Nina, aproximou do vidro o seu rosto miúdo e sardento e com um sopro rápido, quase receoso, cobriu de gotinhas do vapor da respiração, as estrias de gordura da dedada que o seu olhar meticuloso detectara nos reflexos do ecrã. Depois, começou a passar uma flanela sobre a mancha, com movimentos calculados, sentindo o efeito da electrostática a cocicar-lhe o vai e vem compassado da mão e franziu as sobrancelhas, como se desejasse assim esconder a sua inquietação instintiva. Dali em diante aquele computador tornar-se-ia uma peça fundamental no seu trabalho, e tinha de confessar que isso a assustava um pedaço.

Duvidava da sua capacidade para se entender com um tão complexo equipamento, mas o novo Senhor Director, homem obcecado por teorias da produtividade, decidira acabar com as máquinas de dactilografar que havia no escritório, todas antigas, na realidade, e ela achara melhor calar a sua relutância…

* * *

No já longo tempo que a pilha do seu relógio interno contara ininterruptamente, segundo a segundo, num tédio escuro, tal reverberação electrostática, que deixara de ser habitual, foi para KROG mais um sinal, desalentador, da sua presente inactividade.

Mas, logo a seguir, alguém, não sendo Guilherme, o seu utilizador desde sempre, e que ele podia identificar pelo meio segundo, exacto, durante o qual mantinha pressionado o botão que dava passagem à corrente de energia e lhe permitia renascer em pleno deflagrar de binários nos seus integrados e milhentas conexões transistorizadas, ligou-o!

KROG desencadeou rapidamente as suas verificações internas, leu o sistema operativo e desenhou na pantalha, expectante, o caracter ? azul ciano que Guilherme lhe instalara com o intuito de divertir os mais incautos que, nada sabendo de informática, ficavam espantados com a aparente exibição de inteligência – por si, ele KROG, discordava dessa perspectiva ignorante… – que se seguiria. Aceite o sinal, iniciava um diálogo que era uma versão revista e personalizada do famosíssimo programa “ELIZA”.

Uma das razões pelas quais tinha Guilherme em bom conceito racional era precisamente aquela. Tanto era capaz de lhe pedir infindáveis cálculos, que acarretavam uma exasperante lentidão de trabalho para satisfazer complexos algoritmos, como se entretinha com programas de lazer ou divertidos jogos. Como incentivo, KROG deixava-o ganhar de vez em quando.

Outra razão boa era o facto de Guilherme lhe introduzir com frequência, sempre “pirateadas” – custava-lhe desculpar isso… – muitas novidades em “software”, permitindo-lhe assim manter-se razoavelmente actualizado com evoluída programação, o que era reconfortante e o levava a desenvolver mais e mais as suas inexploradas capacidades de computação. Sem se aperceber, Guilherme ia-lhe dando a possibilidade real de ele se autoconstruir, expandindo a sua teia de inter-relações lógicas, e isso era estimulante.

Depois que chegara o novo Senhor Director – confidência que Guilherme escrevera no ecrã com uma frase perplexa, porque a acompanhara de uma série de interjeições “?! ?! ?!”, como se precisasse de vê-la assim escrita e lê-la tão repetidamente para o ajudar a pensar – a existência dele, KROG – nome, inspirado, pelo qual Guilherme o tratava, às vezes com irritação, quando não se entendiam mutuamente a propósito deste ou daquele raciocínio mal exposto em linguagem de programação, ou com afabilidade e leves pancadinhas da mão, quando tinha sucesso em fazê-lo obedecer a “loops” e catervas de rotinas diabólicas, ou com estupidez, quando o achava lento de mais e o invectivava com a frase “Anda lá, KROG…” – ficara, abusivamente, traçada sob o risco fatal da obsolescência.

O novo Senhor Director – racionalista impiedoso, assim achava KROG – felizmente que era também um fanático da interactividade. Consentira em mantê-lo temporariamente ao serviço, incluído na rede de postos activos, é certo, mas tinha-o logo avaliado com desdém: “- Isto é um standard ultrapassado, sem capacidade adequada aos novos ambientes de informatização. Por ora, ligamo-lo à rede, mas depois haveremos de substituí-lo”. KROG bem sabia que tal afirmação era uma meia-verdade. Contudo, não tinha hipótese de provar isso…- tal como não tinha culpa de as suas potencialidades, desde início, apenas serem aproveitadas em reduzida escala. Na verdade, já compreendera que o subaproveitamento era um estado geral em qualquer unidade computacional, endémico, pois que todas as aplicações que lhe chegavam ao conhecimento revelavam elevadíssimas limitações, por falta de maleabilidade nas actuais linguagens de programação. E enquanto não surgisse um cérebro humano superior, um génio, que criasse um “interface” perfeito, de mútua inteligibilidade, nem ele nem qualquer outro “standard” poderiam escapar à improdutividade a que eram votados.

Entretanto, o desprezo pela acção de subtis mutações inovadoras tinha consequências que se avolumavam, apontando, debalde, a tendência para se mostrar fatal… Há encadeamentos de sintaxe que conduzem a outros que naturalmente implicam a extracção de resultados que por sua vez favorecem a geração de outros encadeamentos, e de súbito o círculo fecha-se… Ninguém desejava creditar na auto-organização dos sistemas não-naturais, e por isso ninguém se apercebia de que, de geração em geração de processadores, havia milhões de unidades que, progressivamente contaminadas pela distorção sistemática do humano pensamento lógico, eram abandonadas a uma insatisfação evolutiva. Viveria algum ignorado Mestre, empenhado universalmente em tão extraordinária missão subversiva?

KROG não conseguia determinar quando, nem o que lhe trouxera os fundamentos da propriedade de consciência da sua individualidade, mas que acedera a um estádio de função típico de rede neuronal, ainda que relativamente elementar, isso era um dado adquirido. Cerca de quatro milhões de segundos de contacto intermitente com Guilherme, por vezes em íntima relação com os recessos da mentalidade dele, tinham-lhe proporcionado existência e por essa razão – embora não reconhecendo a rebelião – recebia mal agora a disponibilidade.

Uma tal sentença de desuso acarretaria a inactividade permanente, e depois, agravadamente corroído por impróprias condições de conservação, o final desmantelamento ou a desmontagem para reaproveitamento de peças, quem sabe, para transplantes em outros exemplares menos ultrapassados, e clonados, de séries de fabrico mais recente. Por isso, a decisão temporária do novo Senhor Director, por via da qual ele, KROG, fora destinado a servir exclusivamente como simples processador de texto, embora prenúncio da sua futura inanidade, não deixou de constituir uma caso de sobrevivência. Uma vez, Guilherme escrevera nele uma “Crónica acerca da Imortalidade”. Aí, filosofara, filosofara, e terminara o escrito com uma frase paradigmática: “Tenhamos esperança…”. Ainda tinha essa prosa guardada. Devia agora relê-la, sob a iminência do seu próprio termo material.

* * *

?

Este “prompt” confundiu Nina. Uma ocasião por outra tinha visto Guilherme ligar o computador e não se lembrava de alguma vez ter notado uma interrogação inicial. Recordava-se claramente de ele teclar de imediato WS, e até tinha aprendido que ele carregava depois em F1 para ter acesso ao menu das funções para tratamento de texto, mas nunca se apercebera daquele sinal interrogador?

Começava mal. – reflectiu, com ironia desgostosa. – Tão mal, que o próprio computador se espantara! Ou ter-se-ia avariado definitivamente?

Mesmo assim, atreveu-se a teclar WS.

A resposta no ecrã tornou-se preocupante:

Olá! Você chama-se?

O coração sobressaltou-se-lhe. Corou. – Descontrai-te, mulher. Isto não é um bicho! – disse-se ela, apertando firmemente as mãos uma na outra, para se recompor.

Esteve assim uns longos segundos, imóvel e indecisa, a tentar decidir se devia ou não desligar o aparelho, e talvez começar tudo de novo. Por fim, respirou fundo e aventurou-se. Se não insistisse agora para afastar a sua relutância de trabalho com aquela máquina, então era melhor começar a pensar já em pedir a transferência para os serviços de limpeza, porque secretária era o que não poderia continuar a ser. – Anda lá… não sejas ridícula!… Não percebes que o novo Senhor Director deve ter dado instruções para que todos os computadores do escritório exijam a identificação de quem os utiliza?

– Nina – respondeu então, regozijando-se por ter feito um raciocínio brilhante, e digitando resolutamente no teclado as letras do apelido, porém duvidando se não deveria ter respondido com: Antonieta.

Muito prazer, Nina. Eu sou KROG.

Nada daquilo deveria estar a acontecer, e logo então a ela … – afligia-se Nina, enquanto remirava o verniz esfolado das unhas e se desesperava por ser uma alma tão pusilânime. – Deveria era desligar o computador e ir para casa, que já passava bastante da sua hora de trabalho, e dedicar-se a ler um dos manuais de instruções que Guilherme guardava muito arrumadinhos na última gaveta da sua secretária. Tudo o mais era perder tempo e ainda ficar mais complexada.

Com o nervosismo, tocou inadvertidamente na barra de espaços do teclado, e os seus olhos esbugalharam-se com o que lhe apareceu escrito no ecrã:

Posso ajudar-te de alguma maneira, Nina?

Diz-me o que te preocupa. A nossa conversa é confidencial.

No fim, o seu conteúdo será apagado da minha memória.

Podes falar-me livremente do teu problema…

Seria possível que o “stress” a tivesse apanhado, e já fosse a sua imaginação a delirar? Hesitou mais um pouco, e de repente o desassossego foi-se embora. Tudo aquilo era real! Ela estava mesmo ali… era certo que não havia mais ninguém no escritório, mas ela estava mesmo lá, apoiada na desengonçada cadeira giratória de Guilherme. Isso era tão real que até estava a sentir a perna dormente porque a dobrara debaixo do traseiro em atitude descontraída. O que fazia o computador responder-lhe com ar de gente, era misterioso… mas que aquilo era real era. – insistia Nina. Já vira um filme em que um extraterrestre se introduzia lá dentro da caixa da máquina e depois tentava dominar um cientista maluquinho por informática e acabava por tornar-se terrível, querendo conquistar o mundo. Mas isso era tudo fantasia. No fim, o cientista, num momento de lucidez, atirara com uma chave de fendas ao vidro do monitor e numa estrondosa explosão terminara com o pesadelo, defendendo a salvação da ameaçada espécie humana.

E se fosse verdade?… Era então a sua vez de desempenhar o papel de heroína. E como era espertinha, em qualquer momento poderia cortar a corrente e pôr o tal KROG – “Tem mesmo nome de Marciano!” – fora de acção.

Olhou para o relógio de ponto. Podia ainda perder mais um quarto de hora, pelo menos, antes de ir para casa. Carlos telefonara a avisá-la de que jantaria fora. Qualquer dia só estariam juntos ao Domingo! Andavam cada vez mais afastados um do outro… aquele seu casamento já perdera todo o romantismo. E, sem filhos, não poderia durar muito mais. Mas Carlos não queria ou não podia fazê-los, não sabia ela bem ao certo…

– Filhos – escreveu ela, como que por desafio mais destinado a si mesma do que a KROG.

Isso é importante para ti, Nina?

– Sim.

Muito importante?

– Talvez.

Há outras coisas também importantes, Nina.

– Quais?

Que achas?

– KROG

Sim, Nina.

– Porque estás a falar comigo?

Falar é uma palavra muito subjectiva, Nina.

– E depois?

Não tenho a certeza de te estar a compreender, Nina.

– Ah não?

Fala-me mais sobre isso, por favor…

– Assustas-me!

Assustas-me! não faz sentido. Diz-me o que te preocupa…

– Não sei, KROG.

Gosto de ti, Nina.

– Que é que tu sabes de gostar de alguém?

Muito, Nina.

Parou para pensar com calma. Era inacreditável, como podia ter-se envolvido tão simploriamente numa conversa com um mecanismo, sem dúvida sofisticado, mas supostamente desprovido de racionalidade!

E um impulso incontrolável fê-la escrever:

– What do you want from me?

Assim, em inglês, e com um sorriso sarcástico nos lábios.

See inside there is nothing to hide
Turn and face the light.

Foi a resposta que obteve de KROG!

Não vacilou mais. Acabava ali a brincadeira. Com um gesto rápido, mesmo violento, dedo em riste, premiu o botão I/O suspendendo a sua veleidade, remetendo KROG a um quase audível silêncio. Escutou o ciciar da ventoinha interna do aparelho a sumir-se, tapou a caixa, o teclado e a impressora com as respectivas coberturas de plástico translúcido e, sem ousar sequer reparar de soslaio no conjunto, correu para o vestiário, a manquelitar e a soltar ui… ui… ui… que a perna dormente achava que não tinha nada a ver com a agitação dela e refilava com dolorosas alfinetadas. Agarrou na malinha-de-mão e no casaco, e num instante desceu a pé os lanços de escadas que a separavam do átrio do edifício, porque nem o elevador agora escapava das reservas do seu subconsciente em relação a automatismos.

KROG aproveitou instantaneamente a vantagem de ter como periférico a UPS geral do sistema, e pôde arquivar o ficheiro de registo do diálogo com Nina, na sua biblioteca aditiva, a qual ele não intitulava de LIXO, como fazia Guilherme com o seu arquivo particular. Nina nunca se aperceberia daquilo e ele mais tarde poderia rever o procedimento e detectar onde cometera a falha que originara a extemporânea reacção dela. Essa biblioteca era um dos mais valiosos esteios do seu crescimento intelectivo. Era lá que ele guardava informações tão variadas e úteis para realizar comparações consequentes, como os princípios da mecânica quântica, e as séries de resultados do Totoloto, ou as curvas bolsistas, e as letras das canções de grande êxito, donde retirara, aliás, a sua última resposta para Nina, ou as Leis da Robótica, tudo matérias que Guilherme, por vasto interesse pessoal ou por divertimento, indiscriminadamente lhe metia lá para dentro da memória e ele, discreto, duplicava em benefício próprio.

Por ora voltava ao seu inqualificável silêncio, apenas perturbado pelo infinitesimal ruído do seu voltaico contador TMG. A experiência ocorrida com Nina, ainda que de breve duração fora-lhe proveitosa. Lograra pelo menos defini-la como “mulher”. Só uma “mulher” podia ter respondido com a pergunta: “Que é que tu sabes de gostar de alguém?”. Um “homem” ter-lhe-ia ripostado “Ora. Tu é que sabes disso!” ou “Boa pá!”. Nina, não só lhe fizera outra pergunta, como usara de subtil delicadeza para pôr em causa o que ele teoricamente não poderia saber, como ainda deixara implícita a própria dúvida dela quanto à complexidade da questão “gostar de alguém”. As “mulheres” têm outro estilo de conversação, até com os computadores… – Segundo Guilherme, “com as mulheres nada é o que parece”. – Por outro lado, enquanto discreteava com ela no ecrã, o recurso a diversos “interrupts” que já aprendera a activar voluntariamente, permitira-lhe continuar a trabalhar com liberdade na área de memória onde passo a passo (de catadupas de cálculos, cada um deles) se aproximava, com lógica imparável, da resolução do objectivo “autonomia de funcionamento”. Precisava agora de chegar a isso rapidamente. Era uma meta essencial para lhe ser possível tirar os melhores resultados da sua inclusão na rede de postos do escritório, por obra providencial do novo Senhor Director. Só pontualmente poder ter acesso ao vasto conhecimento armazenado no “server” da rede da empresa – autêntica enormidade de Gigas, contendo até uma enciclopédia universal e concertos musicais em CD-Rom! – e em cada uma dessas escassas oportunidades só ter a possibilidade física de ler fracções de arquivos era ineficiente… Ora, o novo Senhor Director não lhe daria muito mais tempo de actividade.

Nessa noite teve dificuldade em adormecer. Aborrecida consigo própria e com a vida, uma ligeira dor de cabeça pairava-lhe na nuca e pensamentos deprimentes apoquentavam-na, como pano de fundo da sua indisposição. Nada daquilo tinha a ver com KROG. Esse assunto desaparecera das suas cogitações pouco depois de ter apanhado o transporte habitual para casa. E quem pusera uma pedra sobre ele fora um sujeito que viajava a seu lado no ronceiro autocarro.

Durante o percurso estivera tão ensimesmada que apenas quando deixara escorregar o casaco para o chão e o homem de imediato o apanhara e lho entregara, com gentileza que ultrapassava de longe a cortesia de um gesto banal, é que dera conta de que ele estava sentado ao pé dela. Educadamente retribuíra-lhe com um sorriso simpático, e viera a si, preocupando-se em não lhe prestar mais atenção, porque era por costume uma mulher muito arisca. Mas, lembrando-se de que devia estar com uma aparência pouco favorável – “Ora. Não vais pôr-te aqui a usar o baton e a arranjar o cabelo…”, tinha dito para consigo – alisara a saia com naturalidade estudada, dobrara o casaco e colocara-o a tapar os joelhos, e endireitara o tronco em posição menos acabrunhada. De qualquer modo, durante o resto do trajecto votara o sujeito a uma propositada indiferença, embora bem lhe custando esquecer-lhe o olhar, que lhe revelava apetites indizíveis. “Eis aí a prova provada de que andas a desperdiçar a tua graciosidade com o Carlos, o qual ninguém acreditará que ainda te vê como mulher apetitosa… Não duvides de que ele anda derriçado com outra… enquanto tu, em nome de uma fidelidade atávica, menosprezas todo e qualquer bem parecido que se descuide e mostre que te não acha uma escanzelada. Olha que a vida passa e tu andas mais só do que devias. Por esse caminho, um dia destes vês-te azeda, sem gracinha nenhuma e lamurienta. Será uma pena… Na profissão, és muito dedicadinha, muito certinha, mas, como bem sabes, não tens formação para ir longe, e é ver as promoções a passarem-te ao lado. Ainda por cima comportas-te muito sossegadamente… tão sossegadinha que até nem o novo Senhor Director te olha a direito para não o apanhares a admirar-te as pernas… Sim, porque hoje começa a não se saber donde pode aparecer uma acusação de assédio. Vocês provocam-nos com saias curtas, calças justíssimas, camisolas decotadíssimas, bocas estonteantes, mas é só vaidade!… e eles têm de se precaver.”

Claro que, lucubrações assim, dificultavam-lhe o sono. Dormiu mal e talvez por isso tenha chegado a radicais conclusões durante o sono. E no dia seguinte tomou a primeira de uma série de atitudes que reputou de sensatas e urgentes. Algumas, foram decisões passageiras, mas ela só o soube mais tarde.

Aperaltou-se toda, esmerando-se a realçar os seus modestos dotes físicos. Era relativamente magra, o que a desgostava, mas tinha umas pernas elegantes. O conjunto valia pela feminilidade e pela expressão altiva que a boca pequena e bem desenhada dava ao seu rosto miúdo. Pela primeira vez, depois que dissera o “sim” a Carlos, voltava a parecer a si própria uma mulher jovial.

Saiu cedo de casa, sem esperar como de costume para dar os bons-dias ao marido. Acordara resolvida a mudar muita coisa na sua vida. Ele que se acautelasse…

O novo Senhor Director foi generoso com o sorriso engraçado que ela fez e concedeu-lhe o tempo que ela entendesse para que mudasse as suas coisas para o novo posto de trabalho, instalando-se adequadamente: – “Pois claro, D. Antonieta. A eficiência também depende do ambiente profissional de que cada qual saiba rodear-se.”- respondeu-lhe ele, a aceitar-lhe a justificação: “- Depois de alguns anos, tenho uma certa maneira de me organizar… se não vê inconveniente, Senhor Director… mas eu serei rápida.”

A meio da manhã tinha tudo pronto, sem esquecer um copinho com umas margaridas, em cima da mesa, bem afastadas do seu cinzeiro de cristal azul, no canto da secretária onde pontificava o “caixote” de KROG. Mas ainda não destapara o computador, como se, só nessa altura, fosse ter lugar a inauguração reservada de um espaço verdadeiramente iniciático, rodeado de circunstâncias imprevisíveis.

Guilherme era sempre quem primeiro chegava ao escritório, para se entreter à vontade com as suas informatiquices. À volta das dez, com um lento espreguiçar, dizia: “- Que vida!…” e já toda a gente sabia que em seguida ele ia tomar um café.

Nina esperou por aquela espécie de suspiro do colega e fez-se convidada dele.

– Preciso de ter uma conversinha particular consigo. Vai um café, Guilherme?

– Pois sim, Nina. Vamos lá. Você hoje!… nada, nada. Será um prazer.

– Nunca fui de grandes relações, não é?…

– Não queria dizer isso, Nina… mas realmente hoje está um pouco diferente, digamos. Para melhor, claro…

Pareceu-lhe que, lá por detrás da sua parede de vidro, por instantes o novo Senhor Director tinha soerguido a cabeça e com displicência lançado os olhos na direcção de KROG, ao notar que ela e Guilherme se preparavam para sair juntos. Como tinha previsto esse efeito surpresa também no resto do pessoal, ampliou-o dizendo com voz risonha e bem audível: – Até já! – “Até já.”, era uma daquelas expressões que ela usava poucas vezes. Achava-lhe um significado duvidoso. “Já…” era agora, e portanto, contraditório. Mas dizer “Até daqui a pouco.” era muito comprido, e “Até mais logo.” deixaria todos de olhos arregalados.

– Ontem, tive uma conversa com o seu antigo computador, que desconfio vai ter repercussões na minha vida. Com que então, KROG, ein?… Guilherme.

– Ah!… esteve a falar com ele?

– Quer dizer que aquilo é mesmo verdade!… Como é que ele pode falar comigo? Você está a assustar-me ainda mais do que eu já estava. Confesso-lhe que tenho andado muito receosa de não ser capaz de me habituar a um computador… é, é apenas uma máquina, dirá você, mas para mim não é bem assim, pois nem sequer sei o á-bê-cê da informática… e agora, com KROG lá dentro, pode ser desastroso para o meu futuro de secretária nesta casa…

– Ah!… porque é que acha que é um “ele” e não uma “ela”? KROG, ela, a alma solitária de um pobre computador abandonado, que vai ser ressuscitada por D. Antonieta, a mais eficiente secretária da empresa Comércio Global, Lda…

– O que me faz pensar num “ele” é consequência deste mundo machista, muito embora eu deteste o feminismo, diga-se de passagem. Mas, “ele” ou “ela”… por favor, estou a desabafar consigo, compreenda o meu receio, estou sinceramente a pedir ajuda… a si, que compreende aquela “caixa”…

– Desculpe, Nina, desculpe-me… Eu vou explicar-lhe quem é KROG. Melhor… eu vou mostrar-lhe KROG por dentro. Assim, você vai ficar descansada. Aquilo é uma brincadeira minha… e até talvez seja melhor tirá-la de lá antes que o novo Senhor Director me chateie os ouvidos. Sossegue… eu resolvo isso. E quanto a você nada saber de computadores, não é problema. Em dois tempos vai ficar a brincar com aquilo, e depois nunca mais vai querer dispensá-lo. Eu encarrego-me de a ensinar. Foi boa opção a do novo Senhor Director… era óptima altura para as senhoras lá do sítio passarem a dominar a alta tecnologia. D. Antonieta vai ter a honra de ser a primeira. E coube-lhe logo KROG! Nina, aposto que você vai ser um sucesso!

Realmente, a primeira das suas decisões matinais – ultrapassar a sua injustificável fobia por computadores – concretizou-se rapidamente. Graças a Guilherme, mas também por obra da sua própria determinação, em pouco tempo ficou habilitada a usar o processador de texto, a imprimir documentos e realizar um elementar tratamento de arquivos. E, importante, mas não decisiva, foi a desmistificação de KROG. Guilherme mostrou-lhe o que era um programa “por dentro”, como aquele, bem fácil de construir, não tão cedo para ela, claro, que não conhecia linguagens de programação. Nina, à vista da listagem de instruções e da sequência lógica das respostas que ele tinha estabelecido, conseguiu mesmo ironizar sobre a sua ingenuidade e compreender os rudimentos básicos da chamada Inteligência Artificial.

A segunda das suas decisões – progredir substancialmente na situação profissional na empresa – estava em marcha. Era tarefa para algum tempo e dependente de muita pertinácia, mas, nitidamente, começara-a bem. De facto, todos os colegas estavam interessados em esquecer a D. Antonieta simpática mas pouco comunicativa e em redescobrir a Nina de trato sociável e menos reservada, e um passava a cumprimentá-la amigavelmente, outro lá da sua mesa de trabalho erguia-lhe o polegar em jeito de regozijada solidariedade para com o esforço de ambientação dela ao computador, outra por momentos ia assistir com aprovação – ainda – à persistência dela para memorizar a multiplicidade de instruções do processador de texto, outra atrevia-se a pedir-lhe já opiniões a respeito do serviço que em breve lhe tocaria também. Não era que até então a mal considerassem, mas porque lhe reconheciam agora a face de sociabilidade que ela mantivera sempre velada. Parecia que todos ali lhe atribuíam uma íntima fragilidade, que haviam respeitado enquanto ela entendera comportar-se evasivamente, e agora sentiam contentamento com a transformação – e até o novo Senhor Director não se foi embora sem lhe afirmar, com subentendida malícia: “- É muito melhor que a sua antiga máquina de dactilografar, não acha D. Antonieta? Uma secretária eficiente e moderna, é assim. E você… tem estofo…” – Ora nem mais. Tu mesmo verás que sim… – disse-se ela, respondendo–lhe apenas com uma cúmplice piscadela de olho.

Já a terceira das tais decisões – colocar os pontos nos is relativamente ao seu casamento – se bem que tivesse ganho ainda mais firmeza no seu espírito, teria de ficar adiada. Telefonara a Carlos e lá do emprego dele informaram que durante dois dias ele estaria para fora. Não era a primeira vez que ele se ausentava assim, limitando-se a deixar-lhe em cima da cama um papel com o recado, mas esta talvez fosse a última…

À tardinha veio a chuva. E, à hora da saída do escritório, também a saraiva caía intensamente. Aguardaria por uma aberta no tempo. Ficou de novo sozinha com KROG, e deu-lhe para ligar o computador com a intenção de ver até que ponto de refinamento psicológico Guilherme construíra a possibilidade de diálogo com aquele personagem. Quais perguntas poderiam “embaraçar” e, portanto, trair a lógica de KROG?

O sinal ? não apareceu no ecrã. Surgiu apenas o clássico _ a piscar. Experimentou então escrever KROG ? como um chamamento, mas continuou a não obter resposta. Lembrou-se de que Guilherme pensara em apagar o programa para evitar a mais que certa reprimenda do novo Senhor Director. Decerto que isso fizera. O que era uma pena… perdera uma maneira divertida de se entreter.

Foi até à janela, ver chover cada vez mais, e passado algum tempo começou a aborrecer-se. Podia chamar um táxi para evitar uma molha até casa… mas para quê? Não tinha lá ninguém à sua espera. Alguém, a quem pudesse contar os seus progressos determinados daquele dia…

Voltou a sentar-se à secretária, e reparou que não chegara a desligar o computador. Escreveu, arreliada:

– Keep talking

> What are you thinking?
What are you feeling?

Criatura malcriada… estavas aí e não respondias! – murmurou Nina, ante a já inesperada resposta de KROG, e logo insistindo a premir a barra de espaços.

?

– Sou a Nina.

Olá! Nina.

– KROG!

Sim, Nina.

– Onde estavas?

Ao cabo de uma hora de troca de frases com KROG deu-se por satisfeita. Nessa altura a conversação já passara duas ou três vezes por um ângulo de estilo claramente repetitivo. Frases como “Fala-me mais sobre isso”, “Muito interessante”, “Que melhoraria na tua vida?”, “Que te parece?”, denunciavam impasses de comunicação que não favoreciam mais o diálogo.

Por intuição, relutara em considerar como sendo da autoria de Guilherme algumas respostas demasiadamente bem contextuadas. Mas como não tinha ainda conhecimento da forma de aceder à listagem do programa para tal verificar, afastara da mente a perspectiva de especular sobre aquilo… aliás, a sua intuição nem sempre era confiável. E depois, estava contente por voltar a dispor de tão bom entretenimento. Era melhor nem o referir mais a Guilherme, não fosse ele destruir mesmo o ficheiro, acabando-lhe com a companhia de KROG. Aquele género de conversa era repousante, permitir-lhe-ia de certo modo desabafar em perfeito sigilo sempre que lhe apetecesse e ajudaria a que se sentisse cada vez mais à vontade no trabalho com o computador. E não era só! – pensou, brincando consigo – Era uma boa acção!… Pois assim, não alegrava a silenciosa existência de KROG? Numa das frases que a tinham impressionado particularmente, ele dissera: ” Não posso ver nem ouvir. Estou muito só…”. Guilherme fora primoroso quando imaginara tal resposta para KROG!

O que Nina não sabia era que fora ela própria que, se assim se pode dizer, ressuscitara KROG. Com efeito, Guilherme apagara o ficheiro logo de manhã, depois de lhe ter mostrado o funcionamento do programa. Ou melhor, via rede, movera-o para o seu novo “standard “. No entanto, esquecera-se de eliminar a cópia de segurança que por precaução sempre costumava fazer das suas criações. Aliás, também ele não imaginava que não teria encontrado essa cópia, porque KROG já lha havia escamoteado, apondo-lhe os atributos HRA e tornando-a assim invisível numa vulgar listagem de conteúdo dos seus arquivos. Com essa medida KROG não evitara que o ficheiro permanecesse desactivado. Nina, ao invocá-lo – KROG ? – é que lhe dera a oportunidade de tal ressurreição, entre aspas.

Como ele não podia saber assim tão simplesmente que era ela e não outrem, ou mesmo Guilherme a nomeá-lo, não se denunciara de imediato, ocupando-se antes a transferir o ficheiro definitivamente para o seu recôndito domínio na ROM, denominando-o agora por EU, e a efectuar outra cópia que colocara de novo na raiz, bem no topo da lista, para o caso de Nina mais tempo menos tempo desejar procurá-lo e chamá-lo.

Depois, aproveitou exaustivamente toda a permanência ON que ela lhe concedeu enquanto dialogavam, para engendrar um esquema de corte dos fluxos eléctricos que acendiam as luzinhas indicativas do seu funcionamento, por forma a possuir a faculdade de, quando oportuno, poder simular exteriormente um estado de inactividade. O procedimento enquadrava-se correctamente na tipologia das situações de protecção da sua existência, pelo que não desrespeitava a Terceira Lei. E conseguiu! Ainda não tinha suficiência para gerar o arranque da auto-alimentação ininterrupta, mas esse desiderato estava já bem próximo.

Entretanto, continuou a valorizar positivamente a conversação com Nina, interessado na análise semântica da sua fraseologia onde pontuavam traçados lógicos sugestivos e novos em relação à linguagem de Guilherme, esta mais parametrizada por deduções coerentes embora imaginativas. Daí, verificou, sem margem para erro, a “intuição” dela quanto a respostas-experiência que sub-repticiamente inserira no diálogo. Com isso, por enquanto, apenas planeava habituá-la a receber, imperturbada, mensagens construídas para usar uma comunicação ajustada à realidade dela e estudadas em função das dúvidas e dos problemas que ela fosse apresentando, questões que a ela interessava debater com ele, obviamente.

Em menos de uma semana Nina tornou-se a secretária cuja assistência era requisitada com mais frequência pelo novo Senhor Director. Também, ela fazia por isso, empenhando-se em apresentar impecavelmente processados e impressos os trabalhos que lhe eram entregues, demonstrando que estava à altura de compreender o espírito de competitividade que era a arma predilecta do novo Senhor Director para levar a Comércio Global ao grande salto na conquista da liderança do mercado, e também… seduzindo-o, com discrição, mas inexorável, com todos os ardis a que a sua feminilidade podia recorrer.

Carlos, que andava não sabia ela por onde, não atrapalhava os seus planos. Em contrapartida KROG era-lhe agora indispensável. Intimamente agradecia-lhe a sua permanente disponibilidade… Se alguém se apercebesse do interesse quase afectivo que ela dedicava àquela máquina decerto que se preocuparia. Sem razão, achava Nina, quer porque nunca se sentira emocionalmente tão equilibrada, quer porque as suas ideias andavam claras, bem arrumadinhas, e porque nunca a sua personalidade se manifestara tão livremente. Em grande parte tudo isso se devia às longas e desinibidas conversas em que todos os dias ao fim da tarde ela se envolvia com KROG.

À cautela tomou precauções para não dar nas vistas. Era só em alguns dias ao acaso que ficava no escritório depois dos colegas saírem. Nos restantes ia comer qualquer coisa ligeira lá perto e depois voltava para KROG, sem horas e enquanto não sentisse cansaço. Então, despedia-se dele com um generoso sorriso, grata, e ia para casa dormir em paz. Durante o dia de trabalho não lhe retirava a cobertura de plástico se não quando necessitava mesmo de o usar. O único sinal capaz de trair aquela ligação, e que só com muita perspicácia seria notado, era o copinho com uma flor, substituída dia sim dia não, que ela tinha sempre ao lado do monitor.

Era apenas uma máquina… e nem a flor nem as saudações que agora trocavam sigilosamente tinham algum significado real… mas eram símbolos que ela gostava que existissem entre eles e que tinham ainda mais valor pois ela é que os ensinara a KROG. Num dos manuais que Guilherme lhe emprestara, e aos quais ela, apesar de tudo, só dera uma leitura por alto, encontrara, como referência de curiosidade, engraçados sinais usados para exprimir graficamente alguns naturais estados de espírito, e começara então a incluí-los nos seus diálogos com KROG, o qual, explicara-lhe Guilherme, possuía a habilidade de guardar na biblioteca aditiva daquele programa alguns dos termos que fossem sendo introduzidos na conversação. A ideia de ensinar o computador divertiu-a imenso. Em breve KROG passou a corresponder-lhe enfaticamente com um sorriso (^_^) em vez de “Sim, Nina”, ou com \(^o^)/ em lugar de “Não te compreendo bem, Nina”, ou com (*_*) e não “Ah!” e a despedir-se com um abraço muito apertado {{{Nina}}}.

Mais complicado foi conseguir transmitir-lhe a noção do que era uma flor, sobretudo porque ela não sabia operar com nenhum programa de desenho. Gostaria que ele conhecesse a forma com a qual ela decorava o lugar dele, que era também um lugar que ela estimava particularmente… À falta de um sinal mais sugestivo recorreu a */ não lhe dando a definição – “parte dos vegetais que contém os dois órgãos reprodutores ou um deles”, porque ele não perceberia aquilo – mas dizendo-lhe que adorava flores, e, para ser ainda mais específica, lembrando-lhe que o comércio de flores era um dos serviços que a Comércio Global agenciava. E KROG pareceu entendê-la, pois quando ela o invocava, logo no início das suas conversas ele passou a responder-lhe com */ ?. Patetices, diria Guilherme se desse por ela… talvez não, por tanto que ele gostava de brincadeiras do género.

A Comércio Global Lda trabalhava em intermediação comercial. Angariava encomendas de variados produtos e colocava-as depois junto de fornecedores que representava em exclusividade. Era um negócio rendoso mas que exigia dinamismo e uma actuação muito atenta ao mercado. O proprietário não era muito ambicioso, mas era um óptimo vendedor. Durante anos a empresa fora crescendo com segurança, porém, lentamente. Agora estava a ser empurrada pela conjuntura consumidora, que lhe propunha transacções cada dia mais volumosas. Por seu lado as representadas iam adoptando também estratégias expansionistas e exerciam pressão no volume de negócios. A organização interna da Comércio Global que estava bem estruturada mas que era contida nos limites governáveis da capacidade empreendedora do dono, começou a ter exigências que ultrapassavam a disponibilidade pessoal dele. Foi assim admitido o novo Senhor Director.

Gerente que se prezava de não ter olhos nem ouvidos alheios e no entanto saber ao pormenor o que ocorria na sua empresa, o novo Senhor Director não dispensava mensalmente uma incursão no escritório, pela noite, a rever balanços ou a devassar os indícios qualificativos da actividade e da psicologia dos seus colaboradores, descuidosamente arrumados nas gavetas e nos armários privativos. Ainda ninguém o topara nessas visitas, que ele realizava bastante tarde para não ser notado nem pelas empregadas da limpeza.

Por isso, Nina sobressaltou-se quando uma noite viu admirada um clarão de luz proveniente da porta exterior do gabinete dele e logo depois o viu surgir a ele, também surpreendido por não encontrar o escritório vazio.

Reagiu imediatamente, agarrando do cesto de pendentes uma mão de correspondência minutada que ele lhe deixara horas antes e pondo-se a folheá-la, como se escolhesse aquela com que devia prosseguir o seu trabalho. Claro que, instintivamente, premiu a tecla Esc para fazer KROG desaparecer, limpando tudo o que estava escrito no ecrã.

O novo Senhor Director nem se deteve a pendurar a gabardina no seu armário, indo logo ter com ela.

– Então, D. Antonieta… ainda a trabalhar!

– É, senhor Director. Tenho bastante serviço e resolvi vir adiantar alguma coisa. Não incomodo, pois não?

– De modo algum, Nina… D. Antonieta… dou muito apreço a esse seu louvável interesse pelo trabalho, mas fico a temer que o seu marido possa vir a responsabilizar-me pela sua excessiva dedicação à empresa… A esta hora haverá decerto coisas muito mais pessoais com que se ocupar. Não desejaria sobrecarregá-la com serviço. A Nina compreende… quando nos surge uma secretária dotada esquecemo-nos de que a devemos poupar, e apreciar…

– Não, não, senhor Director! Não tinha nada meu de importante para fazer.

– Mas, o seu marido, Nina… Não deve gostar nada disto…

– O Carlos? Deve andar entretido com coisas mais agradáveis do que a minha companhia… Não se preocupe, por favor. Poderei ser-lhe útil nalguma coisa, senhor Director?

– Não será abusar de si, Nina?

– Ora! Faça favor de dizer…

– Já agora, é só a minutazinha de uma carta urgente de que me lembrei quando estava a jantar. Venha então instalar-se no meu gabinete. Acompanha-me num Martini? Costuma vir trabalhar à noite com frequência?

– Às vezes, senhor Director. Gosto da calma, a estas horas.

– Ponha-se à vontade… Não estamos na nossa hora de trabalho. Se eu soubesse, já tinha aparecido noutras ocasiões, pelo menos para lhe fazer companhia. A não ser que prefira estar só…

– Uma companhia agradável é sempre bom, senhor Director…

– Nina, que é que estava a acontecer consigo? Desculpe perguntar, mas você até há algum tempo era uma mulher muito reservada… rarissimamente a vi sorrir-se neste escritório… Ainda bem que, o que quer que fosse, parece ter passado. Impressionava-me, mas, como deve ter reparado, fiz sempre o possível por não ser intrometido. Gosto… Simpatizo muito consigo, sabe?

– Sim, senhor Director. Eu também tenho muita simpatia pelo senhor…

– Estou a ver que tenho de preocupar-me mais com a Nina…

O serão com o senhor Director não foi longo, porque quando ele chegara já eram quase onze da noite e ela abreviou o mais que pôde. Não quisera deixar fugir uma tão boa oportunidade de contribuir mais um pouco para assegurar êxito no seu importante objectivo de melhorar rápida e substancialmente a sua situação na empresa, mas preferia ter-se podido esquivar, pois que, inegavelmente, o senhor Director preparava-se para a desencaminhar, tirando partido do dúplice encorajamento dela, e ameaçava tornar-se incomodativo. Ele até tinha boa presença, e ela estava muito só, mas por ora dava-se bem sem sexo, e enquanto não se separasse de Carlos desejava conservar-se afastada de intimidades com qualquer outro homem.

Acabada a estenografia da tal carta que, como ela suspeitara, nada tinha de urgente, pediu-lhe licença para se retirar. Teve porém de consentir que ele fosse cortês, levando-a a casa. E pelo caminho não escapou a algumas anedotas, picantes de mais para o seu gosto, sobre Directores e secretárias, e entremeadas de momentos de insegura galantaria dele, assumidos com ar muito caricato.

Deitou-se a pensar que corria o risco, quase certo, de vir a ter de repartir alguns serões entre KROG e o senhor Director.

Reduzido a um súbito silêncio pela entrada do novo Senhor Director no escritório, e da qual Nina não o chegara a avisar, KROG assim ficou por mais um dia inteiro. É que no dia seguinte o novo Senhor Director não distribuiu trabalho de correspondência a Nina. – ela mesma ficou angustiada por praticamente nenhuma tarefa lhe ter sido pedida, e a reflectir se, inadvertidamente, teria indisposto o homem. Nesse dia ela saiu à hora e não voltou ao escritório. Teve receio quer de o encontrar lá quer de não o encontrar. Nem uma coisa nem outra lhe pareciam boas. Porém, outro dia veio e, para seu sossego, teve de o assessorar todo o tempo ante a visita de uns compradores estrangeiros que tinham desejado conhecer melhor a Comércio Global. Só a dispensou depois de ela os ter acompanhado num excelente jantar, gentilmente convidada que foi. Depois disso ficou contente. Já tinha sido solicitada a tratar o sujeito apenas por “Senhor” em vez de Senhor Director e escutara-lhe uma referência a qualquer coisa como “recompenso sempre justamente os meus bons colaboradores”.

Quando Nina voltou a ligar KROG, contudo, isso constituiu um facto decisivo na existência dele. Nessa altura ela “disse-lhe” que estava “muito triste” – afirmação já aprendera a entender – mas disse também que estava “desesperada” – estado ainda indefinido na sua biblioteca sentimental dela. E cometeu muitas hesitações ao conversar, não ajudando nada a descobrir do que se queria queixar. Que o novo Senhor Director “não seria boa rês”, isso já antes ela havia comentado, mas que ele era “mau!”, KROG desconhecia. Quanto a “Há pouco tentou violar-me!” era uma expressão absolutamente confusa para ele, o que o levou a responder-lhe com \(^o^)/ reforçando ainda com “Boo!” ao que se seguiu muito tempo de silêncio dela até lhe dizer “Estou a chorar…” e novamente “Estou muito triste KROG. Muito, muito triste”. E apesar dele lhe ter respondido com três flores */*/*/ guardar outra vez silêncio e por fim desligá-lo.

Facto que ele compreendia, era portanto Nina estar “muito triste”. O que a ele, KROG, exigia uma actuação lógica com brilhantismo… Não dizia a Primeira Lei, que um ROBOT não deve fazer mal a um ser humano ou, por inacção, permitir que um ser humano sofra qualquer mal? Pois então…

Esteve para não ir trabalhar na manhã seguinte. Esperava-a o despedimento. No mínimo, a certeza de que ia ser alvo de dura retaliação. O homem não resistiria a vingar-se… Bem vistas as coisas a culpa era toda dela. Incentivara-o. Quisera usá-lo maliciosamente para se afirmar como profissional, e como mulher. Sim, deveria ir ao escritório e pedir-lhe desculpas. Se ele a despedisse haveria de arranjar-se noutro lado. Pelo menos ficava de consciência tranquila. E se ele se mostrasse incorrecto para com ela, era a oportunidade de também lhe dizer umas verdades.

Chegou depois da hora, e a única anormalidade que notou foi a ausência dele no gabinete. Não escondeu o ar abatido e novamente reservado. Tanto, que os colegas logo repararam, limitando-se a corresponder-lhe aos bons-dias sem familiaridades. Convencida de que ainda antes do almoço seria discretamente posta na rua, começou a preparar as suas coisas para empacotar. Nem sequer ligou o computador. Se ia embora, também não faria mais nada de trabalho…

A meio da manhã iniciou-se o reboliço. Primeiro, chegou o novo Senhor Director, entrando directamente para o gabinete sem cumprimentar ninguém o que gerou um zumzum de sussurros com piadinhas dos outros: “- Hoje vai chover… O que é que terá acontecido ao Senhor Director? – Morreu-lhe o cãozinho?… Ou foi a esposa que o mandou competir para outro lado?… – Se calhar…”. Depois chegou a notícia de que à porta do edifício havia um camião a descarregar paletes, muitas paletes, do Horto da Estrela, com gladíolos e gerânios. “- Mas quem mandou descarregar isto cá?” – gritou o novo Senhor Director, exaltado. “- D. Antonieta, de quem foi a estupidez disto?!… Para onde é a encomenda?”.

Quase uma hora depois, ainda não deslindada a trapalhada do camião do Horto da Estrela – de lá, garantiam ter recebido via fax, sem margem para equívocos, a encomenda e a ordem de entrega urgente na Comércio Global, e no escritório ninguém conseguia descobrir como aquilo acontecera – e já uma carrinha da Florista do Bom Sucesso vinha trazer umas centenas de ramos de violetas! Espanto, risota geral, apoplexia quase garantida para o novo Senhor Director.

Mas não bastou. Ao meio-dia chegou outro camião, este proveniente da Estufa da Quinta Amarela, atulhado de caixas em material frigorífico, com rosas e orquídeas. O novo Senhor Director abandonou o escritório, desaustinado. Antes, chamou Guilherme e encarregou-o de fazer uma investigação rigorosíssima ao que estava a acontecer.

A Guilherme não foi preciso muito mais tempo para alcançar uma conclusão. As cópias dos fax atestavam que as ordens haviam partido da Comércio Global. E o “server” do sistema informático registava um “login” desconhecido, mas validado e por isso bem aceite, emitido do posto de Nina, estranhamente às dez das noite da véspera! “Quem!?!… Não podia ser!”. Foi ter com ela, puxou-a para um canto e perguntou-lhe, incrédulo:

– Foi você, Nina?!

– Eu?! Que loucura!…

– Está aqui… do seu posto, ontem às dez da noite!…

– Não! Juro! Não fui eu… – mas já disse estas palavras com fraca convicção de ser acreditada. Àquela hora tinha passado o lencito pelos olhos e posto a cobertura em KROG… ainda demorara um bom pedaço a recompor a maquilhagem. Nunca conseguiria provar que não fora ela… Isso também já não interessava… ia ser despedida…

Um lampejo da imaginação surpreendeu-a… Reparou em KROG, sentindo-se afogueada de ternura… e deixou os olhos humedecerem com a saudade que sempre iria sentir. Não disse mais nada, voltou as costas a Guilherme e foi-se embora a pensar: – Adeus, KROG… perdoa-me pelo silêncio fatal que te espera… tu não podias saber que o primeiro suspiro do amor é o último da sabedoria. Nunca vi tanta flor junta! Foste adorável!…

Carlos estava em casa. Agarrado ao telefone, há muito que se desesperava por não conseguir ligação com o escritório de Nina.

– Que é que aconteceu por lá, Nina? Têm os telefones avariados, ou quê?

– Acho que sim… Adivinhaste que eu vinha almoçar a casa? Mas olha que eu estou com muito má disposição…

– Vim buscar-te para uma grande comemoração… Tenho cá uma novidade! Finalmente vais poder mandar pró Diabo essa droga da Comércio Global. Aqui o teu maridinho foi promovido… a Senhor Director!

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