Mais uma «viagem ao passado» (mais ou menos recente): há 20 anos, mais concretamente no número 4 da revista Inter.Face (de cuja redacção fiz parte), editado em Abril de 1998, escrevi e publiquei o artigo «Podem os humanos ler livros eléctricos?», e em que, sob uma óbvia referência, «piscadela de olho», ao romance «Do Androids Dream of Electric Sheep» de Philip K. Dick (em que o filme «Blade Runner» se baseou), tentei traçar um panorama e até uma previsão sobre o então nascente segmento dos «e-books». Seria talvez interessante comparar o antes com o agora. Entretanto, deixo alguns excertos daquele meu texto.

As novas tecnologias da informação e da comunicação estão a mudar tudo. A literatura não é excepção, e as mudanças que nela se estão a operar não se limitam aos aspectos técnicos. Cada vez mais iremos criar hábitos de leitura… electrónica. (…)

Virgílio Azevedo lembrava também que a emergência da Sociedade da Informação está a colocar todas estas questões numa outra perspectiva. E o que é curioso, e grave, é que «em Portugal poucos responsáveis pelo sector se estejam a aperceber desta mudança.» Este jornalista referiu igualmente que, num estudo oficial sobre hábitos de leitura da população portuguesa feito em 1995, tinha sido esquecido um grupo de leitores com uma taxa de crescimento ainda mais rápida do que a leitura de revistas: «Estou a referir-me aos que gastam a maior parte do seu tempo diário de leitura na Internet. São novos hábitos que atraem principalmente as camadas mais jovens da população, as tais que estão a afastar-se cada vez mais dos livros e dos jornais. E que vão obrigar a repensar radicalmente todo o problema.»

Em Portugal há pessoas que já pensam no problema. Incluindo escritores. Em entrevista concedida em Novembro passado, no Diário de Notícias, a Maria Teresa Horta, Luísa Costa Gomes mostrou estar «sintonizada» com os novos tempos. Referindo que «ninguém pode inundar os leitores com livros e já há livros a mais, tem de haver um certo espaçamento, há editores a mais, só não há escritores a mais», esta escritora não acredita que as novas tecnologias acabem com os livros. Pelo contrário: «Nunca se escreveu tanto como agora, se você entrar na Internet tem aí milhões de escritores! Os computadores é tudo leitura e escrita! Pessoas que nunca escreveram uma linha conseguem, num computador, fazer “conversa de chacha” durante horas. Ora, o que é que eles estão a fazer senão escrita?» (…)

Em 1995, Jorge Henrique Bastos recordava, no Expresso, num artigo intitulado «De Gutenberg à Internet», as opiniões de três pensadores sobre «o futuro do livro».

Walter Benjamin, espantado com a multiplicidade da escritura vertical e icónica dos anúncios luminosos numa rua alemã, «profetizava»… em 1929: «Creio poder dizer que o livro, tal como o conhecemos, se aproxima do fim.» Mais recentemente, Roger Chartier afirmava: «É necessário reflectir sobre os efeitos dos textos electrónicos no que toca à produção, ao mercado, à biblioteca e ao banco de dados. Não sabemos quais os efeitos para a literatura provocados pelo advento e generalização do texto electrónico. É uma nova técnica radicalmente diferente das formas impressas.» Também não há muito tempo, Maurice Blanchot considerava: «Não é só a especialização mas a importância técnica de um saber quase instrumental, que não encontra nenhum sentido fora da prática, o que acaba por enfraquecer o juízo sério sobre os livros.»

Para JHB, a «sombra da Biblioteca de Babel» espreitava por trás destas palavras. E confessava o receio de o leitor do futuro perder-se irremediavelmente nos «confins hipnóticos dos labirintos das redes de informação», especializando-se «em tudo e em nada ao mesmo tempo». Mais do que isso: uma espécie de «sonho borgesiano» (uma referência ao imaginário do escritor argentino Jorge Luís Borges) pairava como «uma presença viva ao falarmos na possibilidade da globalização e uniformização do livro à escala planetária, agora instaurado sob a égide das novas tecnologias. Por enquanto, o livro electrónico é só um livro por vir.» Era… porque já chegou!

A expressão «livro electrónico» pode ter dois sentidos. O primeiro refere-se à colocação, disponibilização e/ou comercialização de obras «em carbono» na Internet. Mais concretamente, às cerca de 500 «livrarias virtuais» existentes actualmente na Rede, e que exibem os seus catálogos completos, estabelecem compras (mais ou menos) seguras com o número do cartão de crédito do leitor/cliente, e depois enviam, por correio, os livros pedidos para o Mundo inteiro. Por serem virtuais, os catálogos destas livrarias podem ser quase infinitos: não implicam investimentos iniciais na compra dos livros nem custos de armazenamento, porque os livros só são encomendados às editoras depois de os leitores os encomendarem. Por serem digitais, oferecem aos leitores a possibilidade de procurar livros por título, autor, tema, entre todas as combinações possíveis. A Internet constitui também, e antes de mais, um excelente instrumento de marketing, porque possibilita que determinados títulos se evidenciem entre, por exemplo, as mais de 50 mil obras publicadas todos os anos nos Estados Unidos. (…)

Uma prova adicional em como a Internet aumenta o apreço pela «real thing» está no livro «The Book Lover’s Guide To The Internet» ou «Onde E Como Encontrar Tudo O Que Há Na Internet Sobre O Mundo Das Letras Mas Que Nunca Soube Que Lá Estava», editado em 1996. É seu autor o jornalista americano Evan Morris, cuja coluna literária «Words, Wit and Wisdom» é publicada em jornais norte-americanos, mexicanos e japoneses. Ele decidiu escrever este obra em 1995 porque procurara até então, sem sucesso, um livro que ordenasse e sistematizasse a informação existente na Rede sobre escritores, editores, livros, publicações literárias, livrarias, bibliotecas, dicionários e enciclopédias – incluindo os/as que estão esgotados ou que são problemáticos de conseguir. (…)

Na opinião de Evan Morris a Internet é uma benesse e não uma calamidade para a literatura. Porque o objecto «livro» nunca será superado: «Não é provável que a horrível visão de um mundo sem livros se concretize. Não é previsível que os livros electrónicos alguma vez substituam os livros reais, simplesmente porque estes são, e continuarão a ser, melhores. Os livros não precisam de pilhas; os livros não se vão abaixo; os livros podem levar-se para a praia ou para a banheira – tente isto com um computador – e podemos escrever algo num livro de que gostamos e depois dá-lo de presente, num acto que tem poucos iguais em termos de significado emocional.» (…)

Joseph Jacobson, Barrett Comiskey, Chris Turner, Jonathan Albert e Perry Tsao, investigadores do Media Laboratory do Massachusetts Institute of Technology, conceberam um computador… em forma de livro. O seu trabalho é descrito num artigo publicado no IBM Systems Journal Vol. 36, Nº 3, de, 1997, com o título sugestivo «The Last Book» (e que está acessível on-line em http://isj.www.media.mit.edu/projects/isj). Um projecto que talvez constitua uma resposta às questões, e às dúvidas, levantadas por pessoas como o astrónomo Clifford Stoll: «Com o que é que se parecerá o livro digital? Julgo que com alguma forma de computador portátil. Descarregaremos algumas selecções e folheá-las-emos electronicamente. Já tentei ler livros electrónicos. São péssimos. Que excelente forma de afastar as pessoas das bibliotecas.»

Para que isso não aconteça, os investigadores do Media Lab propõem um computador em que o «ecrã» é uma «folha» de plástico coberta, nas duas faces, por uma tinta electrónica que é endereçada ponto a ponto, tal como num ecrã de cristais líquidos. Quando se quer mudar a cor de um ponto da página, há que accionar o dispositivo de controlo, que envia uma descarga eléctrica através de dois eléctrodos, os quais fazem, por sua vez, com que a partícula de tinta gire e apresente uma cor diferente. Comparado com um ecrã de cristais líquidos, este sistema tem as vantagens de poder funcionar sem retroiluminação, consumindo por isso muito menos energia, e de o material-base poder ser flexível por forma a imitar as folhas de um livro normal. Este livro electrónico pode ser reescrito infinitamente, iniciando-se um processo de autotipografia de cada vez que o seu conteúdo é descarregado. (…)

Uma coisa é certa: vamos precisar de prateleiras maiores para guardar a nossa futura «biblioteca electrónica» …

(Imagem daqui.)

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