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(Uma adenda no final deste texto.)

No passado dia 23 de Fevereiro de 2013 o Diário de Notícias publicou, no seu suplemento QI, um artigo de Eurico de Barros sobre a antologia «Lisboa no Ano 2000» com base numa entrevista feita ao criador e organizador daquela, João Barreiros. Abstraindo do abjecto «acordês» que enforma – e enferma – o texto, logo no terceiro parágrafo pode ler-se que aquela colectânea colectiva de contos constitui «a primeira ficção científica portuguesa de história alternativa.» Telefonei ao jornalista do DN e ele esclareceu-me que aquela afirmação é sua e foi «corroborada por João Barreiros». Porém, e obviamente, está errada…

… Porque a verdadeira primeira obra portuguesa de história alternativa é, foi, claro, «A República Nunca Existiu!», publicada em 2008… e sobre a qual o próprio Eurico de Barros escreveu então! Como me admitiu, esqueceu-se… mas João Barreiros também se terá esquecido. Aliás, é igualmente oportuno e relevante lembrar que ambas as antologias foram editadas pela Saída de Emergência, e que o subtítulo de «Lisboa no Ano 2000» é «Uma antologia assombrosa sobre uma cidade que nunca existiu», pelo que, sem dúvida e não surpreendentemente, ainda se «ouvem os ecos» daquele meu projecto pioneiro que teve como objectivo imaginar, escrever e publicar contos, enredos, narrativas, em que Portugal nunca havia deixado de ser uma Monarquia.

Assunto também abordado no artigo, e que aliás é recorrente nas discussões sobre ficção científica e fantástico no nosso país, é o da alegada «falta de uma tradição de literatura de FC, e de imaginação e especulação em geral, em terras lusas. (…) Esquecemo-nos de sonhar?» João Barreiros não é o único a pensar assim, mas ele e outros estão, também aqui, errados. Como demonstrei inequivocamente no meu artigo «A nostalgia da quimera», publicado no Público em 2011, o fantástico é – sempre foi – o género dominante na literatura portuguesa. A aparente ausência, na viragem do século XIX para o XX, de uma FC «pura e dura» nacional, em que a antecipação civilizacional e a inovação tecnológica são factores fulcrais, pode ter-se devido não à inexistência de obras desse âmbito mas sim à não publicação daquelas; o mesmo é dizer, que possivelmente existiram autores mas «não existiram» editores… à altura das suas responsabilidades. E esta não é uma hipótese mirabolante: quando se sabe que, já no século XXI, neste país houve quem decidisse destruir milhares de exemplares da «colecção azul» da Editorial Caminho, mais fácil se torna aceitar que o problema, provavelmente, não está, e nunca esteve, na escrita.

(Adenda: Fui contactado por Álvaro Holstein, que me informou da existência do livro «História Maravilhosa de D. Sebastião Imperador do Atlântico», escrito por Samuel Maia e publicado em 1940, e que terá sido, e é, o primeiro livro de história alternativa portuguesa. Pelo que pude ler e depreender do índice tal parece ser verdade, mas só quando puder tê-lo nas mãos, folheá-lo e, eventualmente, confirmar esse facto, é que renunciarei à primazia, neste aspecto, de «A República Nunca Existiu!». Se e quando o fizer… será sem qualquer problema, sem ressentimento, sem tristeza. Muito pelo contrário! Porque, neste assunto, e de uma forma ou de outra, eu «ganho» sempre: «História Maravilhosa…», de que eu nunca tinha ouvido falar até agora, constituirá mais uma prova de que «o fantástico é o género dominante na literatura portuguesa» como eu afirmo no meu artigo «A nostalgia da quimera». Mais: também no início de Março, e numa coincidência curiosíssima, duas pessoas – Manuel Curado e Nuno Fonseca – mencionaram-me o mesmo autor, Cândido de Figueiredo (sim, o do dicionário!), por causa da mesma obra, «Lisboa no Ano Três Mil», de que eu também nunca tinha ouvido falar até agora, publicada em… 1892! Ou seja, e ao contrário do que afirma João Barreiros, Jules Verne provavelmente terá mesmo deixado – pelo menos – uma «semente» em Portugal que «floresceu» ainda no século XIX! Sim, afinal houve alguém no nosso país que imaginou «ter visto o futuro» antes de 1900.)

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