«O Verdadeiro Dr. Fausto»,

2010-08-27 7:05 | Em Destaques, Feeds FC&F (sites externos) | LFS | Comentários Desligados «O Verdadeiro Dr. Fausto», trabalho de ano e meio sobre o qual ainda não me pronunciei devidamente - como aliás, outros projectos - teve destaque particular de José Guardado Moreira na secção Atual do Expresso da passada semana (21 de Agosto), que não só entendeu inteligentemente a intenção do livro como lhe atribuiu quatro estrelas. Espero que este empurrão simpático contribua para criar algum furor junto dos leitores, já que o pobre do livro anda muito calado pela blogosfera. Mostre-se o mundo como efectivamente era há alguns séculos, repleto de doença, penúria, repressão e maldade, e sem dragões nem cavaleiros de cuidada higiene nem feiticeiros bondosos, e é ver o colectivo de apreciadores de fantasia fugir em debandada...

Perspectivas em retrospectiva

2010-08-10 16:48 | Em Sem categoria | Octávio dos Santos | Nenhum comentário

É sempre interessante, quando tal é progressivamente (isto é, temporalmente) possível, revisitar e comparar com a «realidade» obras de FC & F, em livro e/ou em filme, que expressam ideias e imagens muito fortes sobre o futuro. Terão as suas previsões sido confirmadas, ou não? Terão os seus estilos sido ultrapassados, ou não? Duas abordagens «geek» a este tema, uma no DenOfGeek e outra no GeekoSystem.

No Final Dos Nossos Dias

2010-07-30 5:43 | Em Destaques, Feeds FC&F (sites externos) | LFS | Comentários Desligados No Final Dos Nossos Dias somos medidos pela generosidade. Generosidade que traduz, e revela, riqueza interior - algo para partilhar, algo que merece ser partilhado, algo de valor reconhecido pelos outros - e respeito - o reconhecimento de quem está do outro lado, tão difícil para certas personalidades... O riso, a dedicação e o profissionalismo são algumas das qualidades que este actor generosamente partilhou com o seu público em vida, e pelas quais, e por tantas outras, será lembrado. Tive testemunho pessoal desta generosidade - há mais anos do que conta a História, numa tertúlia que não constará dos anais, terá dedicado preciosos minutos na tarefa inglória de ler uma secção do conto «Os Poetas da Rua» do Futuro à Janela de um autor jovem e tímido. Algo que lhe calhou por sorteio ou escolha - a memória já não sabe. Mas não precisava de ter participado, e outros não o teriam feito com tanto profissionalismo. Obrigado, António. Oxalá houvesse um palco eterno no qual pudesses espicaçar as hierarquias dos Céus com as tuas personagens iconoclastas, ao invés deste maldito nada ao qual estamos todos condenados.

Consultar o calendário!

2010-07-15 17:32 | Em Sem categoria | Octávio dos Santos | Nenhum comentário

O sítio io9.com tem um calendário/guia da «science fiction awesomeness» (qualquer coisa como «ficção científica de pasmar») em que, para cada mês, informa das novidades em cinema, televisão, livros, convenções e outras coisas mais. Há o «pequeno pormenor» de quase todas essas novidades serem situadas, primeiramente ou exclusivamente (e compreensivelmente), nos Estados Unidos da América, mas não deixa de ser uma referência muito importante, e útil, para actuais e futuras «explorações». A versão mais recente é, claro, relativa a Julho.

Convenção de Ficção Científica… virtual

2010-07-10 12:06 | Em Destaques, Encontros, Home | Luís Richheimer de Sequeira | 1 comentário

Hoje de manhã fui dar um saltinho à zona de exibições de uma convenção de ficção científica. Até aqui, nada de especial… se não fosse o facto de nem sequer me ter levantado da minha cadeira.

A convenção em questão é puramente virtual. Existe apenas dentro do mundo virtual do Second Life®. Sendo a terceira edição da SL Science Fiction Convention, ocupa uma área de 512 x 512 m² repleta de stands. A actividade é apoiada pela American Cancer Society, que aceita donativos que podem ser efectuados dentro de dispositivos espalhados pela área da zona de exposições; até à data tinham já sido recebidos mais de €8500.

Para que é que existe uma convenção de ficção científica dentro do Second Life? A explicação é ao mesmo tempo interessante e complexa. Existem centenas ou milhares de jogos de ficção científica, sejam single-player ou multi-player, mas o que acontece sempre é que não podemos “transitar” de plataforma para plataforma. Estamos sempre isolados ou limitados a cada jogo a que nos ligamos. Podemos, é certo, usar o mesmo login para a nossa personagem, login esse que depois podemos usar em forums, blogs, grupos de discussão, etc. de forma a que os nossos amigos e conhecidos nos reconheçam. Mas a verdade é que não podemos usar o mesmo personagem em todos esses jogos.

Também estamos, efectivamente, limitados àquilo que os designers de cada um desses jogos nos permitem fazer. É, pois, impossível, por exemplo, recriar uma batalha entre a Battleship Galactica, uma Death Star, e uma frota da Federação (do Star Trek). Só os problemas legais de direitos de autor seriam mais que suficiente para impedir qualquer empresa de desenvolver um jogo que permitisse isso…

É por isso que existe um vastíssimo número de fãs de FC, SciFi e fantástico que, fartos das limitações impostas à sua criatividade nos diversos jogos de FC, tem procurado há alguns anos uma alternativa. Desenvolver o próprio jogo é uma tarefa inglória, complexíssima, e, principalmente, muito cara; mesmo usando um grande grupo de voluntários, não existem muitos exemplos de jogos colaborativamente criados pelo fandom. Há sempre uma entidade qualquer que tem de “subsidiar” os custos de desenvolvimento!

Assim, um grande grupo de milhares de jogadores, programadores, artistas e modeladores 3D têm recorrido ao Second Life para criarem os seus jogos. É evidente que o Second Life tem as suas limitações. Mas tem a enorme capacidade de criação facilitada de conteúdo e de programação relativamente acessível — diminuindo drasticamente os custos. Não é preciso desenvolver um motor de renderização 3D de raíz (ou, pior, licenciar um). Não é preciso criar um interface de utilizador. E pode-se reutilizar com facilidade imensas coisas já existentes.

O melhor de tudo, claro, é que é possível “saltar” de um jogo para o outro com exactamente a mesma personagem. O registo faz-se uma vez apenas no Second Life, e a partir daí, usa-se o mesmo avatar para centenas de jogos em simultâneo.

Obviamente que cada jogo tem as suas regras (impostas pelos próprios jogadores!), o que significa que para cada um será necessário dotar o nosso avatar de equipamento diferente. Aqui também o Second Life tem uma enorme facilidade: o comércio interno de conteúdos 3D (que inclui literalmente tudo, desde a roupa aos cenários, passando mesmo pela forma como os nossos avatares se mexem) gerou uma economia surpreendentemente estável e que vale meio bilião de Euros anualmente. Não é, pois, difícil encontrarmos exactamente o que queremos para personalizar o nosso avatar — e se não encontrarmos (e tivermos algum jeito!) podemos fazer nós mesmos o que quisermos. Gratuitamente.

Isto gerou uma pequena indústria de especialistas que desenvolvem “conteúdo de FC genérico” para residentes do Second Life. Algum desse conteúdo, claro, é muito focado num tema ou numa série específica. Outros criadores de conteúdo são transversais a todos os temas — afinal de contas, uma nave espacial é uma nave espacial, e pode, em teoria, ser usada em qualquer ambiente futurista. E evidentemente ninguém está “obrigado” a usar um tema existente específico: há muitos MMORPGs (jogos multi-utilizador) que são baseados em temas criados de raíz pelos próprios jogadores.

Obviamente que há limitações: batalhas com mais de 30 jogadores em simultâneo tornam-se um pesadelo. Mas nem tudo são batalhas. Há mesmo momentos de “relax” em que os jogadores se juntam num bar virtual, ouvem música, e discutem os seus filmes, séries, ou livros favoritos. Há uma vertente social muito forte no Second Life que se espelha igualmente nas comunidades que passam a grande parte do seu tempo a lutar contra os Klingons nos dias pares, e a matar Stormtroopers nos ímpares, com uma caça ao vampiro à noite para desenjoar…

Se a “cantina” do primeiro filme do Star Wars se tornou um ícone do cinema, recriando com forte impacto visual um ambiente cheio dos mais diversos tipos de alienígenas, o Second Life vai ainda mais além — uma reunião de fãs dos mais diversos tipos de séries e temas é uma coisa digna de se ver. Não há convenção de cosplay que consiga sequer captar a diversidade e criatividade do tipo de ambiente que se gera quando centenas de jogadores dos mais diversos tipos de jogos se juntam no mesmo espaço…

E como gostam de trocar experiências entre si, anunciar novos jogos ou expansões dos existentes, ou meramente exibir o conteúdo que desenvolveram para venda, surgiu então esta convenção de ficção científica no Second Life. Parece que estamos a passear pela FIL do século 26 ou 30. Os stands são surreais — mas talvez o mais surreal seja a forma como somos atendidos de forma profissional, por alienígenas ou space marines, por pessoas que estão ali a vender os seus serviços, a anunciar os seus produtos, ou a divulgar os seus jogos favoritos dentro do Second Life. E a intervalos regulares há outras actividades — concursos de design da melhor nave espacial ou espectáculos de música ao vivo.

Se quiserem dar uma espreitadela, fica aqui o programa. E seguem algumas imagens ilustrativas do tipo de stands que podem por lá encontrar…

João Aguiar, escritor de FC

2010-06-18 15:43 | Em Sem categoria | Octávio dos Santos | Nenhum comentário

João Aguiar, jornalista e escritor que morreu no passado dia 3 de Junho, tornou-se justamente conhecido e respeitado, principalmente, pelos seus romances históricos. Começando, claro, com a «A Voz dos Deuses», e continuando com, entre outros, «A Hora de Sertório», «Uma Deusa na Bruma», «O Trono do Altíssimo» e «Inês de Portugal», obras em que o passado provável do nosso país é evocado com o possível rigor dos factos, mas sempre envolto numa aura de lenda e de maravilhoso.
Sobre o presente também João Aguiar se debruçou, asssinando registos que oscilam entre o desiludido e o irónico, como «O Canto dos Fantasmas», «Navegador Solitário», «A Encomendação das Almas» e «O Priorado do Cifrão», além da sua «trilogia de Macau», constituída por «Os Comedores de Pérolas», «O Dragão de Fumo» e «A Catedral Verde» – ou tetralogia, se incluirmos «O Tigre Sentado». Porém, também nesta fase temporal o mágico e o misterioso nunca estão ausentes.
Existem ainda, obviamente, os trabalhos em que a cronologia é indefinida ou… alternativa. No primeiro caso está «O Homem sem Nome», apresentado como «uma história fantástica, quase uma história de fadas», ou «uma mensagem sobre a vida e sobre os homens», ou ainda como uma «alegoria». No segundo caso está o seu conto «Seis momentos em tempo real», incluído na antologia «A República Nunca Existiu!», em que imagina como Portugal poderia ter sido se o nosso país tivesse continuado a ser… um reino.
Não restam, pois, dúvidas de que, mais do que um autor fantástico, João Aguiar foi também um autor do Fantástico… e da Ficção Científica. Na verdade, também «viajou» até ao futuro, através concretamente de dois livros.
O primeiro é «O Jardim das Delícias», cuja sinopse é a seguinte: «Num dado momento histórico, situado para lá dos meados do século XXI, um jornalista farta-se do mundo em que vive. Esse mundo é a grande Federação Europeia, descendente directa da União Europeia. Uma Federação massificada, estupidificada, dominada pelos Estados mais poderosos, os quais, por sua vez, obedecem cegamente a grandes grupos económicos, que apenas se ocupam dos seus interesses. Ao criticar violentamente esse mundo, o jornalista apercebe-se de que a liberdade de informação já não é o que era, e de que há mais descontentes do que ele julgava. Apercebe-se, também, de que, entre esses descontentes, cresceram e ganharam força certas ideologias que, no passado, mergulharam a Europa no caos. Aproxima-se o momento de um grande confronto — e ele encontra- se no meio do campo de batalha, incapaz de aderir a qualquer dos dois exércitos…»
O segundo é «Diálogo das Compensadas», cuja sinopse é a seguinte: «Num ponto qualquer do futuro distante, certo autor decide-se a narrar um caso de proveito e exemplo ocorrido nos recuados princípios do século XXI. Como base de trabalho, ele possui fragmentos de um livro publicado nessa mesma época – escrito, portanto, em Português decadente, talvez já contaminado pelo novo idioma que viria a substituí-lo, o Yeah-Yeah-Man. Negando-se a recuar perante a dificuldade, o nosso autor aproveita as partes mais legíveis do texto original e completa-as na boa e clara linguagem do “Português Ressuscitado”. Assim surge o “Diálogo das Compensadas”, cujas principais figuras são um jovem da geração reality-show e uma abadessa não isenta de mistérios e segredos.»
Não só estes mas todos os outros livros de João Aguiar merecem ser (re)descobertos.

Daqui Para Cima É Sempre A Descer,

2010-05-24 11:01 | Em Destaques, Feeds FC&F (sites externos) | LFS | Comentários Desligados Daqui Para Cima É Sempre A Descer, ou o início.

Revista Visão - 1993
Revista Visão - 1993
Revista Visão - 1993

Polémicas em .pt, «p(i)c», q.b, sobre FC & F

2010-05-18 17:12 | Em Sem categoria | Octávio dos Santos | Nenhum comentário

Polémicas na blogosfera portuguesa, «políticamente (in)correctas», quanto baste, sobre a ficção científica e fantasia que por cá se vai lendo e escrevendo, não têm faltado recentemente… e felizmente. Os seus protagonistas principais assumem as suas identidades e as suas opiniões, embora, o que é inevitável, apareçam sempre alguns anónimos, quase sempre anódinos mas nunca com encómios.
Discussões para quase todos os gostos e sob várias perspectivas: sobre o que é e não é um texto inédito e/ou previamente publicado – Pedro Marques (com João Seixas) vs. Jorge Candeias; edição e mercado, escritores e leitores – João Seixas (um, dois, três, quatro) vs. Nuno Fonseca (um, dois); representatividade internacional do que se faz em Portugal – Rogério Ribeiro (um, dois, três) vs. Luís Filipe Silva (um, dois).
Destaque, enfim, para a «resenha» de «Espíritos das Luzes» feita por Rogério Ribeiro, «ecoada» – ou «escoada» – por Cristina Alves.

A Recomendação De Hoje

2010-05-16 20:30 | Em Destaques, Feeds FC&F (sites externos) | LFS | Comentários Desligados A Recomendação De Hoje destina-se, não aos leitores mas aos editores, para que se foquem no recente galardoado com o prémio Nébula para melhor romance de 2008: Paolo Bacigalupi.

Como já aqui dissemos, Bacigalupi é uma das grandes revelações da FC dos últimos tempos: detentor de uma prosa directa e eficiente, e de um olhar de lince perante o mundo inventado (leia-se: descrevendo o que interessa e o que serve ao propósito da história, sem excessos nem gorduras), é também imbuído de uma consciência política e social (leia-se: tem opiniões), e procura encontrar narrativas que traduzam esse desconforto perante a realidade e o presente (leia-se: não se limita a introduzir vampiros nem zombies para efeito de choque ou estranhamento em comunidades cujos estilos de vida carecem de verdadeiras provações e dificuldades).

The Windup Girl é a consolidação, em forma de romance, de um mundo e uma mensagem que tem vindo a ser explorado em contos como «The Calorie Man» e «Yellow-Card Man» (online): o que resta da nossa civilização tecno-globalizada após termos consumido a última gota de petróleo e a procura de energia (de «calorias») se torne no objectivo individual de vida, igual ao que a procura de dinheiro representava na era anterior. O mapa político global transformou-se (com o desaparecimento dos Estados Unidos), pelo que o foco do enredo se desloca para o oriente, em particular para a Tailândia, aqui descrita com a pertinência tecnológica que Gibson utilizou para o seu Japão cibernético. Além dos problemas energéticos, o planeta vê-se confrontado com os resultados da engenharia genética utilizada para fins militares e terroristas.

The Windup Girl conseguiria, creio, ser apresentado no nosso mercado enquanto fábula ecológica, dando particular ênfase ao esgotamento do petróleo e à alteração da realidade política. Alguns comentadores da praça poderiam apreciar a natureza do livro, em particular conhecendo a apetência dos mesmos para a FC. Ficção especulativa para gente inteligente.

Bem, fica a proposta.

É Espantosa A Marca

2010-05-12 6:12 | Em Destaques, Feeds FC&F (sites externos) | LFS | Comentários Desligados É Espantosa A Marca que o tempo nos deixa. Tenho recordações mais vívidas e presentes dos primeiros dez anos de leituras de Ficção Científica que dos vinte e tais que se lhes seguiram. Posso, quase sem necessidade de folhear os livros, descrever-vos com pequena margem de erro as primeiras dezenas de títulos da Livros de Bolso FC da Europa-América.

Entendo perfeitamente que, quem tivesse crescido com a Argonauta, encarasse a Bolso FC como uma jovenzinha ainda com provas para dar; afinal, a Argonauta existia desde 1957, enquanto que a última iniciara-se, agora mesmo, com a década de 80 e ainda por cima recorrendo no número inaugural à novelização do primeiro episódio da Galáctica (da série original). Contudo, foi a Bolso FC que me apresentou o universo glorioso e infinito da Ficção Científica, qual epifania religiosa, e por isso é esta que acabo por colocar em primeiro plano. Não me admira que sejam diferentes as lealdades de quem cresceu com as colecções Via Láctea e Viajantes do Tempo da Presença; mesmo quem acompanhe mais a Bang! distinguir-se-á de quem prefira a 1001 Mundos, tendo sido marcado por temas e autores, embora próximos, com suficientes graus de separação. Sem dúvida que os editores actuais são mais participativos – fruto dos tempos. Os editores da Europa-América e da Livros do Brasil existiam atrás das fortalezas, e não tínhamos acesso às suas opiniões e preferências, a não ser quando explicavam as escolhas num texto introdutório ao livro do mês.

É natural supor que seria difícil escolher a obra a recomendar, a partir do leque de títulos que a editora foi mantendo disponíveis e reeditados, até finalmente perceber que o filão esgotara. A colecção surge ainda nas Feiras do Livro, não tão coleccionável quanto a Argonauta, mas repleta de bons e antigos exemplos de como se podia manter qualidade e baixo preço e formato de bolso num só pacote (e sim, estou perfeitamente ciente de que me refiro à empresa que anos mais tarde se tornaria sinónimo de displicência editorial). Mas, das centenas de números, há um livro que sobressai sem dificuldades.

Os Despojados – Uma Utopia Ambígua, de Ursula Le Guin, merece um destaque maior e melhor do que o espaço limitado desta recomendação. Dizer que o considero como o melhor romance de FC que conheço acaba por ser redutor, além de ser também um convite ao debate. Dizer que se trata de leitura obrigatória para qualquer aspirante a escritor, é ser minimalista. Coibi-me propositadamente do exagero «o melhor romance de FC de sempre», por que, obviamente, não li todos os romances que existem, nem nunca serei humanamente capaz de o fazer. Mas terá seguramente o meu voto para, no final dos tempos, acabar no pódio, entre os três primeiros.

Muito da afirmação acima reflecte o meu ideal de FC, e muito deste ideal deve-se precisamente a este livro. Tal como a obra, definir a FC torna-se num processo circular, taoista, que encontra na experiência passada o alimento para a era seguinte. De certa forma auto-fágico, mas em grande medida uma procura da excelência que só consegue ser obtida a partir do apuramento da raça, imune a contaminações externas.

Mas em que consiste então o melhor romance de FC que conheço?

Conta a história de Shevek, físico teórico de uma lua anarquista chamada Anarres. A lua foi colonizada há século e meio por uma comunidade de dissidentes políticos mundiais que negociaram com os governos comunistas e capitalistas do planeta-mãe (Urras) a expatriação para os territórios desérticos – mas habitáveis – do satélite em troca de, basicamente, os deixarem governar em paz. Ajudou para esse processo que Anarres fosse um lugar de sobrevivência difícil, com parcos recursos, obrigando a colónia a instituir processos de rotação de voluntariado para tarefas manuais exigentes, de forma a que o trabalho mais pesado fosse cumprido.

Não tendo o luxo de tecnologia sofisticada, Anarres é apresentado como um lugar de trabalho manual intensivo, empenhado no dever, reservando pouco espaço para o prazer do espírito e para a sofisticação intelectual. Ao mesmo tempo, é-nos dito, funciona como um organismo permanentemente exercitado, sem excessos nem gorduras nem distracções, eficiente, focado e saudável. Livre. Livre para se sentir pleno e recompensado.

Que futuro terá então um físico teórico no meio desta comunidade? A autora apresenta-nos com uma maestria excepcional a dicotomia entre trabalhador e pensador; entre mero homem representante do povo e cultura em que nasceu, e génio destinado a descobrir as leis íntimas do universo. Um equilíbrio difícil que, no final, é humano e imperfeito, e varia consoante a vontade e motivação pessoais, bem como a capacidade de aceitação do seu povo – capacidade que, ele acaba por perceber, é reduzida.

O génio precisa de outros génios com quem trocar ideias. As ideias, afirma Le Guin, são como a relva, precisam da chuva e do sol, crescem melhor quando são pisadas. Mas para encontrar esses génios, precisa de sair de Anarres. Precisa de fazer o caminho inverso do seu povo, regressar à terra da luxúria, ao pecado original. Não obstante trocas comerciais necessárias mantidas pelo sindicato, Anarres vive de costas voltadas para Urras, apelidando-o de nomes feios, nomes políticos. Se Shevek encetar a viagem, será o primeiro embaixador de Anarres em muitas décadas. E, por que estamos neste tipo de romances, Shevek viaja.

O livro mostra-se desde o início como uma história circular, alternando os capítulos da passagem por Urras com a história de vida de Shevek em Anarres até tomar essa decisão. As partes, assim misturadas, formam um todo harmonioso que não seria tão eficaz se a separação fosse linear. Além disso, contribuem para sustentar uma variante literária da parábola de Zenão, que surge a meio do livro: qualquer que seja a meta, faltará sempre metade do caminho para a atingir – metade da distância que agora a separa, e chegado a esse ponto intermédio, metade da distância entre essa metade e o final. Nunca se atinge o objectivo, afirma o paradoxo, porque faltará sempre metade da distância a percorrer, ainda que infinitesimal. Esta parábola é uma tradução das séries convergentes, um instrumento matemático que representa a infinidade. Tradução também de fenómenos físicos como a relatividade – jamais conseguiremos atingir a velocidade da luz, por que o esforço energético para adicionarmos pequenos incrementos de velocidade à nossa nave torna-se exponencial quando nos aproximamos desse limite imposto pelo universo; cair para um buraco negro resulta num fenómeno semelhante, pois o tempo estende-se até ao infinito, prolonga-se em direcção à eternidade, abrandando mas sem nunca parar, tornando a queda numa condenação eterna.

Que um livro consiga este casamento tão perfeito entre ciência, estrutura narrativa, tema e abordagem literária é sublime. É deslumbrante observar como, frase a frase, minuciosamente e sem dispender palavras desnecessárias, Le Guin consegue, em simultâneo, apresentar uma sociedade política anarquista baseada nos modelos de Kropotkin; ser adulta o suficiente para não se deixar enganar pelas suas preferências e abordar com clareza os problemas inerentes a essa pseudo-utopia (daí o título «utopia ambígua»); fazer reflectir a dualidade social na personalidade do protagonista e na sua necessidade entre perseguir um sonho ou ser um homem integrado na terra e no povo em que nasceu; explicar a sua postura em termos práticos, fugindo da solução fácil de ostentá-lo como profeta ou demagogo, mas sustentando-o firmemente na base da ciência, levando-o para Urras não como um homem de ideais mas de ideias – ideias práticas, matemáticas, demonstráveis, mais fortes que qualquer vontade ou interpretação humana; explicar a ciência, e efectivamente convertê-la, em filosofia pessoal, numa clara homenagem à interpretação do universo que a Relatividade e a Mecânica Quântica nos trouxeram; e no final, confrontar dois sistemas políticos distintos, com conjuntos de valores constrastantes, para um final necessário e lógico, circular na sua essência, ainda que possivelmente, e em certa medida, forçado.

A frase final «As mãos estavam vazias, como sempre» explicam Anarres com uma magistral economia de palavras, dando continuidade circular à frase de abertura «Havia um muro». Tudo, tudo, tudo neste romance está pensado, trabalhado, polido, encaixado. Tudo nele faz sentido. Tudo nele brilha e fica na memória.

E como se não bastasse, é uma obra com uma qualidade de prosa invulgar na FC norte-americana, e digamos mesmo, na ficção moderna de língua inglesa.

Os Despojados foi publicado em duas partes - números 46 e 47 -, na Bolso FC da Europa-América, com capas de Rui Ligeiro, e uma tradução notória de Maria Freire da Cruz, que faz juz à qualidade da obra e em alguns momentos a verte de forma impecável para a nossa língua, respeitando a intenção da autora sobre a economia e a beleza das frases. Um dos melhores momentos de sempre (aqui já o afirmo com segurança) da edição de FC em língua portuguesa. E que hoje é vendido, nas barracas da Feira do Livro, por um valor irrisório...

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