Arquivos mensais: Maio 2010
Livros De Feira. Aproveitando a festa dos livros que anualmente nos visita, vou procurar deixar apontamentos diários sobre obras que poderão enriquecer a vossa experiência. Não serão necessariamente novidades nem títulos da moda – ainda que estes sejam fenómenos editoriais que apoio, pois proporcionam um incentivo positivo e uma (falsa) sensação de segurança ao investimento em publicidade e marketing do livro. Contudo, as obras não envelhecem todas ao mesmo ritmo, algumas permanecem eternamente jovens, e serem arrastadas para o fundo do palco pela chegada do futuro é uma injustiça difícil e demorada de combater. É possível que tenham de vasculhar nas promoções de fim-de-edição e insistir com os vendedores para encontrar algumas das recomendações mais antigas. O resultado será impressionante, impossível, inclemente, inovador, inodoro (riscar o que não se aplica).
Scott Siegler quis à viva força ser escritor. Ser escritor, contudo, não é para ele um compasso de espera e aprendizagem. Não significa participar em alguns concursos florais enquanto vai acumulando várias magnum-opus na gaveta, sonhando que algum dia será aberta e a verdade disseminada pelo mundo. Daria em doido se dele fosse o destino de Bolaño. Não: Scott Siegler escreveu um livro e vai mostrá-lo ao mundo. Pode ser um livro de tricot ou uma tarde na quinta da avó Esmeralda. Ele escreveu a porra de um livro e a porra do mundo vai colocar-se de joelhos e apreciá-lo. Nem que tenha de dirigir-se a cada um dos seis mil milhões de habitantes deste maldito planeta e forçá-los contra o chão. Nem que lhe leve a vida toda. Ele Escreveu Um Livro, Percebem?
Se lhe perguntarem, contará como a sua primeira tentativa, Ancestor, esteve quase para ser publicada quando os malditos terroristas derrubaram as Torres. Assim se comprova que o verdadeiro plano era impedir que Siegler tivesse uma carreia de best-seller, mas ninguém acredita. Aproveitando os benefícios da internet – uma tecnologia que não construiu mas da qual usufrui sem perdão -, começou a gravar leituras do romance e a dá-las de graça. Um capítulo de cada vez, regular e certeiro, como manda o figurino. Tranformando-as em podcasts, o que é o mesmo que dizer que existe um software que é avisado quando um novo episódio está disponível e descarrega para o leitor áudio. Se tivessem de ser os ouvintes a lembrarem-se, é bem provável que não tivesse um décimo da suposta audiência (e sublinha-se suposta, na ausência de empresas independentes de auditoria que analisem o tráfego de hits). Leu esse e entretanto escreveu outro, Infected, que também se tornou num sucesso de downloads – o que é o mesmo que dizer que o livro estava a ser lido primordialmente nas ocasiões de pausa do trânsito, das filas de espera, dos autocarros e das retretes (não se entenda por estas palavras uma caracterização depreciativa da pausa na retrete, esse sublime momento democrático de apreciação literária, destinado tanto às grandes como às minúsculas obras). Levando os números na mão, pois todos sabemos que os números são certeiros e as palavras tortas, esfregou-os na cara de alguns executivos, os quais acabaram por dar a oportunidade ao rapaz de figurar num dos milhares de títulos que saem anualmente no mercado norte-americano, ou para sermos mais substantivos, atiraram-no ao rio. O rapaz lá nadou e vendeu alguns exemplares e agora até se encontra a ser adaptado ao cinema.
Nada disto é prova de qualidade, quanto muito é desconfiança. O livro conta a história de uma Infecção, como afirma a versão portuguesa – ainda que a versão original, Infected, ou seja, Infectado, seja subtilmente mais apropriado. É uma pequeníssima infecção, muito localizada, mas que acaba por tornar a vítima propensa a actos de violência extrema, contra si e contra os outros (suponho que se conduzisse a actos de amor extremo, o livro seria enfiado numa prateleira diferente). A contra-capa sugere um drama épico, em que filhos matam os pais enquanto dormem, em que vizinhos atropelam as crianças do bairro, em que enfermeiros injectam com ácido todos os doentes do hospital. Uma infecção incontrolável, insidiosa, mesqunha… ãh? Não é nada disso? Não?! Então é sobre o quê?
A infecção é extra-terrestre? Tudo bem, mesmo assim haveria… ah, a taxa de propagação é quase nula? Mas nem pelo contacto físico?… Vozes na cabeça?! A violência é causada por vozes na cabeça?!
Vozes na cabeça que têm uma razão de ser. Mais não digo, para não estragar dos poucos prazeres da obra. Outro prazer é que é curta, e lê-se rapidamente.
Mas não é um bom livro. É um livro que, tire-se-lhe o chapéu, procura explicar cientificamente a infecção extra-terrestre. É um livro que sabe, inconscientemente, onde se encontra a força narrativa do autor, ainda que não a que deveria ter sido escolhida. O protagonista principal, um antigo jogador transformado em escriturário devido a uma lesão, é um homem irado. Totalmente irado. Tão cheio de violência e raiva que não admite sequer que as vozes na cabeça o obriguem a praticar actos de violência contra os outros. Mesmo que os pratique, as vozes na cabeça não lhe dão ordens, e para mostrar que só faz o que quer quando bem lhe apetece, auto-mutila-se até destruir alguns dos furúnculos que lhe invadiram o corpo e ensinar aos outros que o melhor é estarem caladinhos. Estes actos de mutilação são descritos em vívido pormenor, quase em câmara lenta, e constituem a grande polpa do livro. Isso, e o homem irado no processo de ser um homem genuinamente irado.
Tudo o resto – a investigação policial, a trama médica, o apressado motivo da infecção pelos extra-terrestres, a forma como expeditamente resolvem a infecção -, tudo o resto é acessório. Siegler contou a história que queria contar: alguém a quem lhe fora prometido o pódio e que falhara por via das circunstâncias.
É um livro de domingo à tarde, ou de sexta-feira depois dos copos com a malta. Lê-se, tem momentos agradáveis, tem muitos momentos gore. Entranha-se e expele-se, como um hambúrguer.

Há Piores Formas De Começar um domingo do que assistir a uma breve mas intensa conversa sobre a natureza da escrita e do escritor, e da condição humana, entre Barry Lopez (que não conhecia) e Bill Moyez (que também não conhecia). É pelo menos uma variação à habitual pergunta «Fale-me de si» com a habitual resposta «Sou da Baixa da Banheira, descasco moluscos num restaurante e tenho um periquito chamado Josué.»
Será Um Problema De Excessiva Subtileza? Confesso que fico incerto se será desentendimento do conto ou do leitor. E mesmo sendo de ambos, qual se esforçará menos. Poucas mas honradas pessoas conseguiram despertar para a revelação completa do monstro que se esconde no narrador, um maior monstro do que possivelmente o regime fascista em que decorre parte da acção. Está lá, escondida nos últimos parágrafos da história, em tons suaves e discretos. Releio e está lá. E se essas pessoas descobriram, sei que outras descobrirão. Ficou ainda mais explícita entre a primeira versão, publicada na Bang! 1, e a publicada no Imaginários 2 e aqui ao lado. Também sei que, se essas pessoas descobriram, foi por que se preocuparam e releram. Não ficaram contentes até descortinarem a razão de ser do conto. Uma razão de ser que só se consegue perceber quando: a) se tenta dar resposta à principal dúvida: porque queria este protagonista recuperar a casa com tanto afinco?, e b) se entende a recuperação do vigor aquando da chegada a casa, não como uma metáfora literária, mas como uma descrição literal própria da Ficção Científica.
Continuam no entanto as críticas que, apesar de simpáticas e agradáveis, mostram tristemente que não entenderam. Mesmo havendo espaço para melhorias (e uma história nunca está acabada enquanto se poder desdobrar na sua complexidade), ainda assim acredito que a mensagem não deve ser enfiada a martelo na cabeça do leitor. Eis um problema da Ficção Científica e do Fantástico em geral, géneros ainda demasiado destinados à criança dentro de nós sem se compenetrar que a criança não é mais que um adulto – inexperiente mas adulto. Entendo que isso possa prejudicar a experiência das carapaças cranianas demasiado espessas para certas subtilezas da literatura, mas infortúnios genéticos não são culpa do estabelecimento.



