Hoje de manhã fui dar um saltinho à zona de exibições de uma convenção de ficção científica. Até aqui, nada de especial… se não fosse o facto de nem sequer me ter levantado da minha cadeira.

A convenção em questão é puramente virtual. Existe apenas dentro do mundo virtual do Second Life®. Sendo a terceira edição da SL Science Fiction Convention, ocupa uma área de 512 x 512 m² repleta de stands. A actividade é apoiada pela American Cancer Society, que aceita donativos que podem ser efectuados dentro de dispositivos espalhados pela área da zona de exposições; até à data tinham já sido recebidos mais de €8500.

Para que é que existe uma convenção de ficção científica dentro do Second Life? A explicação é ao mesmo tempo interessante e complexa. Existem centenas ou milhares de jogos de ficção científica, sejam single-player ou multi-player, mas o que acontece sempre é que não podemos “transitar” de plataforma para plataforma. Estamos sempre isolados ou limitados a cada jogo a que nos ligamos. Podemos, é certo, usar o mesmo login para a nossa personagem, login esse que depois podemos usar em forums, blogs, grupos de discussão, etc. de forma a que os nossos amigos e conhecidos nos reconheçam. Mas a verdade é que não podemos usar o mesmo personagem em todos esses jogos.

Também estamos, efectivamente, limitados àquilo que os designers de cada um desses jogos nos permitem fazer. É, pois, impossível, por exemplo, recriar uma batalha entre a Battleship Galactica, uma Death Star, e uma frota da Federação (do Star Trek). Só os problemas legais de direitos de autor seriam mais que suficiente para impedir qualquer empresa de desenvolver um jogo que permitisse isso…

É por isso que existe um vastíssimo número de fãs de FC, SciFi e fantástico que, fartos das limitações impostas à sua criatividade nos diversos jogos de FC, tem procurado há alguns anos uma alternativa. Desenvolver o próprio jogo é uma tarefa inglória, complexíssima, e, principalmente, muito cara; mesmo usando um grande grupo de voluntários, não existem muitos exemplos de jogos colaborativamente criados pelo fandom. Há sempre uma entidade qualquer que tem de “subsidiar” os custos de desenvolvimento!

Assim, um grande grupo de milhares de jogadores, programadores, artistas e modeladores 3D têm recorrido ao Second Life para criarem os seus jogos. É evidente que o Second Life tem as suas limitações. Mas tem a enorme capacidade de criação facilitada de conteúdo e de programação relativamente acessível — diminuindo drasticamente os custos. Não é preciso desenvolver um motor de renderização 3D de raíz (ou, pior, licenciar um). Não é preciso criar um interface de utilizador. E pode-se reutilizar com facilidade imensas coisas já existentes.

O melhor de tudo, claro, é que é possível “saltar” de um jogo para o outro com exactamente a mesma personagem. O registo faz-se uma vez apenas no Second Life, e a partir daí, usa-se o mesmo avatar para centenas de jogos em simultâneo.

Obviamente que cada jogo tem as suas regras (impostas pelos próprios jogadores!), o que significa que para cada um será necessário dotar o nosso avatar de equipamento diferente. Aqui também o Second Life tem uma enorme facilidade: o comércio interno de conteúdos 3D (que inclui literalmente tudo, desde a roupa aos cenários, passando mesmo pela forma como os nossos avatares se mexem) gerou uma economia surpreendentemente estável e que vale meio bilião de Euros anualmente. Não é, pois, difícil encontrarmos exactamente o que queremos para personalizar o nosso avatar — e se não encontrarmos (e tivermos algum jeito!) podemos fazer nós mesmos o que quisermos. Gratuitamente.

Isto gerou uma pequena indústria de especialistas que desenvolvem “conteúdo de FC genérico” para residentes do Second Life. Algum desse conteúdo, claro, é muito focado num tema ou numa série específica. Outros criadores de conteúdo são transversais a todos os temas — afinal de contas, uma nave espacial é uma nave espacial, e pode, em teoria, ser usada em qualquer ambiente futurista. E evidentemente ninguém está “obrigado” a usar um tema existente específico: há muitos MMORPGs (jogos multi-utilizador) que são baseados em temas criados de raíz pelos próprios jogadores.

Obviamente que há limitações: batalhas com mais de 30 jogadores em simultâneo tornam-se um pesadelo. Mas nem tudo são batalhas. Há mesmo momentos de “relax” em que os jogadores se juntam num bar virtual, ouvem música, e discutem os seus filmes, séries, ou livros favoritos. Há uma vertente social muito forte no Second Life que se espelha igualmente nas comunidades que passam a grande parte do seu tempo a lutar contra os Klingons nos dias pares, e a matar Stormtroopers nos ímpares, com uma caça ao vampiro à noite para desenjoar…

Se a “cantina” do primeiro filme do Star Wars se tornou um ícone do cinema, recriando com forte impacto visual um ambiente cheio dos mais diversos tipos de alienígenas, o Second Life vai ainda mais além — uma reunião de fãs dos mais diversos tipos de séries e temas é uma coisa digna de se ver. Não há convenção de cosplay que consiga sequer captar a diversidade e criatividade do tipo de ambiente que se gera quando centenas de jogadores dos mais diversos tipos de jogos se juntam no mesmo espaço…

E como gostam de trocar experiências entre si, anunciar novos jogos ou expansões dos existentes, ou meramente exibir o conteúdo que desenvolveram para venda, surgiu então esta convenção de ficção científica no Second Life. Parece que estamos a passear pela FIL do século 26 ou 30. Os stands são surreais — mas talvez o mais surreal seja a forma como somos atendidos de forma profissional, por alienígenas ou space marines, por pessoas que estão ali a vender os seus serviços, a anunciar os seus produtos, ou a divulgar os seus jogos favoritos dentro do Second Life. E a intervalos regulares há outras actividades — concursos de design da melhor nave espacial ou espectáculos de música ao vivo.

Se quiserem dar uma espreitadela, fica aqui o programa. E seguem algumas imagens ilustrativas do tipo de stands que podem por lá encontrar…

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