Simetria — Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico Blog da Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico2012-02-07T12:54:55Z http://blog.simetria.org/feed/atom/WordPress http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/ As Leituras do Corvo http://fantasticas.odisseias.net <![CDATA[As Leituras do Corvo :: Novidade Quinta Essência]]> http://fantasticas.odisseias.net/single.php?id=7515 2012-02-07T12:43:17Z 2012-02-07T12:43:17Z As Leituras do Corvo
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MESMO A DAMA MAIS REQUINTADA
Lady Emeline Gordon é um modelo de sofisticação nos círculos sociais da elite londrina, sempre elegante e impecavelmente educada. Como tal, é a companhia perfeita para Rebecca, a jovem irmã de um empresário bem sucedido de Boston, que fora soldado nas Colónias.
DESEJA UM HOMEM INDÓMITO
Samuel Hartley pode ser rico, mas as suas maneiras são tão pouco civilizadas como as regiões inexploradas da América nas quais foi criado. Quem vai de mocassins a um baile distinto? O seu desdém arrogante em relação a decoro enfurece Emeline, embora a sua ousadia a excite.
PARA LIBERTAR A SUA PAIXÃO…
Mas sob os modos desenvoltos de Samuel, ele é assombrado pela tragédia. Foi a Londres para ajustar contas, não para se apaixonar. Mas por muito que Emeline deseje sentir as mãos deste homem despudorado sobre ela, saborear aqueles mesmos lábios com que ele a arrelia, tem se dominar. Ela não é livre. Mas algumas coisas estão fora do controlo de uma senhora …

Elizabeth Hoyt nasceu em Nova Orleães, onde a família da mãe vive há várias gerações, mas foi criada nos invernos gélidos de St. Paul, Minnesota. Quando era pequena, a família viajou muito na Grã-Bretanha, passando um verão em St. Andrews, na Escócia, e um ano em Oxford. Tem uma licenciatura em Antropologia pela Universidade de Wisconsin, Madison. Wisconsin foi também o local onde conheceu o marido, arqueólogo – numa escavação num campo de milho – e vivem no centro do Illinois, com os seus dois filhos, três cães e um jardim que ela cuida com entusiasmo. A família Hoyt gosta de fazer férias que acabem invariavelmente em sítios arqueológicos.
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i dream in infrared http://fantasticas.odisseias.net <![CDATA[i dream in infrared :: Antologia de Contos de Ficção Científica Fantasporto 2012]]> http://fantasticas.odisseias.net/single.php?id=7514 2012-02-07T10:57:43Z 2012-02-07T10:57:43Z i dream in infrared
Eis que a Antologia está prestes a ser lançada (no dia 25 de Fevereiro, no Fantasporto, mas mais sobre isso num próximo post). Pessoalmente, tem sido uma experiência tremendamente gratificante editar este volume. E, como tem sido o meu nome a figurar com proeminência nas divulgações que por aí tenho visto, nada como recentrar o foco em quem realmente importa: os autores.

Aqui fica a lista de autores, e respectivos contos (pela ordem que surgem na antologia). Em breve direi algo mais sobre cada um deles em particular...


O tempo tudo cura menos velhice e loucura
António de Macedo

A inimaginável materialização de Samira
João Paulo Vaz

O Robot Auris
Beatriz Pacheco Pereira

O Festival
Filipe Homem Fonseca

Virgílio Bentley e o extraterrestre
Ágata Simões

As mãos e as veias
Afonso Cruz

Tsubaki
Bruno Martins Soares

Uma Alforreca no Quintal
António Carloto

Fogo!
João Ventura

O cão
Isabel Cristina Pires

O Mistério dos Uivos
Madalena Santos

Expedição ao Futuro
José Cardoso

Déjà-vu
Luís Roberto Amabile

Acordar o Profeta
João Leal


Manuel Alves

As Moças do Campo
Telmo Marçal

A Besta-fera
Rodrigo Silva

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As Leituras do Corvo http://fantasticas.odisseias.net <![CDATA[As Leituras do Corvo :: Tudo Se Perdoa Por Amor (Patricia Scanlan)]]> http://fantasticas.odisseias.net/single.php?id=7513 2012-02-06T16:31:25Z 2012-02-06T16:31:25Z As Leituras do Corvo
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Debbie vai casar com o homem que ama e tudo deveria correr bem, certo? Talvez não. É que as suas relações com o pai foram de mal a pior desde o momento em que, quando ela era criança, o pai a deixou sozinha com a mãe e construiu outra família. Agora, Debbie não o quer no seu casamento, e muito menos à segunda mulher e à meia-irmã. Mas não é uma decisão assim tão fácil de impor... A mãe pensa que o passado já devia ter sido esquecido e que Debbie devia aproximar-se, senão do pai, pelo menos da irmã. E, no meio de tudo isto, a organização do casamento faz com que todos os pequenos atritos se tornem em grandes problemas, desde as implicações da chefe insuportável à arrogância da segunda mulher do pai.
Uma das coisas que primeiro cativa neste livro é o tom leve e divertido com que as diferentes situações são apresentadas. Os acontecimentos são próximos ao quotidiano de uma vida agitada, mas as situações caricatas e as peculiaridades das diferentes relações em jogo vêm fazer da história deste livro um conjunto de circunstâncias no mínimo curiosas. E tudo começa com a organização do que deveria ser uma data especial, mas que parece ser o centro de toda uma série de confusões.
Há todo um conjunto de personagens a interagir e cada uma delas tem elementos de carácter bastante vincados. Neste aspecto, a autora consegue, ao acompanhar os pontos de vista das diferentes personagens, criar uma visão interessante dos acontecimentos. Ninguém é exactamente o que parece e quem, para alguns, é uma figura detestável, tem, para outros, umas quantas qualidades redentoras. O que uns amam, outros odeiam e há várias ideias diferentes sobre a mesma personagem, principalmente dependendo do que cada um conhece sobre a vida da personagem em questão. Também isto contribui para o interesse da história e, entre as muitas peripécias que mantêm a leveza e a envolvência da narrativa, há, ainda assim, um toque de realismo que faz reflectir. Dos comportamentos mais odiosos aos pequenos actos de reconciliação, há, em muitas das personagens, e pondo de parte um ou outro exagero, algo de familiar. Do egoísmo aos pequenos sacrifícios, do amor à revolta, do sonho à desilusão... São, afinal de contas, elementos presentes na vida real, ainda que a autora os exagere um pouco, para proporcionar as situações divertidas da narrativa.
Não é uma história particularmente complexa, sendo de muitas pequenas coisas que se define o ritmo da narrativa. É, ainda assim, uma boa leitura para descontrair, agradável e divertida, e com uma interessante interacção entre as personagens que a povoam. Fica a curiosidade em ver que acontecimentos se seguirão nos próximos livros.
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Cadernos de Daath http://fantasticas.odisseias.net <![CDATA[Cadernos de Daath :: "Caim" de Saramago na revista Locus de Janeiro de 2012]]> http://fantasticas.odisseias.net/single.php?id=7511 2012-02-06T14:49:44Z 2012-02-06T14:49:44Z Cadernos de Daath

Na edição de Janeiro da revista Locus, o crítico Gary K. Wolfe resenha (positivamente) a edição de língua inglesa do romance Caim de José Saramago.

«Several years ago, in reviewing José Saramago's Blindness in these pages, I noted that, unlike many widely respected literary figures (Saramago won the Nobel in 1998), he used fantastic themes not just for their metaphoric avoirdupois, but worked them out with the same sort of plot logic a genre writer might devote to them (...) The same holds true of his final novel, Cain (...) The result is not only a provocative and often very funny re-imagining of some of the Old Testament's greatest hits - at times reminiscent of Twain or Vonnegut or even James Morrow - but also a time-travel fable (...) the novel sometimes comes off as a headlong comic monologue (we could imagine a lot of these lines being delivered by the Monty Pyhton crew or even Mel Brooks). Well rendered by Margaret Jull Castro's snappy translation, Cain is a wise and angry delight, and a very appropriate exit line for a gadfly.»
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Álvaro de Sousa Holstein http://www.blogger.com/profile/10752433067887255930 <![CDATA[New Canadian Fandom (April 1985)]]> http://blog.simetria.org/?guid=37661dd0778e0c12c30d275962b8e58c 2012-02-06T00:51:56Z 2012-02-06T00:51:00Z


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http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/ Memórias da Ficção Científica tag:blogger.com,1999:blog-7604555899758322983 2012-02-06T00:59:56.708Z 0
Cadernos de Daath http://fantasticas.odisseias.net <![CDATA[Cadernos de Daath :: «Extermine-se todos os brutos»]]> http://fantasticas.odisseias.net/single.php?id=7503 2012-02-05T21:28:03Z 2012-02-05T21:28:03Z Cadernos de Daath

No livro profético Isaías (séculos VIII-VI a.C.) vaticina-se que «o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso, as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha com o boi», mas o filósofo norte-americano Jeff McMahan não está disposto a esperar que os predadores mudem de dieta e propõe uma solução mais radical para que o mundo alcance mais depressa um estádio harmónico.

Se vocês são indivíduos que acham que o veganismo já é radical o suficiente é porque ainda não se lembraram que existem animais (não humanos) que são carnívoros e que não têm ideias nenhumas em deixar de sê-lo. Que fazer com bichos assim, que continuam a comer outros bichos em vez de tofu ou seitan? McMahan diz que a única coisa a fazer é exterminá-los a todos.
Em 2010 escreveu uma peça intitulada The Meat Eaters, para o jornal The New York Times, na qual, em síntese, defende o extermínio de todas as espécies carnívoras para criar-se um mundo natural mais inclusivo (seja lá isso o que for) apenas com espécies herbívoras. Segue-se um excerto para perceber-se melhor qual o tipo de retórica de que se está a falar:
«The claim that existing animal species are sacred or irreplaceable is subverted by the moral irrelevance of the criteria for individuating animal species. I am therefore inclined to embrace the heretical conclusion that we have reason to desire the extinction of all carnivorous species».
(Imagem: Peace de William Strutt. 1896.)
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Luís Richheimer de Sequeira http://homepage.esoterica.pt/~lms <![CDATA[Apresentação e lançamento do livro «Antologia de Contos de Ficção Científica – Fantasporto 2012»]]> http://blog.simetria.org/?p=4913 2012-02-07T12:54:55Z 2012-02-05T19:35:35Z No dia 25 de Fevereiro, pelas 17h no Teatro Municipal Rivoli, Porto, irá decorrer a apresentação e lançamento do livro Antologia de Contos de Ficção Científica — Fantasporto 2012, uma inicativa do Fantasporto, com edição coordenada por Rogério Ribeiro e pelo Fantasporto e publicado pela ASA (Grupo Leya). O livro inclui os textos de autores convidados e do vencedor do Concurso de Contos Fantásticos Fantasporto 2012, representando 3 países e 3 continentes, e que teve lugar em Setembro e Outubro 2011. Este livro vai contar com uma edição e distribuição no Brasil.

Fonte: Facebook

 

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As Leituras do Corvo http://fantasticas.odisseias.net <![CDATA[As Leituras do Corvo :: O Trono de Prata (C.S. Lewis)]]> http://fantasticas.odisseias.net/single.php?id=7502 2012-02-05T15:05:36Z 2012-02-05T15:05:36Z As Leituras do Corvo
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Numa escola com muito poucas regras e onde os fortes se divertem a atormentar os mais fracos, Eustace e Jill encontram-se numa situação delicada. A única fuga possível parece ser uma porta que normalmente está fechada, mas, naquele dia, tudo muda. É que, para lá da porta, há um mundo completamente diferente e Jill e Eustace têm uma missão para cumprir em Narnia. O príncipe herdeiro está perdido e cabe aos dois jovens descobrir o seu paradeiro, seguindo as pistas dadas por Aslan. O destino é claro, mas o caminho não será fácil. E assim começa mais uma grande aventura...
No que toca aos pontos fortes deste livro, muitos deles são comuns aos já referidos para os livros anteriores. Uma escrita envolvente, com uma caracterização bastante precisa e detalhada dos diferentes ambientes, serve de base a uma história onde as aventuras são constantes e o caminho dos protagonistas é uma travessia de dificuldades para atingir o derradeiro objectivo. 
Ao ter Eustace como um dos protagonistas, é possível ver em pleno a mudança que este sofreu com os acontecimentos do livro anterior. Além disso, o seu caminho com Jill serve também para acrescentar novos lugares ao já vasto mundo de Narnia. O ambiente é, aqui, mais sombrio, mas a história mantém-se interessante, com um toque de humor, bastante de aventura e um toque de emoção que se intensifica pelos já familiares bons valores desenvolvidos ao longo desta série.
Há, ainda, um novo elemento que surpreende, principalmente porque proporciona um momento particularmente comovente. Este diz respeito a Caspian, e à forma como a sua própria aventura termina neste livro, no que acaba por ser não só uma surpresa interessante, mas também um dos momentos mais belos e comoventes de toda a série e uma boa base para reflexão.
Trata-se, pois, de mais uma leitura envolvente, com uma história cheia de aventuras e personagens interessantes a povoar um mundo já com muito de bom para descobrir. Agradável, com a medida certa de emoção e um final surpreendente, um livro muito bom.
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As Leituras do Corvo http://fantasticas.odisseias.net <![CDATA[As Leituras do Corvo :: Um Longo Regresso a Casa (Gail Caldwell)]]> http://fantasticas.odisseias.net/single.php?id=7501 2012-02-05T14:01:55Z 2012-02-05T14:01:55Z As Leituras do Corvo
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Esta é a história de duas autoras que se conheceram numa conversa sobre os seus cães e que, desse momento, fizeram nascer uma amizade profunda e completa, que terminaria apenas com a morte. Mas esta é também a história de Gail, com os seus problemas e as suas crises, com os factos que lhe marcaram a vida e os traços que lhe definem a personalidade. Uma mulher que recorda uma amizade perdida, mas que prevalece nas memórias de uma vida por vezes difícil, mas que se define tanto pelas pequenas coisas como nos grandes acontecimentos. Esta é, no essencial, uma história de amizade.
É na amizade entre Gail e Caroline que reside o foco deste livro e é também nas memórias dessa amizade que se encontram os melhores momentos. Transparece sinceridade na forma como a autora partilha as suas memórias de Caroline e dos momentos vividos com ela, daí surgindo momentos e reflexões verdadeiramente comoventes. Assim, define-se também um interessante contraste entre os momentos introspectivos da amiga que recorda e a apresentação simples e directa dos acontecimentos, sem rodeios e tal como terão sido.
Ainda assim, nem só da amizade entre as duas autoras vivem as memórias de Gail Caldwell. Parte do percurso apresentado pertence apenas à autora e, por isso, há também memórias que apenas a ela dizem respeito. Aqui, destaca-se como particularmente marcante a sua luta com o alcoolismo, apresentada de forma clara e sem grandes tentativas de arranjar desculpas para o sucedido. Mas também a história individual de Gail serve para contextualizar a amizade desenvolvida com Caroline: são também os pontos comuns entre ambas e a naturalidade com que são partilhados a definir a honestidade da amizade que é, afinal, o centro deste livro.
De leitura agradável, com um ritmo pausado, mas com momentos particularmente tocantes, este é um livro que, não sendo uma leitura compulsiva, marca principalmente pelo relato de amizade e pela visão do que é a vida (e de como continuar) perante a perda. Uma boa leitura.
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Cadernos de Daath http://fantasticas.odisseias.net <![CDATA[Cadernos de Daath :: Jesus Cristo, exorcista]]> http://fantasticas.odisseias.net/single.php?id=7500 2012-02-04T20:50:02Z 2012-02-04T20:50:02Z Cadernos de Daath

No contexto desta notícia, sobre o desejo do patriarcado olissiponense de que a prática do exorcismo retorne ao quotidiano, vale a pena recordar, de modo sucinto, algumas considerações sobre aquele que, com efeito, terá sido o primeiro exorcista cristão: Jesus.
Segundo os evangelhos sinópticos, Cristo devotou uma parte significativa dos seus dias à prática do exorcismo, expulsando espíritos indignos e demonetes dos miseráveis que com ele se cruzavam; na verdade, tão frequentemente se devotou ao exorcismo que é legítimo dizer que seria esse o seu ganha-pão.

O étimo da nossa palavra exorcismo é a palavra grega exorkismós que apenas significa prestar juramento, mas nos evangelhos canónicos a palavra que aparece em referência à prática do esconjuro de demónios é a grega ekballein que significa repelir ou expulsar. Em S. João, por exemplo, quando Jesus diz «Tudo o que o Pai Me dá virá a Mim; e não repelirei aquele que vem a Mim» (6:37), no texto original correspondente pode ler-se «ekbaló exó». No mesmo evangelho (2:15) pode ler-se «Com umas cordas, fez um chicote e expulsou-os a todos do Templo» na passagem alusiva ao encontro com os vendilhões e também aqui é usado o verbo original ekballein.

A palavra exorkismós é tardia e revela a exclusividade da prática exorcística sistematizada por um agente eclesiástico autorizado (um clérigo exorcista que se apoia na sua fé pessoal e em textos oficiais - podem ser os textos exorcísticos do Rituale Romanum - que são por ele recitados na presença de um endemoninhado de maneira a expulsar o demónio escondido). No período narrado pelos evangelhos existiram diversos exorcistas itinerantes, de várias etnias, e em São Marcos (9:38-40) pode ler-se como os apóstolos encontraram um desses exorcistas errantes que dizia expulsar demónios em nome de Cristo: «Mestre, vimos alguém a expulsar demónios em Teu nome, sem que nos siga, e proibimos-lho». Cristo respondeu-lhes: «Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e vá logo dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós». Este trecho é interessante, porque desvenda que 1) o exorcismo era uma prática comum e aceite e que 2) Cristo se considerava um irmão dos exorcistas itinerantes.
Convém esclarecer que, embora a crença demoníaca seja um elemento substancial do Novo Testamento, não há Diabo nenhum no Pentateuco, nem sequer no livro sapiencial Job. No Antigo Testamento é sempre Jeová, deus único, que faz tanto o Bem como o Mal, seja directamente ou por intermédio de um agente escolhido para o efeito (como em Job), mas o proverbial Diabo ou Satanás que a igreja popularizou não existe. Em síntese, a dicotomia cristã entre o Bem e o Mal, causados por entidades diferentes (Deus e Satanás), é uma contaminação do antigo zoroastrismo persa (século VI a.C.), religião que assenta num dualismo entre um deus bom (Aura Mazda) e um deus mau (Ariman). Estes deuses gladiar-se-ão numa batalha decisiva, na qual o Bem triunfará definitivamente sobre o Mal; crença sobre a qual se fundou o último livro do Novo Testamento, o Apocalipse (século I). Também é persa a posterior doutrina gnóstica do maniqueísmo, criada pelo profeta Mani (século III), que postula que a ulterior vitória do Bem
na batalha apocalíptica no Monte Megido (Armagedão) não está garantida.

Em paralelo, os evangelhos informam-nos que Jesus operava como curandeiro. Em São Marcos (7:32-35) é descrito como Cristo curou um surdo-gago enfiando-lhe os dedos nos ouvidos e cuspindo-lhe para a boca e como curou um cego cuspindo-lhe para os olhos (8:23-26). Trata-se de um método primitivo que, de um ponto de vista histórico, se inscreve na mentalidade da época: o historiador romano Cornélio Tácito descreveu nas suas Histórias (século I) como o imperador romano Vespasiano era capaz de curar a cegueira com o seu próprio cuspo e, também, outras doenças apenas com o poder curativo do seu toque.
A crença na força salvífica do toque de um soberano continuou a ser instrumentalizada ao longo da Idade Média como sendo um sinal de divino ministerio: ou seja, de que os reis eram indigitados por Deus para governarem e, como tal, partilhavam, até certo ponto, dos seus poderes. No que concerne à religião judaica, acreditava-se que os verdadeiros rabis possuíam poderes mágicos que lhes eram oferecidos por Deus para que, desse modo, pudessem fazer magia e partilhar da Sua glória. Sublinhe-se que nos versículos supracitados de São Marcos não existe nenhuma alusão, seja directa ou indirecta, a Deus ou à fé dos doentes: Cristo cura somente com a propriedade mágica do seu cuspo. É um acto de cura o mais elementar possível e perfeitamente consonante com o universo das mezinhas caseiras.

Na minha opinião, o mais insólito exorcismo de Cristo não é o célebre escorraçar dos espíritos impuros do corpo de um desgraçado para uma vara de porcos (São Mateus 8:28-32; São Marcos 5:1-13; São Lucas 8:27-33 - não há menção desta história em São João, porque este evangelho caracteriza-se por não referir nenhuns exorcismos, embora, como vimos, use o verbo ekballein em outras circunstâncias), mas a expulsão de um demónio do corpo de um paralítico na cidade de Cafarnaum, ao Norte do Mar da Galileia (São Marcos 2:1-12). A paralisia, como a mudez, a surdez, a cegueira, a lepra e a esquizofrenia, era considerada um sinal típico de possessão diabólica.
Nesse curioso episódio, Cristo pede que o endemoninhado seja transportado num catre para dentro da casa onde residia na altura (a de Pedro, presume-se pelo texto antecedente) , através de um buraco feito no telhado; naquele tempo, os telhados das tradicionais casas israelitas eram terraços feitos de madeira unida com canas e cobertos de barro misturado com palha. Quatro homens desceram o catre com o paralítico pelo buraco aberto no telhado e Jesus disse-lhe «Meu filho, os teus pecados te são perdoados»; em seguida, ordenou-lhe que voltasse à sua casa: curado, o homem obedeceu e saiu pelo seu pé. Esta descrição faz lembrar um primitivo ritual de exorcismo, no qual os populares tentam ludibriar o demónio da seguinte maneira: descem o possesso para dentro de casa por um buraco no telhado, como neste trecho de São Marcos, ou transportam-no através de uma janela, o que tem o efeito de fazer crer ao demónio que apenas é possível entrar na habitação por essa via. Logo que o exorcista expulsa o demónio, este sai por onde entrou e de imediato é vedado o buraco ou a janela, ficando a casa livre de futuras intromissões dessa entidade sobrenatural.

Em diversos países europeus, as casas medievais ainda eram construídas com portinholas ou postigos para que o Diabo saísse, em herança desse ritual de exorcismo; essas passagens deram origem, mais tarde, às portas exclusivas pelas quais se retiravam os mortos de dentro das casas. O livro Faust: Eine Tragödie, de Johann Wolfgang von Goethe (1808), ainda alude a este conhecimento popular de demonologia nas seguintes palavras de Mefistófeles a Fausto: «Diabos e espíritos obedecem a uma lei, como deves saber: devem usar o mesmo caminho para entrar e para sair. Entramos por onde queremos, mas não podemos escolher a saída» (verso 1410, página 44; Oxford University Press, 1998).

(Imagem: Mosaico bizantino do século VI na basílica italiana de Santo Apolinário, o Novo, em Ravena.)
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