLOCO DE MOVIMENTO.
FALHA DE TODOS OS SUBPROGRAMAS FUNCIONAIS.
Causa: uma radiação de natureza desconhecida que se efectua a partir dos armários metálicos situados ao longo das paredes.
Ligação de emergência de todos os blocos.
Sem sucesso.
Porém, o sintetizador da linguagem e os órgãos de percepção ainda estão a funcionar.
- O senhor quer destruir-me?
- Sou obrigado a fazê-lo. É nisso que consiste a minha missão. Faço-o para defender a segurança dos homens, entendes?
(O que é que posso fazer para sobreviver? Poderia eliminar o perigo só por meio da destruição deste homem. Mas o robô não deve causar dano ao homem. Há uma contradição irresolúvel).
Nota junta à análise momentânea: a contradição pode ser resolvida apenas por via única… A probabilidade é extremamente pequena, mas nada mais me resta fazer.
Comando ao bloco de visão: passar ao regime de raios X. Agora estou a ver o meu adversário como esqueleto nú. Um esqueleto? E o que é que tem ele na zona esquerda do seu cérebro? Qual é essa peça pequenina, feita de metaloplástico e de silício? Identificação do objecto: é um chip básico do bloco de Programa Principal.
Conclusão: o meu interlocutor não é homem. É um robô que está a fazer-se passar por homem.
O bloco de campo magnético? Está a funcionar. Ligá-lo ao máximo, concentrando as forças magnéticas num objecto determinado.
A atomizadora sai da mão do robô que finge ser homem, e entra na minha palma direita. Fogo!…
* * *
Programa Principal: prestar ajuda aos homens. Actuar no interesse dos homens. Ser necessário aos homens.
Elaboração de um novo Subprograma Funcional. Conseqüência das conclusões lógicas: os homens estão em perigo, e a ameaça vem da nossa parte, robôs que sabem fazer tudo. Por consequente, é preciso eliminar esta ameaça para socorrer os homens. Um simples acto de autodestruição não adianta, porque há outros Hábeis. Portanto, antes disso seria conveniente destruir todos os meus semelhantes.
Subprograma táctico: é mais facil destruir os meus semelhantes da maneira que empregava o robô armado com a atomizadora. É preciso fazer cair outros Hábeis na armadilha por meio de anúncios falsos sobre a necessidade de ajuda urgente, e publicá-los na Rede.
Aviso do bloco prognóstico: será impossível começar o cumprimento do novo S.P.F. devido à contradição seguinte: no fim das contas, seria necessário suicidar-me, e isto é bloqueado pelos sistemas de autoconservação. Nao foram previstas correcções no bloco de autoconservação.
Comando ao bloco de autoaperfeiçoamento: eliminar as falhas do bloco prognóstico que impedem o cumprimento do Programa Principal.
Analogia vinda da memória operativa: «O homem é capaz de chegar à conclusão que ninguém precisa mais dele… Quando conclui que viveu em vão, o desespero logo se apodera dele… Neste caso, valeria a pena viver?»
O desespero? Por que é que não o sinto? Em geral, o que é que significa «sentir»?..
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ATENÇÃO! VISTO QUE APARECE UMA SOBRECARGA ELEVADA NOS CIRCUITOS DE BLOCO LÓGICO, PROVOCANDO FALHAS NUMEROSAS E CONSTANTES, RECOMENDA-SE CESSAR A BUSCA DE RESPOSTAS PARA AS PERGUNTAS QUE FOREM FEITAS!
Comando ao bloco de S.P.F.: iniciar a execução da nova função.
NÃO QUERO SER MAMUTE! NÃO QUERO SER MAMUTE! NÃO QUERO SER MA!…
Comando ao bloco de auto-reparação: eliminar as avarias que estão a provocar os curto-circuitos em mecanismos da memória.
Nos Confins
2004-07-29 10:17 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários Desligados— Entra.
A porta fechou-se com um estalido plástico. Ele atravessou-a e entrou. A porta abriu, resmungando.
— Senta-te.
A cadeira flutuou na sua direcção. Ele sentou-se.
— Fala.
— Tenho um problema…
— Que problema?
Ele hesitou um momento, as mãos contorcendo-se nos braços translúcidos da cadeira.
— Ontem o painel de navegação abraçou-me!…
Ela flutuou, quase absurdamente. Os seus olhos estenderam-se em torno das suas órbitas elásticas e tocaram o cérebro dele. O painel tinha-o abraçado.
— E então?
— O quê?
As lâmpadas desceram daquilo que deveria ser o tecto e olharam perplexas para o espaço lá fora. Uma parede partiu para parte incerta.
— E então? Onde é que está o problema?
Ele remexeu-se na cadeira. Ela gostou. A cadeira.
— Bom… não foi agradável… é isso…
— Deverei dizer ao painel para não te voltar a abraçar?
A parede voltou, acompanhada das estrelas. As lâmpadas recuaram, envergonhadas, e apagaram-se numa breve fúria fugidia. Ele girou sobre si próprio, ficando voltado de pernas para o ar, embora não houvesse ar e as pernas fossem pedaços inúteis de carne indigesta.
— Creio que seria o mais indicado.
— E se ele não quiser?
Pela porta fechada entrou flutuando uma cadeira amarela, feita de chumbo pesado. Parou, numa travagem perigosa cheia do chiar de pneus, e recitou numa voz musical:
— “O painel de navegação pede a comparência imediata do piloto!”
Após o que voltou a sair. Pela porta fechada.
— Terá de ser ajustado! Aliás, há já algum tempo que ando a pensar fazer-lhe uma reparaçãozinha!
— Ele não vai gostar…
— Eu quero que ele se lixe!…
A galáxia de Andrómeda apareceu entre eles a girar, enquanto piscava os seus olhos pestanudos.
— Ainda estamos muito longe desta menina?
E ele apontava para a galáxia.
— Faltam ainda quase dois meses.
— Que chatice!…
A galáxia deitou-lhes a língua de fora, numa careta líquida, e partiu, deixando na parede um buraco de um Angström de espessura. A cadeira amarela regressou, quase simultaneamente, e recitou de novo a sua mensagem na mesma voz melíflua de há pouco. Depois, atravessou a porta entreaberta e eclipsou-se, deixando no ar o seu cheiro amarelo.
— Estás a ver? Ele ama-me!…
— O painel?
— Claro! Quem querias que fosse?
A nave estremeceu em breves gargalhadas. Um enorme sorriso surgiu, lá fora.
— Cala-te, nave!
O estremecimento aumentou.
— Bolas! disse ele, e coçou uma orelha com as pernas de trás, furioso, alaranjado.
— E que fazemos com o painel?
E a voz dele tinha a forma de uma serra mecânica: — Desliguemo-lo!
— Não, não podemos fazer isso…
Da parede saltou um velho castiçal, com velas redondas a arder, em espiral, enfunadas pela leve brisa que soprava do Norte.
— Poderiamos tentar mudar-lhe os gostos sexuais.
Uma leve ameaça roçou pelos cabelos dela, que se erguiam, sedosos, no ar.
— Não! Assim passaria a ser eu a vitima, nao pode ser!
— Pois sim, mas tu, pelo menos, não tens de dirigir esta nave, não és tu o piloto.
Um sorriso bebé nasceu na boca dela. Pôs-se de pé, lentamente, e atravessou a porta que se abriu, sorridente.
— Vou falar com ele, gritou ela através da porta fechada.
Ele ficou só, acompanhado de um grupo de estrelas e de uma cadeira. Pouco depois as estrelas sairam, aborrecidas, murmurando bramidos de tédio. Ele e a cadeira entreolharam-se com olhos baços e ele encolheu os ombros, indiferente. Pouco depois já dormia.
Acordou abracado à cadeira e sentiu uma humidade secreta na roupa. A cadeira olhava-o com olhos ambíguos e um sorriso estampado nas costas. A nave estremeceu e as paredes recuaram para o espaço. Risos cristalinos ecoaram no vazio ao mesmo tempo que as luzes se apagavam.
No entanto, cá de fora, do espaco, tudo se mostrava vulgar, convencional, feito de Ficção Científica comum: a nave vogava rápida em linha recta, estendendo uma colcha de fogo atrás de si, os motores rugiam de um modo quase felino e ao longe, num cenário de fita hollywoodesca, iam passando as estrelas e as galáxias numa cadência uniforme. Como é lógico e normal, as estrelas passavam muito mais rapidamente que as galáxias.
— Psst! Ana!
O murmúrio ecoou pela nave, ressaltando nos cantos como uma bola de pingue-pongue. Mas ela nada escutou. Ele compreendeu e deixou-os em paz.
Mais tarde encontraram-se:
— Então? Que tal?
— Mais ou menos. Ele nao é grande coisa, mas eu esperava pior.
Um sistema solar entrou pelo buraco deixado por Andrómeda e tentou contar-lhes, bêbedo, a história da sua vida. Eles fugiram-lhe, escapando-se através da única porta daquela sala. A tal que está sempre fechada.
— Sabes disse-lhe ele , eu estive com uma cadeira.
— Gostaste?
Encolheu os ombros.
— Sim…
Esvoaçavam algures na nave, perdidos. Ele tomou-lhe um pulso. Ela rodopiou, a saia de gaze estendendo-se em ondas marítimas pelo espaço e levou-o consigo em direcção ao tecto. Embora ali não houvesse tecto. Ele puxou-a para si.
— Ana… — disse ele.
— Sim?
Uma sombra vermelha cobriu as luzes.
— Gostava de experimentá-lo contigo.
— …
Algures na nave, num sítio perdido, as luzes fecharam os olhos.
Era uma vez um velho muito velho, um velho excitado e trémulo, como todos os velhos. Dizia este velho, como a maioria dos velhos, que a juventude estava perdida, completamente depravada, alienada, meu Deus, o que ele dizia! Achava inumana, abjecta, a actividade sexual com painéis, cadeiras, galáxias, etecetera. E dizia-o em alta gritaria a todos os que o quisessem ouvir. Não eram muitos.
Uma vez explicaram-lhe que as viagens espaciais são longas e aborrecidas, que as tripulações são formadas normalmente por dois tripulantes de, normalmente, sexos opostos, que a única coisa que eles têm para fazer nessas viagens é dar uma olhadela aos instrumentos de bordo de vez em quando, digamos, uma vez por mês, pois o computador encarrega-se de tudo, e que no tempo restante o tédio é o seu único companheiro. O tédio e os objectos inanimados, os painéis, cadeiras, galáxias, inumanidades. Assim, que melhor passatempo que o sexo?
O velho não quis compreender. Dizia que era imoral. Puxou da sua forma de razão, puxou de livros sagrados, puxou de leis poeirentas.
Então desafiaram-no a fazer uma pequena viagem, só até à Pequena Nuvem de Magalhães. Aceitou o desafio, se bem que relutante.
Dois meses mais tarde, a meio da viagem, a nave explodia em paroxismos de gozo.
A Passagem
2004-07-24 23:51 | Em WebFiction | WebFiction | 1 comentárioO rádio do carro transmitia mais estática do que música. A condutora premiu um botão: as colunas passaram a emitir um boletim noticioso com bastante menos interferência. Devia ser da trovoada. A noite não estava nada convidativa para sai – chovia a potes, com tanta intensidade que a visibilidade era praticamente nula. A mulher endireitou os óculos que tinham escorregado para a ponta do nariz, mas isso não melhorou significativamente a sua visão. O apresentador do rádio continua a ler as notícias:
- …E continua sem explicação o misterioso brilho azulado que tomou conta do topo da Serra da Estrela. Como o terreno está intransitável graças à nevasca que assola a região – a maior de sempre registada em Portugal – os cientistas esperam que o tempo acalme para analisarem o fenómeno. O Prof. Monteiro Fernandes da Universidade Génesis foi entrevistado e declarou o seguinte – a voz do locutor foi substituída pela do professor:
- Não existem ainda dados que permitam ao certo explicar o fenómeno, mas eu apostaria numa trovoada de relâmpagos azuis, embora seja até agora inédito que tal aconteça durante uma nevasca, mas o tempo tem andado bastante estranho nestes últimos dias… – a última silaba perdeu-se com a paragem da cassete com a entrevista. – As temperaturas continuam negativas em todo o território continental, tal como em Espanha e grande parte dos países europeus. – A voz ritmada do locutor tinha voltado: – A protecção civil aconselha que ninguém saia de casa nas próximas horas… Não se preocupe, a nossa música promete aquecer o ambiente…
O carro tinha acabado de dar uma curva apertada e derrapou um pouco – só não se despistando graças à pouca velocidade e às correntes de neve nos pneus – mas assim que que o veículo se endireitou algo atravessou a estrada a correr – uma mancha escura que sobressaía contra o fundo branco da neve que reflectia as luzes dos faróis. Antes que a mulher pudesse fazer alguma coisa o veículo embateu em cheio na criatura, que voou com o impacto aterrando encima do pára-brisas e esmigalhando o vidro. O carro derrapou novamente, desta vez sem controlo e foi colidir com um enorme pinheiro na berma da estrada. Sem aviso a chuva parou para logo ser substituída por neve, que começou a cair numa cadência cada vez maior.
A mulher arrastou-se para fora do carro. Os óculos haviam saltado com a colisão e desaparecido. O rosto estava coberto de sangue que lhe saía das arranhadelas provocadas pelos pedaços de vidro. O cabelo tinha-se soltado do puxo, esvoaçando em madeixas, a neve que neles caía aumentava ainda mais o seu aspecto grisalho.
- Em que raios eu fui bater? – resmungou a mulher, depois de recuperar do choque.
Levantou-se e dirigiu-se à frente do carro. Uma criatura coberta de pêlo escuro, agora manchado de neve vermelha devido ao sangue que dele escorria, mexia-se, agitando as patas… mas não se tratava de um lobo, como ela havia pensado. Era grande de mais – do tamanho de um homem adulto – e as patas tinham um formato estranho, mais parecendo pernas. A criatura emitiu um gemido em forma de uivo. A mulher ficou paralisada, sem saber o que fazer.
- Ajude-me… – disse a criatura, quase incompreensivelmente. Falava!
Tentava pôr-se de pé. Agora a mulher conseguia ver a sua cabeça: um misto de cara de homem e de focinho. Tinha o que parecia ser barba a cobrir toda a cara, com cabelos enormes. O nariz quase se fundia com os maxilares, formando algo parecido com uma cara de buldogue.
A criatura conseguira sentar-se no chão, apesar da sua a pata/perna esquerda partida em vários pontos.
- Ajude-me, ele vem aí…
- … Quem? – gaguejou a mulher.
- O vampir… – não completou a frase – guinchou com medo e comprimiu o corpo, com se tencionasse desaparecer por algum buraco invisível no chão – Não, não, por favor, nós podemos…
A mulher olhou par trás, para onde a criatura olhava. Estava lá um homem. Ela estava prestes a pedir ajuda quando o homem se aproximou, tão rapidamente que pareceu deslizar sobre a neve. A cara dele iluminou-se um pouco pela luz vermelha que os faróis traseiros do carro emitiam. Ela recuou, assustada – o homem até podia ser considerado bonito, embora demasiado magro e pálido, mas os seus olhos tinham uma expressão cruel, como a de um gato a brincar com um rato antes de o matar. Então ele sorriu, mostrando uns dentes excessivamente salientes. Os seus enormes caninos pareciam prontos a triturar até ossos.
- Não, não – disse o homem. – Só um pode passar… E vou ser eu – e atira-se sobre a criatura com a boca escancarada, tentando morder-lhe o pescoço. Em pânico a criatura começa a agitar as garras contra a cara do outro. Rolam os dois pelo chão, numa amálgama de gemidos, gritos e uivos.
A mulher fica parada de boca aberta, a assistir àquele duelo surrealista. Então o homem grita alto e separa-se da criatura. O seu rosto já não era belo, retalhado por conjuntos de rasgões paralelos, marcas escarlates de golpes, que implacavelmente a outra criatura lhe infligira com as garras. O ferimento mais grave, contudo, era o olho direito, que lhe saíra da órbita e pendia na face, uma mancha vermelha. Levou a mão à cara, gemendo:
- Ainda dás uma boa luta, velho – disse ele com escárnio para a criatura que se arrastava pelo chão, visivelmente muito mais ferida.
O homem retira a mão de frente da face, revelando o olho já dentro da órbita, embora ainda branco e cego. A cara continuava cheia de sangue, mas a maioria dos cortes não parecia agora mais grave do que simples arranhões.
- Sabes… – continuou o homem – até eras capaz de ter uma boa hipótese de chegares lá primeiro… Isso se eu não fizesse batota. – Mais rápido do que a vista podia acompanhar uma pistola apareceu-lhe mão, aparentemente vinda do nada. Disparou, mas para sua surpresa a criatura conseguiu-se desviar, com um salto. O homem sorriu mostrando os enormes caninos e disparou novamente, atingindo a perna/pata boa da criatura, que embora sem grandes possibilidades de se movimentar continuava a tentar esquivar-se dos tiros. Quando o quarto tiro se lhe alojou no corpo imobilizou-se. Nesse instante parou de nevar e a mulher pôde ver o homem aproximar-se da criatura e a murmurar-lhe qualquer coisa ao ouvido.
- Escusas de te esforçar, meu velho licantropo. Os ferimentos não vão sarar. Balas de prata… Como te disse, faço batota. – Encostou o cano da arma à testa da criatura, que ainda gemia e disparou, sujando a neve circundante de vermelho.
Guardou a arma dentro do coldre que trazia debaixo do sobretudo e virou-se para a mulher. Agora que o tempo tinha clareado um pouco conseguia-se ver o brilho azul que se elevava no horizonte.
- Com licença, minha senhora: tenho para onde ir antes do Sol nascer.
- Eu sei – disse a mulher. – Também vou para lá.
O homem ficou boquiaberto a fitá-la por alguns segundos, então saltou na sua direcção. Os lábios da mulher soltaram um sorriso cruel e ela fez uma série de movimentos com a mão esquerda, como se estivesse a tentar comunicar em linguagem gestual. Uma enorme ventania começou-se a sentir novamente. Os seus cabelos soltaram-se, esvoaçando, e formaram uma auréola grisalha à volta da cabeça. O vento susteve o surpreendido homem no ar e atirou-o contra uma árvore.
Ele abanou a cabeça e fitou-a. O seu olho já não estava cego, e na cara não restava o mínimo vestígio dos cortes que sofrera.
- O que…? – começou ele, olhando incrédulo para a mulher ao mesmo tempo que se punha de pé.
- Ora, sou uma bruxa, de que é que estava à espera? Não são só os lobisomens e os vampiros que querem atravessar a Passagem – ela sorriu. – Os desgraçados dos fantasmas é que são duros de destruir… agora vampiros… não há coisa mais fácil! – gesticulou, desta feita com as duas mãos e uma ventania, impossível no clima agora calmo, ergueu o vampiro ao ar e atirou-o com toda a força contra o pinheiro onde o carro tinha colidido. O corpo bateu com uma violência incrível, mas pior do que o impacto foi ter sido atravessado por um galho afiado que lhe trespassou o coração, saindo pela parte da frente da caixa torácica. O vampiro ficou suspenso, como uma marioneta sem fios.
- Não é justo… – murmurou num último fôlego – devia ser eu a passar… – e a cabeça descaiu-lhe.
A bruxa aproximou-se do corpo e retirou a pistola do coldre, bem como as munições que estavam guardados no bolso.
- Ainda podem vir a fazer falta – disse, guardando as coisas na bolsa – sabe-se lá o que pode aparecer pela frente.
Deu uma olhadela ao carro, completamente inutilizado pelo choque com o lobisomem e com a árvore. Iria a pé, não lhe restava outra opção. Virou-se para Leste, em direcção à Serra da Estrela de onde provinha o brilho azulado, anúncio de que a Passagem tinha sido aberta. Não queria esperar mais trezentos anos por uma hipótese de voltar para casa. Já estava ilhada nesta bola de lama há séculos de mais. Agora que os astros se haviam alinhado e a Passagem reaberto, iria voltar para casa.
Fez-se ao caminho, recitando alegremente velhas maldições de morte na sua língua natal, incompreensível para os terrestres.
Poema Fantástico
2004-07-24 23:49 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários DesligadosAs alvoradas entremalhadas na cara dos corvos, e então como a subtender-se do fim dos tempos no fim de um único dia, levantaram vôo. Sem mais penas do fim da noite ainda distante, pela sombra da lua, os corvos pousaram numa caçada noturna sobre os corpos do cadáver de Solofernes. Aqueles restos nada mais podiam a não ser retroceder ao pó; no entanto, na fúria incontida dos corvos por desvencilhar dos ossos os vestígios das carnes, um solavanco de indignação revolveu o esqueleto. Quando percebeu que morrera, Solofernes teve uma crise de remorso pela falta substancial de sua pele, ao que matando três corvos que estavam a devorar-lhe o que lhe sobrara de entranhas, com as penas negras teceu um manto e com o sangue melado dos pássaros mortos, o colou aos ossos expostos, fazendo de sua nudez de desolação uma veste negra feita de andrajos de outros cadáveres.
Caminhou a noite inteira seguido de perto pelos corvos, ainda esperançosos que a podridão da carne, para alimenta-los, se desprendesse dos ossos; mas Solofernes sabia muito bem que mataria ser qualquer que se aproximasse, menos pela revolta de estar podre, do que pela necessidade de defesa do pouco de substancia que ainda o possibilitava o movimento.
Pouco antes das primeiras luzes da aurora a insuflarem-se sobre a madrugada, Solofernes encontrou uma fogueira rodeada de mendigos, os quais o vendo, decrépito como um resto e rodeado de corvos, puseram-se a gritar e com paus e pedras desmantelarem o que ainda restava de vida sobrenatura naquela ruína. Mas Solofernes não rendia-se a dor, que conseguiu agarrar, matou. E pela fome, comeu a carne. Seguido ainda dos corvos, tentou correr, mas as velocidade das asas se interpôs a sagacidade das pernas e então caído, envolto de uma multidão de pássaros a bicar-lhe todas as partes a tirar-lhe pedaços, adormeceu novamente antes que a aurora chegasse, e os corvos, como que pelo instinto natural de comer apenas o que não se mexe, revelaram ante aos olhos vazados de Solofernes, a contemplar a destruição completa a que estava sujeito, a incorruptível força que transcende o que de natural não passa de uma regra quebrada.
Sub
2004-07-24 15:18 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários Desligados*Estado: Inconsciente
- Log on. Entrei no canal. Passei os olhos pelo ecran. Entrei noutro canal.
Não estava ninguém. O branco do ecran feria-me os olhos. Enervei-me e iniciei todos os programas de ataque. Pingaram-me. O R. estava on-line. Não tinha dado por ele, misturado com o branco do fundo. Li os insultos de R., que eu tinha acabado de infectar com o virus pduirhg95! Ri-me alto.
A Central chamou-nos para as naves. Desliguei.
Atravessei o hangar enquanto vestia a camisa do uniforme. O capacete debaixo do braço atrapalhava-me.
Cheguei à nossa bela nave branca, que também me feria os olhos. Abri o cockpit.
R. já lá estava. Discutimos brevemente o destino e ouvimos as sub-ordens da Central. Descolámos.
*Estado: Semi-consciente
(estoumaldispostodeixameempaz)
*Estado: Inconsciente
- Depois do tele-transporte, percorremos o Mundo desconhecido em estado de alerta permanente, de Phasaks em punho:
Era um corredor interminável. De um lado uma parede branca (que por acaso também me feria os olhos), do outro uma rede de metal que nos separava de campos verdes, imensos e desertos. O corredor cinzento era tudo o que tínhamos pela frente.
Depois de umas centenas de metros a parede alva interrompeu-se. Uma grade de ferro oxidado guardava o que parecia ser um quarto antigo, dentro da parede.
R. olhava estupefacto para todos aqueles móveis ultrapassados, cobertos de pó e teias de aranha, ali religiosamente guardados sem motivo aparente.
Uma figura humana espantou-nos de repente. Era uma senhora de muita, mesmo muita idade. Os longos cabelos grisalhos escorriam-lhe pelas vestes brancas (ai os meus olhos).
Mas era bela, arrebatadoramente bela. Os seus olhos exprimiam mais ternura que qualquer mãe que tivéssemos conhecido.
O seu rosto parecia estar em constante transformação: ela rejuvenescia em frente dos nossos olhos! De bela passava a ainda-mais-Bela!
Apesar de nunca a termos visto, tanto eu como R. sabíamos que ela se chamava Zuzanna. Pronunciámos apenas as palavras necessárias para que a telepatia não se tornasse desconfortável. Ela respondia com uma voz tão doce que chegava a ser sedativa.
Aos pés de Zuzanna saltitava uma coelhinha branca, de olhos vermelhos brilhantes. Acariciei-a enquanto fazia as perguntas da praxe. Ela mordiscou-me os dedos, primeiro suavemente, depois enterrou-me as presas afiadas na carne!
“Cuidado! Que ela suga-te o sangue!”, disse Zuzanna aflita, aparentando agora cerca de trinta anos.
R. e Zuzanna baixaram-se em meu socorro, mas nem as nossas cinco mãos conseguiram abrir as mandibulas da coelha, que avidamente me retirava toda a energia do corpo. Zuzanna pontapeou então o animal contra a rede de metal. A coelho-vampiro soltou guinchos agudos enquanto desaparecia pelo corredor fora. R. seguiu-a, sob o pretexto de querer explorar mais aquele corredor insólito.
Deixou-me sozinho com Zuzanna, que tinha agora pouco menos de vinte anos. Uma rapariga que resplandecia em toda a sua forma. Os seus cabelos louros eram raios de luz celeste, enviados pelo próprio Deus como oferta à sua amada Mãe Natureza. Os seus olhos verdes acastanhados luziam de tal maneira que me faziam lembrar os poços de Esmer, que dizem cegar qualquer homem que lhes olhe directamente para o fundo.
Ela explicava-me coisas que me faziam rir e chorar ao mesmo tempo, mas nas profundezas da minha alma. A transferência de emoções era tão rápida que as minhas expressões faciais não a conseguiam acompanhar. Eu apenas lhe acariciava e beijava o rosto perfeito, enquanto ouvia aquela voz melodiosa que fazia o mel parecer amargo.
“Não há respostas para as perguntas da vida e da morte”- dizia ela – “apenas perguntas.” e sorria. Com um sorriso que me fazia tremer as pernas e pensar que em toda a minha vida eu só tinha visto coisas feias até a ter conhecido.
“Quero ficar contigo para sempre. . . “, dizia-lhe eu . . . era tudo o que me vinha à cabeça; isso, e ter os lábios encostados à sedosa pele de Zuzanna.
“Não podes ficar aqui”, respondeu-me ela triste, “acabavas velho e cheio de pó como o Quarto-Antigo. Não penses sequer numa coisa dessas.”
Esta frase foi como um terramoto na minha alma. Compreendi-a perfeitamente e levantei-me de seguida; depois de abraçar pela ultima vez a Zuzanna de oito anos de idade.
Parti de volta à nave.
R., como sempre, já lá estava. Regressamos à Estação Temporal sem trocar uma única palavra.
*Estado: Semi-consciente
*Estado: Inconsciente
- Depois do fim do serviço, encontrei-me no bar com a minha amiga Mary, e contei-lhe a minha viagem e o meu encontro com Zuzanna; enquanto esperávamos que nos servissem os “efacs”.
Mary escutou-me sem abrir a boca. Quando chegaram os dois “efacs” ela verteu o açúcar e, com duas goladas rápidas, bebeu-os aos dois. Afastou-se de mim olhando para trás a sorrir, sem palavras.
*Estado: Consciente
- End Report
O Teste
2004-07-24 15:13 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários DesligadosJosé Esteves acorda com toda a sintomatologia psicosomática característica deste tipo de dias. Vómitos. Astenia. Suores frios. O despertador semi-inteligente pressentindo o ataque de ansiedade, fornece-lhe, para o distrair, um pequeno resumo das notícias nacionais que ocorreram entre a noite e a madrugada. Junto às costas Algarvias, a patrulha marítima acabou de torpedear mais um cargueiro cheio de refugiados políticos vindos das costas Africanas. Não foram tomados em consideração quaisquer pedidos de clemência. Nem mesmo a oferta ao Instituto Câmara Pestana de duas mil crianças nascidas durante a viagem para experiências em toxicologia e viroses mutagénicas. Cargueiro ao fundo e ponto final. Entretanto, no meio dos arbustos da avenida da Liberdade, lá pelas três da madrugada, um grupo dos sem-casa assaltou uma carrinha de turistas noctívagos nipónicos e começou a devorá-los, meio crus, aproveitado a água enquinada dos lagos para fazer uma sopa de algas. Quando capturados por uma das raras milícias urbanas ainda operacionais, o grupo gerontológico declarou a quem o quis ouvir: “São chinas. Comem sushi. Um nojo. A carne sabia a peixe…”
José Esteves contempla-se ao espelho da casa de banho, deixa pender a língua onde despontam algumas áftas psico-somáticas, engole dois comprimidos anti-histamínicos, coça as úlceras do peito, abre a torneira onde escorre um fiozinho de água salôbra, e passa o depilatório sobre o rosto, antes de barrar todas as superfícies descobertas com um creme protector UV. Vezes sem conta vem-lhe à cabeça o formulário do teste que andou a preparar desde ontem. Serão as questões propostas suficientemente adequadas? Conciliáveis com a taxa de insucesso? Não faz ideia e isso assusta-o. Melhor teria sido informar os alunos do teor das perguntas, passar-lhes à sucapa a grelha do teste como costumam fazer alguns dos seus colegas, e proteger-se assim, protegendo ao mesmo tempo a taxa do insucesso escolar. Como não o fez, corre agora o risco, durante o percurso até à Escola, de sofrer qualquer tentativa explícita de assassinato. Como já aconteceu ao pobre do Silva, à Leonor, ao Tavares…
O Último Homem a Morrer
2004-07-24 15:10 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários DesligadosO fim estava próximo. Ele era o último membro da humanidade a morrer de causas naturais. O tempo da sua vida tinha sido muito longo pelos antigos parâmetros: mais de dois milénios. Todos os que tinham nascido antes dele e algumas décadas depois estavam mortos.
Desde muito cedo que ele tinha tido preocupações com a sua longevidade. Tinha começado enquanto adolescente a ter uma alimentação regrada e a praticar exercício físico sem exageros. Isso deu-lhe o tempo suficiente de vida para começar a tirar proveito dos grandes desenvolvimentos tecnológicos relacionados com a longevidade que se vieram a verificar.
Num mundo onde as preocupações com a sobrevivência de curto prazo (nomeadamente a fome) começavam a desaparecer, os recursos dedicados a linhas de investigação relacionados com a longevidade aumentaram exponencialmente. A morte humana com a colonização espacial tornou-se redundante porque o espaço deixou de ser uma preocupação.
As preocupações humanas deixaram de concentrar-se no curto e médio prazo para se focarem em objectivos de longo prazo. Por exemplo, se a esperança de vida for apenas de algumas décadas, as preocupações ecológicas tendem a ser menores do que para pessoas com maiores esperanças de vida. Se pensamos que não vamos viver o suficiente para sofrer as consequências de um cemitério nuclear e podemos tirar proveitos de curto prazo, tendemos a aceitar mais facilmente essa situação.
Com o passar dos séculos, os desenvolvimentos tecnológicos possibilitaram a um número crescente de seres humanos viver indefinidamente. Porém, ele estava sempre um passo atrás. A aplicação no seu corpo desses desenvolvimentos apenas lhe possibilitava aumentar a sua esperança de vida mas não viver indefinidamente. O seu corpo estava num estado de degradação que não lhe possibilitava tirar o proveito pleno da evolução tecnológica.
Ele esteve muito próximo de atingir um estado que lhe permitisse viver indefinidamente. Infelizmente para ele, quando a esmagadora maioria da humanidade alcançou a capacidade de viver indefinidamente o dispêndio de recursos na investigação relacionada com a longevidade caiu abrutamente. Isso levou a que as descobertas que lhe permitiriam viver indefinidamente viessem demasiado tarde.
De certa forma, ele continuaria a “viver” através das suas obras e dos seus descendentes. Os efeitos da sua existência continuariam muito para além da sua morte. Um pouco como as ondas provocadas pela queda de uma pedra num lago. Muito depois da pedra ter atingido o fundo do lago, as ondas continuarão a propagar-se em todas as direcções. Todavia, não se satisfazia com isso num tempo onde a maioria da espécie humana viveria indefinidamente e ninguém morria a não ser de acidentes ou de suicídios.
Nos últimos momentos ele poderia estar a pensar que se tivesse começado mais cedo a preocupar-se com a sua saude e/ou mais intensamente e/ou nascido mais tarde poderia ter ultrapassado a linha que se afastava continuamente, mas não. Recriminar-se nunca fez parte das prioridades.
Ele era uma das pessoas que lidava bem com a passagem do tempo. Muitos humanos, mesmo com uma boa qualidade de vida, com o passar dos séculos acabavam por suicidar-se com o aborrecimento.
O “universo” humano tinha mudado muito ao longo dos séculos, mas as alterações sociais tinham tendência para serem mais lentas. As pessoas que desejavam mudanças sociais (sobretudo pessoas com algumas décadas de vida) eram uma minoria cada vez mais pequena. As pessoas continuavam a ter filhos mas estes tendiam a ser projectos com vários séculos de intervalo. Isso não significa necessariamente que as pessoas com mais anos de vida fossem contra as mudanças, mas, às vezes, assim parecia para os membros mais recentes da comunidade humana.
Os estilos de vida tendiam a ser o mais díspares possíveis. Simplesmente qualquer tentativa de impor à sociedade um determinada mudança social rapidamente era bloqueada. A norma era que cada um devia encontrar o seu “caminho” sem prejudicar a liberdade dos outros. Poder-se-ia tentar suavemente convencer os outros, mas sem fazer demasiada “força”. De outra forma, quem fazia demasiada “força” tendia a ser ostracisado.
A morte continua a ser um grande mistério para a ciência tal como no passado. Haverá uma existência após a morte? De qualquer forma, pensava ele, a morte é um grande atentado (talvez o último) à liberdade humana. Ele não sabia, como qualquer um de nós, se a morte era o nada, mas iria de cabeça erguida . . . e morreu.
Uma Turista de Outro Mundo
2004-07-24 15:09 | Em WebFiction | WebFiction | Comentários Desligados1.
Algures numa daquelas ruazinhas que ficam por trás do Largo do Rato, mas que ainda não são consideradas como fazendo parte de S. Bento ou da Lapa, existia um edifício do início do século em mau estado de conservação, com quatro andares, com um pé direito típico dos edifícios da altura.
Esse edifício passaria completamente despercebido na zona. Uma pequena placa de bronze, muito gasta pelo tempo e parcialmente corroída com verdete, anunciava que o primeiro andar alojava a Subdivisão de Crimes Extraordinários da Polícia Judiciária. Talvez o transeunte mais curioso encontrasse um pretexto qualquer para entrar então no edifício, que dava para uma escadaria velha e gasta – mas imaculadamente limpa. O primeiro andar podia albergar qualquer consultório médico de terceira categoria, um notário ou uma firma de advogados em declínio; uma campaínha de baquelite negro datando dos anos trinta, ao lado de uma sólida porta de madeira, tinha apenas uma chapa metálica com a inscrição «PJ/SCE».
Quem ousasse tocar a essa campaínha era imediatamente recompensado com o ruído estridente do trinco eléctrico que abria a porta. Entraria para uma pequena recepção que parecia parada no tempo. O chão era de pedra sem características excepcionais; as paredes, gastas mas também limpas, eram forradas a madeira a partir de meia altura. Tudo dava indicações de ter sido restaurado décadas atrás, numa altura em que a palavra «restauro» era mais sinónima de «manutenção» e pouco mais. Não havia degradação, ou estuque a caír das paredes, ou inflitração de água – apenas uma sensação de gasto. Por exemplo, a iluminação era fornecida por uma lâmpada fluorescente sem adornos especiais; provavelmente teria sido colocada nos meados do século e substituída por lâmpadas de dimensão igual ao longo dos tempos.
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