Em Portugal o primeiro dia do segundo mês está, desde 1908, infeliz e indissociavelmente ligado ao Regicídio cometido em Lisboa, atentado perpetrado por republicanos, maçónicos, carbonários fanáticos que custou a vida ao então chefe de Estado e ao seu sucessor. Hoje, à semelhança do que tem acontecido desde há muitos anos, foi celebrada, na Igreja de São Vicente de Fora e a pedido da Real Associação de Lisboa, uma missa de sufrágio pelas almas do Rei Carlos e do Príncipe Luís Filipe, seguida por uma também habitual romagem ao Panteão Real, onde os Duques de Bragança, Duarte Nuno e Isabel, depositaram uma coroa de flores junto dos túmulos daqueles seus dois antepassados. De realçar igualmente que a cerimónia foi presidida pelo padre Gonçalo Portocarrero de Almada, que há uma semana, a 24 de Janeiro, apresentou na Livraria Ferin o seu livro «Requiem Por El-Rei e pelo Príncipe Real», uma colecção de sete homilias por ele proferidas em outras tantas destas missas, publicado pela RAL sob a chancela Razões Reais.

Ainda literariamente falando, mas agora no campo da ficção… especulativa, a primeira grande tragédia nacional do século XX (várias outras se seguiriam, a segunda logo dois anos depois…) constituiu o pretexto para a publicação, em Janeiro de 2008, no centenário do Regicídio, de «A República Nunca Existiu!», uma antologia colectiva de contos de história alternativa por mim concebida e coordenada (e em que participei como autor com «A marcha sobre Lisboa»), que imaginou um Portugal em que a Monarquia nunca foi derrubada; em 2018 assinalei a década que passou desde o seu lançamento. Neste ano de 2019 há a registar uma outra efeméride relacionada com o conflito entre monárquicos e republicanos no nosso país; trata-se de mais um centenário, desta vez da chamada «Monarquia do Norte», sublevação político-militar de forças fiéis à Coroa e lideradas por Henrique Paiva Couceiro, que a 19 de Janeiro de 1919 declarou no Porto a restauração do Reino; foi uma autêntica, nova, guerra civil embora de consequências menos gravosas do que a ocorrida no século XIX, e mais breve – falhada a 22 de Janeiro uma campanha semelhante na capital, a 13 de Fevereiro esta corajosa tentativa de reposição da legitimidade histórica terminava. Vale a pena ler as retrospectivas desta singular aventura feitas por Carlos Bobone e por Rui Ramos.

Talvez inspirado pel’«A República Nunca Existiu!», que em 2008 perguntou, através da criatividade de diversos escritores tendo à cabeça o saudoso João Aguiar, o que poderia ter acontecido se aquela nunca tivesse sido instaurada, um novo projecto de história alternativa, igualmente sob a forma de antologia colectiva de contos, vem agora perguntar, e indubitavelmente no momento certo, «e se» a «Monarquia do Norte» tivesse durado não dias mas sim meses e até anos, condicionando e modificando profunda e definitivamente a história portuguesa e até a europeia, num processo possibilitado em grande parte por inovadoras tecnologias vinícolas! Designado, precisamente, por «Winepunk», estará à venda neste mês de Fevereiro, numa edição da Divergência, o seu primeiro volume (de um total previsto de três), intitulado «Ano 1 – A Guerra das Pipas». Trabalho que se iniciou em 2013 sob a égide da Invicta Imaginária, teve a sua mais recente «pré-apresentação» em 2018 no colóquio «República Irreal & Fantástica», e no mesmo painel em que eu entrei, pela sua criadora e coordenadora (nesta função em colaboração com Joana Neto Lima e Rogério Ribeiro), Ana da Silveira Moura, ou seja, AMP Rodriguez. Que é também autora neste primeiro volume, juntamente com Carlos Silva, João Barreiros, João Rogaciano, João Ventura, Joel Puga e Rhys Hughes.

Permito-me destacar, com um especial contentamento, a participação de João Barreiros neste projecto. Falo também na qualidade de seu leitor e admirador: é muito bom poder contar finalmente com o seu enorme talento no segmento tão fascinante, não só da ficção especulativa em geral mas também da história alternativa «à portuguesa» em particular, que é o confronto entre a Monarquia e a República, depois de, há quase 12 anos, ele não ter aceitado o convite para participar n’«A República Nunca Existiu!» Relativamente a mim, aproveito para esclarecer quem eventualmente esteja curioso que, não, não fui convidado a participar.

«Winepunk: Ano 1 – A Guerra das Pipas» vai ter a sua primeira apresentação no próximo dia 14 de Fevereiro, a partir das 19 horas, no Ateneu Comercial do Porto.

Artigos relacionados:

  • Não há artigos relacionados