As alvoradas entremalhadas na cara dos corvos, e então como a subtender-se do fim dos tempos no fim de um único dia, levantaram vôo. Sem mais penas do fim da noite ainda distante, pela sombra da lua, os corvos pousaram numa caçada noturna sobre os corpos do cadáver de Solofernes. Aqueles restos nada mais podiam a não ser retroceder ao pó; no entanto, na fúria incontida dos corvos por desvencilhar dos ossos os vestígios das carnes, um solavanco de indignação revolveu o esqueleto. Quando percebeu que morrera, Solofernes teve uma crise de remorso pela falta substancial de sua pele, ao que matando três corvos que estavam a devorar-lhe o que lhe sobrara de entranhas, com as penas negras teceu um manto e com o sangue melado dos pássaros mortos, o colou aos ossos expostos, fazendo de sua nudez de desolação uma veste negra feita de andrajos de outros cadáveres.

Caminhou a noite inteira seguido de perto pelos corvos, ainda esperançosos que a podridão da carne, para alimenta-los, se desprendesse dos ossos; mas Solofernes sabia muito bem que mataria ser qualquer que se aproximasse, menos pela revolta de estar podre, do que pela necessidade de defesa do pouco de substancia que ainda o possibilitava o movimento.

Pouco antes das primeiras luzes da aurora a insuflarem-se sobre a madrugada, Solofernes encontrou uma fogueira rodeada de mendigos, os quais o vendo, decrépito como um resto e rodeado de corvos, puseram-se a gritar e com paus e pedras desmantelarem o que ainda restava de vida sobrenatura naquela ruína. Mas Solofernes não rendia-se a dor, que conseguiu agarrar, matou. E pela fome, comeu a carne. Seguido ainda dos corvos, tentou correr, mas as velocidade das asas se interpôs a sagacidade das pernas e então caído, envolto de uma multidão de pássaros a bicar-lhe todas as partes a tirar-lhe pedaços, adormeceu novamente antes que a aurora chegasse, e os corvos, como que pelo instinto natural de comer apenas o que não se mexe, revelaram ante aos olhos vazados de Solofernes, a contemplar a destruição completa a que estava sujeito, a incorruptível força que transcende o que de natural não passa de uma regra quebrada.

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