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Francisco Louçã é, juntamente com António Bagão Félix e Ricardo Cabral, um dos colaboradores permanentes no blog do jornal Público Tudo Menos Economia. Há precisamente uma semana, a 3 de Dezembro, decidiu escrever sobre cinema e, mais concretamente, sobre o mais recente filme realizado por Christopher Nolan: «Interestelar».

No texto, intitulado «A utopia resgata o presente do futuro?», o ex-líder do Bloco de Esquerda realça que «este é o segundo filme (o primeiro foi «Gravidade») de grande audiência que, em pouco tempo, nos faz olhar para o espaço. Mas “Interestelar” não é unicamente um passeio no cosmos e um filme-catástrofe: é uma narrativa sobre a fronteira da ciência quando a Terra se esgota. E essa fronteira é misteriosa. (…) Ao deixar as perguntas, o filme desenha uma utopia: o êxodo da humanidade salva-a de si própria, depois de esgotado o planeta da origem. Mas, desse modo, o filme afasta-se da tradição mais eloquente da ficção científica, a que procura outros seres que são como nós ou que são meios de nós próprios. (…) A ficção científica não imagina o passado, procura o futuro e por isso ocupa a incerteza mais radical, que as artes do feitiço não podem sequer simular. A nostalgia é conservadora, a ficção é ousadamente transformadora.»

É sempre salutar, e de saudar, que pessoas, político(a)s, figuras públicas que estamos mais habituados a ver – e a ouvir – intervir em matérias mais do interesse geral, nacional, relacionadas com a economia e o Estado, procedam também, mesmo que ocasionalmente, a reflexões sobre outros temas – da cultura, e não só – que eventualmente proporcionem concordância por parte de outros que habitualmente deles discordam. Porém, isso não quer dizer que essas reflexões estejam isentas de erros, e esta foi um desses casos. De facto, Francisco Louçã escreveu «Alfonso Cuarín» em vez de «Cuarón»; que Ridley Scott realizou «Aliens» – este, na verdade, foi dirigido por James Cameron, e Scott deu-nos, antes, «Alien»; que «Blade Runner» foi «adaptado de um conto» de Philip K. Dick – na verdade, foi adaptado de um romance, «Do Androids Dream of Electric Sheep?»

Depois de detectar estas falhas – que alguém, que dá mais importância ao CdP (Culto da Personalidade) e ao SI (Sectarismo Ideológico) do que à FC, optou por ignorar – decidi apontá-las, juntamente com as respectivas correcções, à Direcção do Público, que por sua vez as comunicou a Francisco Louçã. Este procedeu às alterações no dia seguinte – embora, quanto a «Blade Runner», tenha optado por indicar aquele filme como tendo sido feito «a partir de um texto de…» – mas não indicou que aquelas alterações tinham sido efectuadas nem quem as tinha induzido. O que, enfim, não é de espantar: à esquerda há sempre muita dificuldade em se admitir que se estava (está) enganado.

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