O rádio do carro transmitia mais estática do que música. A condutora premiu um botão: as colunas passaram a emitir um boletim noticioso com bastante menos interferência. Devia ser da trovoada. A noite não estava nada convidativa para sai – chovia a potes, com tanta intensidade que a visibilidade era praticamente nula. A mulher endireitou os óculos que tinham escorregado para a ponta do nariz, mas isso não melhorou significativamente a sua visão. O apresentador do rádio continua a ler as notícias:

– …E continua sem explicação o misterioso brilho azulado que tomou conta do topo da Serra da Estrela. Como o terreno está intransitável graças à nevasca que assola a região – a maior de sempre registada em Portugal – os cientistas esperam que o tempo acalme para analisarem o fenómeno. O Prof. Monteiro Fernandes da Universidade Génesis foi entrevistado e declarou o seguinte – a voz do locutor foi substituída pela do professor:

– Não existem ainda dados que permitam ao certo explicar o fenómeno, mas eu apostaria numa trovoada de relâmpagos azuis, embora seja até agora inédito que tal aconteça durante uma nevasca, mas o tempo tem andado bastante estranho nestes últimos dias… – a última silaba perdeu-se com a paragem da cassete com a entrevista. – As temperaturas continuam negativas em todo o território continental, tal como em Espanha e grande parte dos países europeus. – A voz ritmada do locutor tinha voltado: – A protecção civil aconselha que ninguém saia de casa nas próximas horas… Não se preocupe, a nossa música promete aquecer o ambiente…

O carro tinha acabado de dar uma curva apertada e derrapou um pouco – só não se despistando graças à pouca velocidade e às correntes de neve nos pneus – mas assim que que o veículo se endireitou algo atravessou a estrada a correr – uma mancha escura que sobressaía contra o fundo branco da neve que reflectia as luzes dos faróis. Antes que a mulher pudesse fazer alguma coisa o veículo embateu em cheio na criatura, que voou com o impacto aterrando encima do pára-brisas e esmigalhando o vidro. O carro derrapou novamente, desta vez sem controlo e foi colidir com um enorme pinheiro na berma da estrada. Sem aviso a chuva parou para logo ser substituída por neve, que começou a cair numa cadência cada vez maior.

A mulher arrastou-se para fora do carro. Os óculos haviam saltado com a colisão e desaparecido. O rosto estava coberto de sangue que lhe saía das arranhadelas provocadas pelos pedaços de vidro. O cabelo tinha-se soltado do puxo, esvoaçando em madeixas, a neve que neles caía aumentava ainda mais o seu aspecto grisalho.

– Em que raios eu fui bater? – resmungou a mulher, depois de recuperar do choque.

Levantou-se e dirigiu-se à frente do carro. Uma criatura coberta de pêlo escuro, agora manchado de neve vermelha devido ao sangue que dele escorria, mexia-se, agitando as patas… mas não se tratava de um lobo, como ela havia pensado. Era grande de mais – do tamanho de um homem adulto – e as patas tinham um formato estranho, mais parecendo pernas. A criatura emitiu um gemido em forma de uivo. A mulher ficou paralisada, sem saber o que fazer.

– Ajude-me… – disse a criatura, quase incompreensivelmente. Falava!

Tentava pôr-se de pé. Agora a mulher conseguia ver a sua cabeça: um misto de cara de homem e de focinho. Tinha o que parecia ser barba a cobrir toda a cara, com cabelos enormes. O nariz quase se fundia com os maxilares, formando algo parecido com uma cara de buldogue.

A criatura conseguira sentar-se no chão, apesar da sua a pata/perna esquerda partida em vários pontos.

– Ajude-me, ele vem aí…

– … Quem? – gaguejou a mulher.

– O vampir… – não completou a frase – guinchou com medo e comprimiu o corpo, com se tencionasse desaparecer por algum buraco invisível no chão – Não, não, por favor, nós podemos…

A mulher olhou par trás, para onde a criatura olhava. Estava lá um homem. Ela estava prestes a pedir ajuda quando o homem se aproximou, tão rapidamente que pareceu deslizar sobre a neve. A cara dele iluminou-se um pouco pela luz vermelha que os faróis traseiros do carro emitiam. Ela recuou, assustada – o homem até podia ser considerado bonito, embora demasiado magro e pálido, mas os seus olhos tinham uma expressão cruel, como a de um gato a brincar com um rato antes de o matar. Então ele sorriu, mostrando uns dentes excessivamente salientes. Os seus enormes caninos pareciam prontos a triturar até ossos.

– Não, não – disse o homem. – Só um pode passar… E vou ser eu – e atira-se sobre a criatura com a boca escancarada, tentando morder-lhe o pescoço. Em pânico a criatura começa a agitar as garras contra a cara do outro. Rolam os dois pelo chão, numa amálgama de gemidos, gritos e uivos.

A mulher fica parada de boca aberta, a assistir àquele duelo surrealista. Então o homem grita alto e separa-se da criatura. O seu rosto já não era belo, retalhado por conjuntos de rasgões paralelos, marcas escarlates de golpes, que implacavelmente a outra criatura lhe infligira com as garras. O ferimento mais grave, contudo, era o olho direito, que lhe saíra da órbita e pendia na face, uma mancha vermelha. Levou a mão à cara, gemendo:

– Ainda dás uma boa luta, velho – disse ele com escárnio para a criatura que se arrastava pelo chão, visivelmente muito mais ferida.

O homem retira a mão de frente da face, revelando o olho já dentro da órbita, embora ainda branco e cego. A cara continuava cheia de sangue, mas a maioria dos cortes não parecia agora mais grave do que simples arranhões.

– Sabes… – continuou o homem – até eras capaz de ter uma boa hipótese de chegares lá primeiro… Isso se eu não fizesse batota. – Mais rápido do que a vista podia acompanhar uma pistola apareceu-lhe mão, aparentemente vinda do nada. Disparou, mas para sua surpresa a criatura conseguiu-se desviar, com um salto. O homem sorriu mostrando os enormes caninos e disparou novamente, atingindo a perna/pata boa da criatura, que embora sem grandes possibilidades de se movimentar continuava a tentar esquivar-se dos tiros. Quando o quarto tiro se lhe alojou no corpo imobilizou-se. Nesse instante parou de nevar e a mulher pôde ver o homem aproximar-se da criatura e a murmurar-lhe qualquer coisa ao ouvido.

– Escusas de te esforçar, meu velho licantropo. Os ferimentos não vão sarar. Balas de prata… Como te disse, faço batota. – Encostou o cano da arma à testa da criatura, que ainda gemia e disparou, sujando a neve circundante de vermelho.

Guardou a arma dentro do coldre que trazia debaixo do sobretudo e virou-se para a mulher. Agora que o tempo tinha clareado um pouco conseguia-se ver o brilho azul que se elevava no horizonte.

– Com licença, minha senhora: tenho para onde ir antes do Sol nascer.

– Eu sei – disse a mulher. – Também vou para lá.

O homem ficou boquiaberto a fitá-la por alguns segundos, então saltou na sua direcção. Os lábios da mulher soltaram um sorriso cruel e ela fez uma série de movimentos com a mão esquerda, como se estivesse a tentar comunicar em linguagem gestual. Uma enorme ventania começou-se a sentir novamente. Os seus cabelos soltaram-se, esvoaçando, e formaram uma auréola grisalha à volta da cabeça. O vento susteve o surpreendido homem no ar e atirou-o contra uma árvore.

Ele abanou a cabeça e fitou-a. O seu olho já não estava cego, e na cara não restava o mínimo vestígio dos cortes que sofrera.

– O que…? – começou ele, olhando incrédulo para a mulher ao mesmo tempo que se punha de pé.

– Ora, sou uma bruxa, de que é que estava à espera? Não são só os lobisomens e os vampiros que querem atravessar a Passagem – ela sorriu. – Os desgraçados dos fantasmas é que são duros de destruir… agora vampiros… não há coisa mais fácil! – gesticulou, desta feita com as duas mãos e uma ventania, impossível no clima agora calmo, ergueu o vampiro ao ar e atirou-o com toda a força contra o pinheiro onde o carro tinha colidido. O corpo bateu com uma violência incrível, mas pior do que o impacto foi ter sido atravessado por um galho afiado que lhe trespassou o coração, saindo pela parte da frente da caixa torácica. O vampiro ficou suspenso, como uma marioneta sem fios.

– Não é justo… – murmurou num último fôlego – devia ser eu a passar… – e a cabeça descaiu-lhe.

A bruxa aproximou-se do corpo e retirou a pistola do coldre, bem como as munições que estavam guardados no bolso.

– Ainda podem vir a fazer falta – disse, guardando as coisas na bolsa – sabe-se lá o que pode aparecer pela frente.

Deu uma olhadela ao carro, completamente inutilizado pelo choque com o lobisomem e com a árvore. Iria a pé, não lhe restava outra opção. Virou-se para Leste, em direcção à Serra da Estrela de onde provinha o brilho azulado, anúncio de que a Passagem tinha sido aberta. Não queria esperar mais trezentos anos por uma hipótese de voltar para casa. Já estava ilhada nesta bola de lama há séculos de mais. Agora que os astros se haviam alinhado e a Passagem reaberto, iria voltar para casa.

Fez-se ao caminho, recitando alegremente velhas maldições de morte na sua língua natal, incompreensível para os terrestres.

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