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Hoje, Dia Internacional da Mulher, é a data apropriada para fazer, no âmbito da Ficção Científica e do Fantástico, uma constatação que, provavelmente, até nem tem muito de original… mas que é sempre relevante: pelo menos na última década os maiores sucessos mundiais na literatura – mais concretamente, séries de pelo menos três livros – de FC & F, com correspondência posterior em – igualmente bem-sucedidas – adaptações cinematográficas ou televisivas, são da autoria de mulheres.

Não é difícil fazer uma lista que o comprova: J. K. Rowling e «Harry Potter»; Stephenie Meyer e «Twilight»; Suzanne Collins e «The Hunger Games»; Charlaine Harris e «True Blood»; Veronica Roth e «Divergent»; e, sim, até E. L. James e «Fifty Shades Of Grey», que, nunca é demais recordar, começou por ser uma «fan fiction» baseada em «Twilight» e, bem considerado (e espancado ;-)), é uma fantasia que não lida propriamente com acontecimentos e comportamentos frequentes no quotidiano… Independentemente das opiniões (legítimas) que cada um(a) pode ter sobre estas autoras e a qualidade (ou falta dela…) do que escrevem, é incontestável o impulso que todas deram ao aumento da leitura entre os mais novos (e não só…) e à revitalização de toda uma série de áreas comerciais – na verdade, para além dos livros e dos filmes, vários foram, têm sido, os produtos associados às personagens… e às marcas que elas criaram. Sim, elas alcançaram mais fama e mais fortuna do que as talvez mais merecedoras Anne McCaffrey, Octavia Butler e Ursula K. Le Guin, mas é sempre possível que estas, assim como outras escritoras mais ou menos esquecidas e ignoradas, sejam eventualmente objecto de atenção por parte do(a)s que, tendo consumido o mais conhecido, pretendem depois descobrir algo diferente.

Em Portugal o «factor feminino» na fantasia é igualmente preponderante. O facto de eu ter sido criador e organizador de duas antologias de contos – «A República Nunca Existiu!» e «Mensageiros das Estrelas» – permitiu-me conhecer e apreciar mais de perto o talento de várias mulheres de que me tornei não só admirador mas também amigo. Cristina Flora, Luísa Marques da Silva e Maria de Menezes são notáveis – e prolíficas – contistas, assim como Ana Cristina Luz, Isabel Cristina Pires… e Beatriz Pacheco Pereira, cujas – elevadas – capacidades enquanto ficcionista têm sido, compreensível mas injustamente, relegadas para segundo plano devido à sua posição e função enquanto co-fundadora e co-organizadora do Fantasporto. Enfim, são de destacar ainda Inês Botelho e Madalena Santos, que, apesar de muito jovens, mostraram ter «estofo», «fôlego»… e imaginação para construir, respectivamente, uma trilogia e uma tetralogia romanesca épica – «O Ceptro de Aerzis» e «Terras de Corza» – em que, como não podia deixar de ser, as mulheres desempenham os papéis principais.

É possível que eu seja mais sensível a esta temática por ser pai de três filhas… mas, mesmo que não fosse, seria muito difícil, e até impossível, deixar de reconhecer, e de enaltecer, a preponderância que o sexo-já-não-tão-fraco tem vindo a conquistar, e felizmente, também neste domínio da criação artística e cultural.

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