Um escritor, como qualquer outro criador, não pode fugir da crítica. A crítica, seja ela uma apreciação de um amigo ou um artigo de jornal, está omnipresente. Se não estiver, é porque se está a fazer algo de errado. Todos os dias um escritor está a submeter o seu trabalho ao julgamento dos outros, e todos os dias lhe pedem que avalie, aprecie, critique o trabalho de outros. É um elemento fundamental de quem navega na nossa área. Convenhamos: quando escrevemos, escrevemos para que outras pessoas leiam, apreciem e digiram o que lemos. E se queremos ser lidos também nos devemos dispor a ler os textos dos outros – até porque podemos aprender muito com este exercício. O que tenho visto sistematicamente, no entanto, é que a crítica, recebida por nós ou dada aos outros, é muitas vezes encarada de uma forma amadora, desadequada, displicente ou inconsequente. Se queremos ser escritores sérios, isto não é suficiente. Precisamos de desenvolver uma ética, um profissionalismo da crítica, que nos permita aprender e progredir. Eis, então, a minha opinião.

Comecemos pela crítica que recebemos ao nosso trabalho. Qualquer escritor que se preze tem de ter presente que a única crítica que é agradável, verdadeiramente agradável, é a de alguém que adorou o que escrevemos. Alguém que não conseguiu largar a leitura, se envolveu com as personagens, se fascinou com o contexto. No entanto, estas pessoas e estas críticas são normalmente raras, ou pelo menos não são a maioria. A maioria das pessoas, com um pouco de sorte, gostou do que leu mas não de tudo, ou se deixou irritar por um pormenor sem importância, ou sentiu que alguma coisa não lhe fez sentido. E depois há também aquelas que não gostaram nada, ou que acham o nosso trabalho um atentado à inteligência que devia ser queimado numa fogueira e as cinzas envolvidas em alcatrão para voltarem a ser queimadas até não restar nenhum rasto de coisa nenhuma.

É natural que assim seja. O primeiro leitor de tudo o que escrevemos somos nós próprios e escrevemos sempre em catarse das nossas próprias fantasias. Mesmo que alguém tenha o génio de conseguir colocar estas fantasias de forma magistral nos textos, haverá muita gente que não partilha dessas fantasias, ou que as acha incomodativas, aborrecidas ou pouco apropriadas.

Ora, aqui surge o primeiro problema: se trabalhamos sobre as nossas fantasias, o apego que temos aos nossos textos é profundamente emocional. É fácil sentir que uma crítica ao nosso trabalho é uma agressão violenta, um julgamento injusto, uma desconsideração para com o empenho e o investimento psicológico e emocional que colocámos nas palavras e nas histórias. Esta é a primeira armadilha. Se queremos progredir nesta área temos de desenvolver a capacidade de olhar para as críticas que nos fazem com profissionalismo e objectividade. Isto significa uma atitude de um certo distanciamento relativamente ao texto, e uma escuta activa e cuidada do que nos estão a dizer.

Julgo que foi Neil Gaimain quem disse que na maioria das vezes quem refere que algo está mal na nossa escrita normalmente está certo, embora na maioria das vezes estejam errados quanto ao que está mal. Na minha experiência esta observação está correctíssima. As pessoas sentem que algo não lhes agrada, mas deve fazer parte das nossas competências interpretar o que estão a dizer e perceber o que não lhes agrada, mesmo quando isso não é evidente. Podem, por exemplo, dizer-nos que a partir de um determinado momento o texto ficou enfadonho e arrastado, mas nós percebermos que na realidade o leitor ficou sentido por termos matado a sua personagem favorita (o que não deve ser desvalorizado). Assim, o que nos foi descrito como um erro de estilo é na verdade um erro de plot (enredo): afastámos uma parte dos leitores porque não desenvolvemos suficientemente o relacionamento com as personagens que sobrevivem (por exemplo). Ou dizem que alguém não devia estar a chorar em determinado momento e nós interpretamos que na realidade o que falhámos foi a cena anterior, em que a motivação da personagem não ficou bem alicerçada.

É natural que sintamos imediatamente vontade de defender o nosso texto e argumentar contra a crítica, mas devemos lutar contra este instinto. Pelo contrário, devemos ouvir, fazer perguntas, interpretar e aprender, pois é a única maneira de progredir. O que vejo por vezes por parte de quem escreve, em particular os mais iniciados, é uma atitude amadora e indesculpável de mágoa, de incómodo, quase de ódio, defendendo o seu bebé com unhas e dentes como se o estivéssemos a afogar na banheira, criando até um discurso paranóico, muitas vezes não explícito, em que se racionalizam todas as críticas como sendo obra da inveja, um refúgio maldoso dos menos talentosos. Um escritor que se leve a sério não age e não pensa assim.

Mas falemos agora do outro lado. Do momento em que fazemos críticas aos textos dos outros. É uma posição de particular poder. A outra pessoa está à nossa frente, de forma aberta e vulnerável e nós podemos esmagá-la como nos esmagaram a nós, ou mostrar-lhe como faríamos tão melhor se tivéssemos tido a ideia genial que ela teve, ou salvá-la dos erros horríveis que cometeu. E, assim, somos sádicos e cruéis no nosso ímpeto pedagógico. A implicação é muito simples: nós somos melhores do que eles.

Ou então, outra hipótese: sentimos que não gostámos nada do que lemos e que é um peso, uma tortura, sermos obrigados a comunicá-lo. Porque é que nos comprometemos a ler, na verdade? Não queremos magoar a outra pessoa e agora estamos nesta posição: vamos ter de argumentar, de entrar em polémica, de nos sujeitar ao sofrimento do outro, ao poder da vítima! E por isso somos frios, distantes, objectivos. Como se a objectividade existisse…

Parece-me a mim, porém, que quando estamos a criticar o texto de outro escritor o estamos a fazer para o ajudar ou para informar potenciais leitores. Não podemos ignorar esse facto e temos de ter particular cuidado com o que dizemos, de modo a que seja útil e importante.

Aquilo que os psicólogos nos têm ensinado é que em situações de avaliação temos tendência a sobre-investir no negativo. Se, no mesmo texto, surge algo de que gostámos muito e algo de que detestámos, temos a tendência para sobrevalorizar o que não gostámos e para comunicar como se só isso importasse. Do mesmo modo, a pessoa que nos está a ouvir tem a tendência a sobrevalorizar os inputs negativos. Assim, mesmo que tenhamos gostado de muita coisa, o que vai passar para o outro lado, se não tivermos cuidado, é que detestámos. Se houver um pequeno erro nalgum ponto, parecerá que só o erro interessa e que tudo está errado. É por isso que muitas vezes nos ouvimos dizer: «Mas atenção que eu até gostei…»

Por outro lado, os factos são muito pouco importantes numa avaliação, em especial numa avaliação de um produto criativo. O que temos é uma troca emocional. Podemos ter uma opinião profundamente fundamentada em teorias da literatura e sermos incrivelmente lógicos na comunicação, no entanto, sabemos que é a emoção que vai passar. As nossas emoções vão sobrepor-se à nossa lógica e as pessoas vão interpretar emocionalmente e reagir emocionalmente. Por isso não vão perceber algo como ‘este ponto no texto está mal estruturado’. Em vez, vão ter a tendência para interpretar: ‘isto está tudo errado, sou um escritor de merda, a minha vida é um falhanço’. Acham que estou a exagerar? Pois não estou. De forma consciente ou inconsciente, as coisas passam-se mais ou menos desta forma.

Isto quer dizer que, se queremos ser pedagógicos e úteis quando fazemos uma crítica, temos de ter cuidado para contrariar a tempestade emocional que envolve este exercício. Temos de dizer a verdade, o que pensamos da obra, mas devemos ter cuidado na maneira como comunicamos. E o modo de o fazer, na minha opinião, é o seguinte (mais uma vez, baseado em métodos estudados pelos psicólogos):

Em primeiro lugar, fazemos a apreciação dos pontos positivos. Qualquer obra tem pontos positivos. É tão incompetente da nossa parte não encontrarmos pontos positivos como não encontrarmos pontos negativos. Ninguém é perfeito e ninguém é um perfeito idiota. Mesmo que não encontremos muitos pontos positivos na obra, muitas vezes o esforço, o empenho e a atitude da pessoa são pontos positivos suficientes. E atenção que vale a pena investir nos pontos positivos: não se esqueçam que a tendência é para os subestimar, tanto da nossa parte como da parte do receptor.

Também devemos ser específicos no que apontamos. Não somos amadores e sabemos bem que alguém dizer-nos ‘Está giro’ ou ‘Gostei, está bom’ significa basicamente… nada. Como é que está a estrutura, o que funcionou, em que momentos nos sentimos mais envolvidos, isso sim, é alguma coisa de útil.

Em segundo lugar, apreciamos os pontos negativos. A pessoa, apesar das suas inseguranças,  já estará neste momento um pouco mais disponível para os ouvir e por isso serão mais úteis nesta altura. Mas devemos ter o cuidado de mostrar que o que está menos bom pode ser corrigido, e até dar sugestões de melhoria. Lembrem-se que tudo o que se disser de negativo será sobrestimado, e poderá ainda haver um investimento em questões, ou numa discussão, ou em polémicas que ainda aumentem mais a importância dos pontos negativos.

Eis porque também é necessário rematar com algo de positivo, algo que deixámos na manga para colocar um pequeno sorriso na face do outro, e que lhe permitirá lembrar o que dissemos de forma equilibrada, que lhe deixa espaço para reflectir e para melhorar. É esse o terceiro passo.

Isto não é cinismo, atenção. Isto é saber comunicar. Isto é sermos profissionais. Não estamos a mentir ou a embelezar. Estamos a dar a devida importância às coisas e a corrigir a carga emocional muitas vezes caótica que surge no exercício de uma crítica. Isto é ser racional e objectivo.

É muito pobre para um escritor que se preze deixar-se cair num descontrolo emocional que o atire para uma posição fria, sádica, distante, cruel. A ética da crítica, na minha opinião, exige que se saiba interpretar e aprender com uma crítica de forma equilibrada e racional, mas também que se saiba fazer uma crítica de forma equilibrada e racional. E isto implica ter em conta as emoções. Porque elas estão lá.

É minha convicção que tanto uma crítica que se recebe como uma crítica que se presta deve ser útil e pedagógica. É isto que eu tento praticar todos os dias. E é isto que eu sugiro.

 

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