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Jorge Candeias não foi a única pessoa que, recentemente, entendeu ser correcto publicar no sítio GoodReads uma «recensão» do meu livro «Espíritos das Luzes» baseada apenas na leitura de um capítulo (o primeiro). Antes, ainda em Setembro, uma leitora que se identifica como «Ana SS Dias» fez o mesmo… mas foi bem mais loquaz do que o alarve do Algarve, que se «limitou» a um laconismo literalmente de m*rd*. Porque eu não sou um escritor que despreza, que desvaloriza (o impacto d)a opinião de um só leitor, é importante para mim conhecer o maior número possível dessas opiniões – uma curiosidade que deriva do dever de escrever, de construir, um livro, uma obra, o melhor possível, e que agrade o mais possível, e, até, se possível, que seja útil, relevante, ao maior número de pessoas possível. Porém, o leitor, qualquer leitor, também tem um dever… se, obviamente, não for um analfabeto funcional e tiver um quociente de inteligência mínimo: não esperar de um livro que este seja ou que dê algo que, clara, explícita, manifestamente, não é e/ou não dá…

… Mas foi essa, precisamente, a atitude da «Ana». Em resumo, qual foi a sua impressão geral? «Esta leitura foi a pior de sempre até agora! (…) Tudo isto é uma confusão! (…) Este liv(r)o não era para mim, nem para ninguém!» Ela parece queixar-se de não ter «lido melhor a contracapa»… e, ironicamente, se o tivesse feito de facto, poder-se-ia ter poupado à… confusão. Eis, recordo, as primeiras palavras daquela: «Era uma vez, num outro universo, num outro espaço e outro tempo, um planeta chamado Portugal…» Só isto deveria ser suficiente para anular, à partida, a estranheza (para ela) de Bocage, que «nasceu em 1765», estar em Lisboa a receber Beckford «passados uns dias do Terramoto de 1755». Qual é a parte de «num outro universo, num outro espaço e outro tempo» que foi difícil de compreender? Além disso, eu nunca indico datas! Nem anos, nem meses! Houve, sim, um terramoto… alternativo, numa Lisboa… alternativa, capital de um Portugal… alternativo – para mais, um planeta e não um mero país! Nunca afirmo que aquele cataclismo ocorreu em Novembro de 1755… nem que aquele Bocage nasceu em (Setembro de) 1765. Logo, o enredo do meu romance não tem de fazer, e não faz, «sentido cronologicamente».

Se a «Ana», além do texto da contracapa, tivesse igualmente lido primeiro a minha «Iniciação» à obra, que antecede a narrativa propriamente dita e que enuncia e explica, mais detalhadamente, os parâmetros daquela, ainda mais nitidamente veria que não existia (e não existe) qualquer motivo para se ficar confuso(a): «(…) Decidi finalmente concretizar um projecto que concebera há já muitos anos: um livro que de certa forma “mistura” o ambiente do Portugal setecentista com um cenário de ficção científica – duas das minhas grandes “paixões”. Embora seja, à partida, uma obra de ficção, um romance (?), uma fantasia, “Espíritos das Luzes” assenta, contudo, na presença de personagens reais, cujas falas são, na sua totalidade, as suas próprias palavras, tal como as escreveram e deixaram nos seus livros, discursos, cartas e outros documentos. Assim, e além de Bocage, que é, inevitavelmente, um dos “protagonistas” principais, outros nomes incontornáveis daquela época que fazem igualmente a sua “aparição” incluem: o Marquês de Pombal; a Rainha D. Maria I; o intendente Pina Manique; a Marquesa de Alorna; Luísa Todi; Leonor Pimentel; o Cavaleiro de Oliveira; Luís António Verney; António Ribeiro Sanches; Filinto Elísio; Nicolau Tolentino; Manuel da Maia; Vieira Portuense. Isto quanto a portugueses; quanto aos estrangeiros, apesar de menos, eles estão (bem) representados por William Beckford (outro dos protagonistas principais), Voltaire, Kant… e um certo marquês francês… Todos eles foram nomes de destaque do chamado “Século das Luzes”, mas nem todos foram exactamente contemporâneos e nem todos chegaram de facto a encontrar-se e a dialogar. Mas porque, precisamente, a ideia inicial, o objectivo principal, é recordar e homenagear – e invocar – esses nomes, pareceu-me sempre uma solução acertada imaginar uma realidade alternativa, um “universo paralelo”, um mesmo “tempo” e um mesmo lugar – Lisboa, claro, mas uma Lisboa diferente – onde todos eles pudessem coexistir e interagir. O meu livro é, pois, um trabalho híbrido, parte ficção – o contexto e o enredo que eu criei – e parte realidade – as palavras que eles escreveram há mais de dois séculos. A própria impressão do livro reflecte esse carácter híbrido, misto, utilizando dois tipos de letra, um para cada nível de leitura.» E, ao contrário do que a «Ana» afirma, tal está sempre «devidamente indicado» e percebe-se bem «quem é que está a falar (e) sobre o quê». Basta um mínimo de atenção, de concentração…

… Que a «Ana», notoriamente, revelou não ter. No entanto, e infelizmente, as falhas na sua «avaliação» não se limita(ra)m às dificuldades de compreensão. Há o erro (deliberado?) na ortografia do meu primeiro nome, mais uma demonstração de que tal é uma «praga» que persiste… aliás, e porque escreve também «coletânia» (em vez de «colectânea»), deduz-se que a «Ana» é igualmente, e lamentavelmente, uma «acordista». Há o erro de «datação» da pintura (de Louis-Michel Van Loo) que esteve na base da ilustração feita por Alex Gozblau para a capa – é, evidentemente, do século XVIII e não do XIII. Há a suposição (já nos comentários) de que «Espíritos das Luzes» é o meu segundo livro… todavia, não é, sendo na verdade o quarto no geral e o terceiro na ficção – uma informação, aliás, disponível na (deduzível da) biobibliografia inserida na badana esquerda do meu romance. Contudo, pior é a especulação – e talvez mesmo calúnia – de que eu me limitei a «encher as linhas que faltavam para o livro ter um tamanho razoável com palavras ao calhas.» Não vou perder tempo a demonstrar que não foi isso que eu fiz, muito pelo contrário.

Eu poderia fingir que ignorava esta irrupção de imaturidade, esta tentativa de «análise» incompleta, injusta e até insultuosa. Contudo, não está mesmo na minha natureza não responder a provocações e a deturpações, e disso já dei aliás suficientes provas anteriormente. E bastaria o primeiro comentário a esta «recensão» da «Ana», feito pela «Celeste», para me decidir a reagir caso estivesse indeciso: «Ainda bem que li a resenha». Que é como quem diz: «Estou aliviada por alguém ter “lido” o livro antes, verificado que é “mau”, e por isso eu própria não tenho de o adquirir e de o experimentar.» Quando uma (má) ideia insidiosa começa a propagar-se é cada vez mais difícil contrariá-la e combatê-la… Porém, não é, não deveria ser, assim: a «Celeste» deveria ler «Espíritos das Luzes»… mas fazê-lo tendo plena consciência de qual é o conceito em que ele assenta e as características de que se reveste. Tal como a «Ana», que deveria dar ao meu livro uma segunda oportunidade… e, já agora, lê-lo todo, até à última página. Preferiria isso a receber um pedido de desculpas, que indubitavelmente mereço.

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