«(…) Hoje, 14 de Abril de 2017, quero fazer, e vou fazer, um Segundo Ultimatum Futurista. O primeiro, de que acabaram de ouvir um excerto, foi feito há exactamente 100 anos, e aqui mesmo, nesta cidade de Lisboa, neste local, neste teatro. (…) Mas por quem? Por José Sobral de Almada Negreiros. Muitos dos que me escutam agora provavelmente não sabem quem ou o que é que ele foi. Eu digo-o: foi um dos maiores nomes da cultura portuguesa contemporânea, mais ou menos recente. (…) Porém, há uma diferença grande, enorme, assinalável, entre esse primeiro Ultimatum e o segundo que eu agora, modesta mas ousadamente, me permito apresentar. O de Almada dirigia-se, e isso estava evidente, patente, no seu título original, “às Gerações Portuguesas do Século XX”. Obviamente, o meu, se fosse assumido como uma genuína continuação, teria de ser dirigido “às Gerações Portuguesas do Século XXI”. Só que há um pequeno, um menor, um insignificante problema… e, sim, já devem ter percebido que estou a ser irónico. Sem dúvida que estamos no Século XXI… Mas de certeza que não se pode dizer que existem, verdadeiramente, Gerações Portuguesas. (…) É como se o Estado, e através dele a Nação, preconizasse e premiasse a sua própria eliminação… é como se uma eutanásia generalizada estivesse em curso! Isto para além daquela específica, obrigatória, para quem tem mais de 80 anos e não pode pagar os seus medicamentos… A matança, entretanto, dispõe de um arsenal cada vez maior, diversificado e sofisticado: à semelhança dos camiões de recolha de sangue, foram construídos camiões especiais, autênticas clínicas sobre rodas, que percorrem o país visitando escolas onde a alunas que engravidaram são feitos abortos ao vivo e sem anestesia, transmitidos em directo no canal de televisão do Ministério da Educação, nas aulas de Biologia e de Ciências da Natureza, e que proporcionam bonificações na avaliação final, no que constitui sem dúvida uma forma avançada, e mesmo vanguardista, de pedagogia… (…) Entretanto, e tendo também como pretexto o aumento da violência, em Portugal já não são só os arguidos, suspeitos, detidos, culpados, que têm de usar pulseiras electrónicas: todos os cidadãos a partir dos 18 anos, portadores de número de identificação fiscal, têm de o fazer! É um substituto do CU, do dito “cartão único”, o “cartão de cidadão”, que aliás já tinha um chip incorporado. “É para o nosso bem, para a nossa segurança”, dizem os nossos governantes, “para estarmos permanentemente localizáveis e contactáveis”. (…) Assim, todos os portugueses estão prisioneiros do, e no, seu próprio país. Todos os que não se foram embora, todos os que ficam, que o querem e o permitem, obviamente… para esses Portugal tornou-se uma autêntica e enorme prisão! Mas uma prisão que constitui um estímulo à economia nacional: a fabricante destas pulseiras é a mesma dos computadores Magalhães, e como estes deixaram de ser encomendados e produzidos, havia que dar àquela companhia alguma compensação, coitados… (…)»

Acima estão excertos do meu conto «Segundo Ultimatum Futurista», que escrevi entre Setembro e Outubro de 2011 após ser convidado (um mês antes do final do prazo) por Rogério Ribeiro a participar na «Antologia de Ficção Científica Fantasporto» que aquele estava a organizar, e que viria a ser editada já neste ano de 2012 pela 1001 Mundos/LeYa – que, recorde-se, também editou o meu livro «Espíritos das Luzes». Porém, alegando que esta minha prosa curta é «mais panfletária do que especulativa» e, a ser incluída na antologia, a «desenquadraria», o organizador recusou-a liminarmente, isto é, sem me dar a oportunidade, a alternativa, de lhe fazer alterações. No entanto, acredito que não haveria qualquer motivo para isso, porque continuo convencido de que cumpri com o estabelecido no regulamento: «São aceites contos inéditos, em língua portuguesa, com reconhecíveis elementos de Ficção Científica. Tratando-se de um género vasto, que transcende definições simples, os critérios de avaliação serão baseados em três pilares: ambiência, carácter especulativo e criatividade. (…) A extensão máxima de cada conto a concurso será de 75.000 caracteres (incluindo espaços). (…) A par dos contos a concurso seleccionados, a Antologia conterá também contos de autores convidados, nacionais ou estrangeiros (pode-se, pois, deduzir que, se respeitassem os termos do regulamento, os contos dos autores convidados não seriam sujeitos nem a concurso nem a selecção).»

Assim, foi-me retirada a possibilidade de fazer parte do programa do Festival Internacional de Cinema do Porto, e ainda por cima num ano em que se assinalaram os 30 da estreia de «Blade Runner» (um dos meus filmes favoritos), os 120 da morte de Bram Stoker, e se homenageou Ed Wood; e foi-me retirada a possibilidade de ser editado, pela primeira vez, no Brasil. Entretanto, agora posso revelar que, sim, foi por causa da minha exclusão da «Antologia Fantasporto» que me excluí, que não compareci, ao Fórum Fantástico 2011, onde esteve prevista a minha participação enquanto orador – porque não aceitei que a mesma pessoa decidisse que, dentro da mesma área, eu tenho competência para uma tarefa mas não para outra.

Não quero colocar em causa, de modo algum, os contos incluídos na antologia e os seus autores, alguns dos quais conheço pessoalmente e que tenho como amigos. Para todos eles vão os meus sinceros parabéns. Todavia, eu, enquanto autor, não estou junto deles porque alguém não teve para comigo um comportamento correcto. Que eu, enquanto organizador (e não só), sei que tenho: os convites que fiz para «A República Nunca Existiu!» não constituíram um concurso dissimulado, e só não participou quem não quis. A «culpa» deve ser minha, porque pensava que a noção de «convite» que tinha era consensual.

Apesar do que me aconteceu, continuo a pensar, tal como escrevi no meu artigo «A nostalgia da quimera», que todas as controvérsias no âmbito da FC & F portuguesa (e não só) são salutares. Porque são sempre reveladoras. E porque é sempre preferível a honestidade à hipocrisia.

(Adenda – RR prossegue a sua campanha de mistificação… isto para não usar outra palavra começada por «m». A única coisa com que eu «concordei», que registei, foi que seria possível que nem todos os contos dos autores convidados fossem incluídos. Obviamente… se não obedecessem aos critérios de avaliação estipulados no regulamento, cujos «contornos» são nítidos. Eu obedeci ao regulamento.)