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«David Bowie, criador e criatura de FC»: este era o tema que eu me propunha abordar na comunicação que previa apresentar na iniciativa «O Esteta – David Bowie», que tinha como objectivo celebrar o artista e a sua obra, com «música, palestras, vídeo, cinema, artes plásticas, moda e confraternizar». Planeado para o início de 2015, primeiro para Janeiro e depois para Março, na livraria Ler Devagar, em Lisboa, o evento não chegou a concretizar-se, tanto pelo efeito desmoralizador e desmobilizador do primeiro ataque terrorista em Paris no ano passado (à sede do jornal Charlie Hebdo) como pela indisponibilidade de alguns dos participantes convidados. Contudo, os organizadores estavam longe de imaginar que, 12 meses depois, o homenageado iria falecer: foi a 10 de Janeiro último, de uma doença que conseguiu ocultar do público, dois dias depois de celebrar o seu 69º aniversário e da edição do que viria a ser o seu derradeiro disco de originais…

… Cujo título – «Blackstar» – e o da sua canção mais em destaque – «Lazarus» – adquiriram de repente outros e profundos significados. «Look up here, I’m in Heaven»: até no final confirmou e consolidou a sua aura de figura fantástica, do fantástico, da fantasia, enfim, de facto, de criador e de criatura de ficção científica. Terá voltado ao outro Mundo de onde chegou nos anos 60 do século passado? Depois de um primeiro álbum em 1967 – lançado em 1 de Junho, o mesmo dia em que também foi lançado «Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band» dos Beatles! – e de vários singles sem sucesso, marcados estilisticamente por blues e/ou por psicadelismo que não o distinguiam suficientemente da concorrência, o visionamento em 1968 de «2001» de Stanley Kubrick deu-lhe a ideia, a inspiração, que, como que transmutando «Space Odyssey» em «Space Oddity», marcaria toda a sua carreira e que o fez encontrar – ou conceber – a sua imagem perene, o seu posicionamento constante: o de alien(ígena), extraterrestre, ser estranho mas sedutor, dotado de notáveis poderes de transformação – que faziam dele, precisamente, um «camaleão» (consta igualmente que era um autêntico «leão na cama», mas isso não é agora relevante…) – que possibilitaram que quase se reinventasse – estilisticamente, musicalmente, tematicamente – a cada novo disco…

… E no projecto Simetria Sonora, lista em permanente actualização de discos de música popular no âmbito FC & F, o sucesso dessa estratégia é evidente pelo número das suas obras que já a integram (e outras há que ainda a poderão vir a integrar): «Diamond Dogs», «Heathen», «Heroes», «Low», «Outside», «Scary Monsters», «Space Oddity», «The Man Who Sold The World», «The Rise And Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars» – esta a ilustrar a «edição» de 2012. E pelo número de (extraordinárias) canções – são tantas! – em que a componente «especulativa» é predominante…  David Bowie é um dos grandes nomes do género artístico que preferimos e que cultivamos. Enquanto songwriter, escritor de canções, desenhador de paisagens musicais, está ao mesmo nível, na mesma categoria de autores como Isaac Asimov, Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick e Robert Heinlein. Um estatuto reforçado pela sua carreira cinematográfica, em que se destacam personagens como o «ET» Thomas Jerome Newton em «The Man Who Fell To Earth», o vampiro John Blaylock em «The Hunger» e o inventor (e mágico?) Nikola Tesla em «The Prestige». Enquanto os registos audiovisuais existirem e as nossas memórias permitirem, David Bowie será imortal.

 

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