«Dick-less»

9789896372767

Normalmente, a publicação em Portugal de mais traduções, de versões em Português, de livros de ficção científica e de fantasia é sempre algo de bom, de muito positivo, de saudar efusivamente; mais ainda se forem de obras fundamentais do género, independentemente das épocas e dos países de onde provêm… e muito mais ainda se forem de autores tão (justamente) consagrados e celebrados como Philip K. Dick. Porém, há excepções, que se constituem de facto enquanto tal quando o trabalho de adaptação para a nossa língua, para a nossa ortografia, não está à altura do original, é deficiente, e/ou desonra o próprio fundamento da obra…

… E disso são (maus) exemplos as recentes edições (saíram neste mês de Agosto), pela Relógio d’Água, de dois blocos de papel que pretendem passar por «traduções» de livros de Dick, «The Man in the High Castle» e «Do Androids Dream of Electric Sheep?» – este, como se sabe, o que deu origem ao filme «Blade Runner», em 1982 realizado por Ridley Scott e protagonizado por Harrison Ford – a continuação, realizada por Dennis Villeneuve, deverá estrear em 2017. Eu não li nem um nem outro, nem vou ler, mas sei que não só não são de recomendar como também são de evitar a todo o custo: é que ambos estão vertidos segundo o abominável «acordo pornortográfico», ostentando o segundo, aliás, o lamentável título «Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?» – repare-se, além de na falta de «c» em «eléctricas», na falta do acento grave no «o» de «andróide»… Isto só pode surpreender quem não costuma (tentar) acompanhar regularmente (como eu) o meio editorial nacional: a RdA, efectivamente, é uma das editoras que decidiu submeter-se ao fascismo ortográfico decretado pelos «malacastrados» (isto é, Malaca Casteleiro e companhia muito limitada), pelo que tem vindo, desde o início deste ano de 2015, a aplicar o AO90 a todas as obras estrangeiras que lança, e quiçá a portuguesas, a não ser, claro, que os autores a isso se recusem. A RdA é, pois, uma empresa «Dick-less», e em mais do que um sentido…

… Tal como é «Dick-less» a Saída de Emergência, cuja «conversão» ao «acordês» é anterior, e que, por ser uma editora que desde sempre privilegiou a FC & F, mais patética, mais ridícula se torna por utilizar uma «ortografia» do tipo «newspeak» que é a concretização dos pesadelos distópicos tidos e escritos por artistas que supostamente reverencia e cujos avisos alegadamente leva a sério. Mas a SdE é «Dick-less» também literalmente, porque antes tinha no seu catálogo… «O Homem do (no) Castelo Alto», numa tradução de David Soares que, essa sim, eu li e recomendo… mas já não tem; pura e simplesmente, desapareceu do sítio da editora, (à semelhança, aliás, de «(A) Voz do Fogo» de Alan Moore, outra tradução do David), mas nos sítios da FNAC e da Wook aparece, embora com a indicação «esgotado» ou «não disponível». Este «vazio» é intrigante por dois motivos: primeiro, o facto de um livro deixar de ser produzido, impresso, publicado não tem de significar (e, habitualmente, não significa) que seja «estalinisticamente» apagado da «fotografia», da história, dos registos da respectiva chancela; segundo, em 2015 (ou seja, cinco anos depois de ter sido editada originalmente), a obra foi relançada com uma nova capa, alusiva à série televisiva homónima produzida pela Amazon e entretanto estreada nos EUA, e mereceu inclusivamente uma referência elogiosa em artigo no (infelizmente «acordizado») jornal digital Observador.

Fica pois a sugestão: procurem esta edição, quer com a nova quer com a antiga capa, se não em livrarias, então em alfarrabistas e em bibliotecas. Ou leiam no original, em Inglês, apesar dos muitos «ph»’s. 😉