O homem não tinha pernas.

Abria caminho através da multidão, penosamente, ajudado por dois braços curtos e fortes. Arrastava-se em direcção a um prato de plástico velho e sebento cheio de moedas. Quando finalmente alcançou o prato, deu-lhe um encontrão com o corpo que o fez deslizar velozmente pelo passeio com um tilintar furioso. E sem parar, avançou novamente para o prato. Na boca, em equilíbrio precário, uma gaita de beiços dançava ao som da música. Meu Deus, que música! Era alegre, atrevida, surpreendente para alguém naquelas condições.

Merlim estava sentado na sua mesa habitual da esplanada. Seguia a cena com atenção, meio divertido, meio admirado com a determinação e coragem do homem, assim como a irreverência daquela música. Ficou a observar as pequenas notas que se escapavam alegremente do instrumento. Elevavam-se no ar como bolas de sabão, indo depois morrer com um pequeno “plop” nas caras cinzentas dos transeuntes. Alguns paravam, remexiam os bolsos e deixavam cair distraídamente uma moeda.

«Não é a ele que estão a dar uma esmola», pensou Merlin, «mas sim ao conceito que têm dele. Ou seja, o conceito geral de mendigo. Um pedinte como outro qualquer. Mas a ele, nem sequer o vêem. Nem sequer o ouvem ! Estão a obedecer mecanicamente a um cliché. Mais uma tentativa para comprar um quinhão de boa consciência.»

Encolheu os ombros, olhando à sua volta. Um homem gordo tinha acabado de se sentar numa mesa ao lado da sua. O empregado aproximou-se carrancudo. Fez um gesto inquiridor, uma espécie de aceno, com a cabeça.

– Uma bica – Deixou escapar, o homem, entre dentes. O empregado emitiu um grunhido, virou-lhe as costas e desapareceu dentro do café. Um minuto depois, estava de volta com uma chávena fumegante que pousou abruptamente na mesa.

«Nem bom dia, nem boa tarde, nem se faz favor, nem obrigado.» Pensou Merlim suspirando. Já vivera em várias eras da humanidade, e algumas até bem difíceis, mas não se lembrava de ter assistido a tanta indiferença entre os homens como neste fim de século XX.

Voltou novamente a sua atenção para a rua. O homem da harmónica desaparecera do seu campo de visão mas ainda lhe ouvia a música. Bruscamente parou.

«Talvez esteja cansado, ou então está a contar as moedas.» Agora que a música parara, Merlim percebia o quanto ela enchera a rua.

Bebeu o resto da cerveja, limpou a espuma da barba com as costas da mão, recostou-se na cadeira e começou a observar a multidão que circulava nos dois sentidos. Rostos fechados como portas de prisões. Expressões que variavam subtilmente entre uma melancolia profunda e o desprezo total por tudo e todos. A maioria delas denotava uma apatia completa, um olhar distante e vidrado, uma vida sem sentido. «Estão mortos mas ainda não o sabem.», disse para consigo, «Os corpos ainda vivem mas a sua alma deixou de existir. Morreu de morte natural, simplesmente porque foi esquecida.»

«Tenho curiosidade», pensou, «se fizesse desaparecer os corpos de todos aqueles que perderam a alma, quantas pessoas ficariam nesta rua? Cinquenta? Vinte? Dez ?»

Embora tentasse pensar em outras coisas, esta ultima ideia ficou a flutuar no seu espírito, firmemente agarrada, como uma fruta verde ao ramo da árvore. Eventualmente a fruta ficaria madura. E foi o que aconteceu: a curiosidade foi mais forte. Os olhos do velho mago ficaram fixos e adquiriram um reflexo vermelho. O corpo tornou-se hirto. Começou a emitir sons sem mexer os lábios: – HANAL NATRACH … -Da boca escorreu um fio de fumo que em vez de se elevar, como seria normal, desceu espalhando-se pelo chão. Rapidamente a neblina envolveu toda a rua…

Quando Merlim recobrou os sentidos, o nevoeiro começava a dispersar revelando … nada ! A rua estava deserta, silenciosa.

«Não acredito ! Não ficou um único» murmurou.

Ficou boquiaberto, contemplando o passeio que, minutos antes, fora pisado por centenas de pés. O resultado da sua experiência tinha ido muito além do que suspeitava.

Nunca imaginara que eram assim tantos os “vazios por dentro”.

Um ruído quebrou o silêncio. Um som que lembrava um objecto a ser arrastado, logo seguido pelo barulho de moedas que se entrechocavam. Duas ou três notas de música elevaram-se, timidamente, em direcção ao céu. Depois outra, e mais outra. E uma alegre música espalhou-se pela rua deserta.

Merlim sorriu.

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