Ela abriu os olhos para o céu. Nuvens, duas ou três, cor de fogo como o fogo. Estrelas, três ou quatro, cintilantes resistentes ao fulgor do horizonte. No horizonte, o Sol, disfarçado de bago de laranja. Ela encheu o peito do ar fresco da manhã. Sabia a ervas e a pólen mas não sabia a casa. Nem o céu sabia a casa. Nem o Sol.

Ela passou os dedos pelos cabelos como quem afaga animais de estimação. Sim. Os cabelos sabiam a casa, e naquele gesto privado havia o conforto de fazer algo de básico, animal. Era uma atenção de uma parte do seu corpo para outra parte do seu corpo. Era casa.

Ela baixou os olhos para o lago, lá muito em baixo. A água chamava-a num apelo sem palavras. A água. Aquela substância que ali e então se apresentava quase negra, vazia do Sol, vazia de luz. Mas cheia de uma vida adivinhada.

Ela tirou a túnica num gesto gracioso. Um gesto feminino. Um gesto que acentuava a beleza do seu corpo. A harmonia do seu corpo. De todo o seu corpo. A túnica caiu sobre a rocha nua. E o movimento era lento, tão lento que não sabia a casa.

Ela baixou-se sobre a rocha nua e desapertou os fechos das sandálias. E os seus pés moveram-se com a alegria das coisas recém-libertas e desceram sobre a rocha nua. Então ela ficou nua.

Aguardou que o Sol chegasse ao lago. Aguardou que a vida chegasse à mãe da vida. Aguardou que os receptores térmicos da sua pele lhe dissessem que sim. Que a temperatura estava certa. Que a luz também. Que apesar de toda a estranheza, havia um pouco de casa naquele lugar.

Sim, disse o seu corpo. E os músculos das coxas retesaram-se e distenderam-se, impulsionando-a para a frente e para cima. Voou e sentiu-se a voar, e isso era de tudo o que menos sabia a casa. Não saberia descrever o vento que lhe sacudia o cabelo, ou os seios, ou os pêlos púbicos. Não poderia explicar a perfeição do salto, ou como é sentir o movimento.

Nem encontraria maneira de compartilhar a entrada naquele meio estranho. Ali não havia ar a não ser o ar que entrara consigo e que agora corria para a superfície sob a forma de gotas. Uma imagem de espelho do que se passava do outro lado do espelho, no sítio onde havia ar e não água. Centenas de gotas entre o ar de um lado, centenas de gotas entre a água do outro, e no meio estava ela. O entre era ela. O corpo dela.

Cada vez mais entre água que entre ar. Cada vez mais fundo. Cada vez mais perto do fundo do lago.

As primeiras ampolas brotaram-lhe das mãos porque foram elas que primeiro contactaram com a água. Mas logo lhe começaram a surgir pequenas excrescências na testa, na face, nos seios, no tronco, nas pernas, por esta ordem, do lugar mais exposto para o mais recôndito. Por todo o corpo, em progressão rítmica. E quando finalmente chegaram às solas dos pés, já as mãos estavam envolvidas noutra nuvem de gotas. Gotas de um líquido gasoso. Um líquido amarelo, um gás esverdeado. E o lago começava a ficar azul.

Ela deu uma pirueta entre as gotas. Os pulmões pediam-lhe ar, a pele pedia-lhe solidez, o corpo pedia-lhe repouso. Por isso ela deu um impulso com os pés e voltou à superfície.

Ao nível do lago surgiu uma massa castanha cheia de pequenos orifícios fumegantes. Ouvia-se uma infinidade de pequenos silvos como se ali cantasse um coro de serpentes. Um orifício maior surgiu de repente e ar foi aspirado num gorgolejo. A massa fez alguns movimentos sem nexo aparente. De relance puderam ver-se membros em rápida redução e toda aquela água sibilava, agitava-se, fumegava. Três mil anos dissolviam-se em três minutos de agonia.

Depois de alguns movimentos desconexos à superfície, a massa castanha afundou-se de vez. De cima, das rochas, podia ver-se uma coisa alongada a desaparecer rapidamente no fundo do lago, deixando atrás de si uma esteira de gotas e fragmentos de vida. Partiu-se uma última vez em duas metades, lá bem no fundo, e desapareceu, uma metade e depois a outra.

O último pensamento dela foi um clarão de alegria. Morreu feliz, longe de casa.

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