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Um dos livros que li no segundo quadrimestre deste ano – ou seja, constituiu uma das minhas «leituras de Verão» de 2014 – e que escolhi como o meu «destaque literário» daquele período foi «O Homem no Castelo Alto», de Philip K. Dick – o famoso romance de ficção científica… e de história alternativa que parte da premissa de que foram os países do Eixo, e não dos Aliados, que venceram a Segunda Guerra Mundial.

A edição que utilizei não só contou com uma nova tradução, a cargo de David Soares, mas também com um ensaio sobre o autor e a sua carreira, a cargo de Nuno Rogeiro. Claramente um grande admirador e conhecedor de Philip K. Dick, Rogeiro não só situou, contextualizou, «O Homem no Castelo Alto» no conjunto da obra de Dick como, sucintamente, passou em revista todos os principais livros (romances) daquele (faltaram os contos), tudo reforçado com diversas citações de estudos sobre o autor de «Ubik», demonstrativos da existência de uma vasta bibliografia universitária e académica dedicada a PKD.

Porém, o conhecido comentador, jornalista e professor fez ainda mais: aludiu a diversos livros de outros autores, uns e/ou outros (injustamente) pouco conhecidos (em Portugal, e não só) mas potencialmente (muito) interessantes, como factores adicionais de comparação e de enquadramento do trabalho de Philip K. Dick e das influências que ele eventualmente terá recebido. Segue-se uma lista (ordenada cronologicamente) dessas obras mencionadas, com as respectivas (breves) sínteses do próprio NR:

«Napoleon Apocryphe» (1836), Louis-Geoffroy Château – «um livro “ucrónico” que percorreu a França do século XIX. Trata de uma “história alternativa” do bonapartismo, entre 1812 e 1832, com a conquista do mundo e o império universal, e o propósito expresso de ser um panfleto encomiástico e exaltante.» (pág. 36)

«Le Monde Tel Qu’il Sera» (1846), Émile Souvestre – «um percursor; aí já se pintava um futuro negro e alucinante, em que as cidades são gigantescas cloacas, e um pequeno país como a Suíça foi comprado por uma companhia, rodeado de muralhas e explorado como parque de repouso e diversão.» (pág. 40)

«Lord Of This World» (1907), Robert Hugh Benson – «um futuro centrado no conflito entre uma Igreja Católica acossada, cercada, reduzida a poucos núcleos, e um crescente império secular, baseado na Franco-Maçonaria, numa combinação capitalista-comunista e numa espécie de anti-papa críptico.» (pág. 35)

«The Man Who Was Thursday» (1908), G. K. Chesterton – «grande romance, tratando também o tema do mundo ilusório, entre outros tópicos, parece estranhamente e impossivelmente Dickiano, escrito que foi em 1908.» (pág. 21)

«The Machine Stops» (1909), E. M. Forster – «celebrizado pelos retratos mordazes da sociedade de classes britânica (“Howard’s End”, “Room With A View”, “Maurice”), concedeu também alguma atenção à ficção científica distópica, em 1909, com (este) brilhante conto. Relato humanista e pessimista de uma sociedade controlada por máquinas, de indivíduos isolados e (aparentemente) resignados, antecipa, se não alguns temas, pelo menos o clima ”negro” do Dickianismo. E coloca a questão das formas institucionais de controlo da tecnologia, também uma obsessão (talvez menor) Dickiana.» (pág. 33)

«The Flying Inn» (1914), G. K. Chesterton – «genial e perturbante (se bem que irónico e “ligeiro”), em que o futuro é também dominado pela religião. Mas trata-se do Islão e trata-se do Reino Unido. Este passa a ser governado por uma elite muçulmana “progressista”, que proíbe o consumo de álcool e estabelece uma espécie de “Lei Seca” na Inglaterra, Escócia, no País de Gales e na Irlanda, mas com vácuos legais, preenchidos por um duo imaginativo de vendedores.» (pág. 35)

«We» (1921), Yevgeny Zemyatin – «no ramo distópico, um clássico do princípio do século XX, escrito em 1921, com a sua concepção de mundo carcerário, totalitário, racionalista, utilitário, tecnocrático, autocrático, aparentemente socialista e colectivista, massificador e concentracionário, mas concretizado numa misteriosa oligarquia criadora de uma nova linguagem, de uma nova historiografia, de uma nova moral e até de uma nova mundivisão do futuro.» (pág. 33)

«Napoléon Bis» (1932), René Jeanne – «e se Napoleão tivesse sido feito prisioneiro pelos cossacos durante a campanha da Rússia?» (pág. 43)

«It Can’t Happen Here» (1935), Sinclair Lewis – «nome maior das letras americanas, também entrou na arena das distopias. Não se trata de um relato fantasista de um futuro remoto, mas um grande fresco pessimista de uma América próxima, populista e neo-nazi, que alguns viram como uma espécie de revisão do género por um lente filo-marxista.» (pág. 34)

«Swastika Night» (1937), Katharine Burdekin – «ensaia um outro tipo de visão negativa do futuro, baseada, por um lado, em especulação sobre rumos possíveis, e por outro na reunião de dados verificáveis no então presente. Trata-se de um muito distante devir, em que o Terceiro Reich cumpre a profecia de um império milenar, e em que Hitler se transforma numa espécie de santo laico, revisitado até ao seu aspecto físico, e seguido por massas acéfalas ou acríticas. Não temos provas, no entanto, de que Dick conhecesse esta obra obscura.» (pág. 34)

Nuno Rogeiro refere igualmente «The Sound Of His Horn» (1952), de Sablan (pseudónimo de John William Wall), «Two Dooms» (1958), de Cyril Kornbluth, e «Camp Concentration» (1968), de Thomas M. Disch, apesar de as sínteses que faz destes livros serem mínimas ou practicamente inexistentes. No entanto, pelos seus temas suscitam muito interesse, tal como as restantes… Todas estas obras referidas ainda não estão, tanto quanto me foi possível apurar, traduzidas para Português. Fica a informação… e a sugestão para quem quiser «pegar» nelas, seja para lê-las no original e/ou para vertê-las na nossa língua…. de preferência, claro, sem «aborto pornortográfico».

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