MATRIX dos irmãos Wachowski é um clássico indubitável que completa este mês os 20 anos desde o seu lançamento. É um dos meus filmes favoritos. Foi uma das minhas melhores experiências de cinema, quando há cerca de 20 anos , tendo estado em reclusão durante semanas a preparar-me para os exames da Faculdade de Direito e não sabendo absolutamente nada sobre o filme, fui convidado por um amigo meu e fomos ao São Jorge ver este filme misterioso. Foi uma experiência absolutamente fascinante. O filme também demonstra uma outra característica muito interessante: é um filme em camadas – um rapaz de 12 anos pode vê-lo como um thriller de ficção científica cheio de acção e efeitos especiais, mas também o podemos ver como uma história profunda e cheia de sentidos. Adoro filmes assim, como BLADE RUNNER, por exemplo. Durante anos, sempre que me perguntavam qual o meu filme favorito, eu respondia: a TRILOGIA MATRIX. E nessa altura as pessoas começavam a discorrer como o primeiro filme é tão melhor que o segundo e terceiro e por aí fora. Mas a minha análise é a outro nível e não concordo nada com esta crítica. Deixem-me tentar chegar ao tema e à mensagem desta obra e divagar um pouco…

A ‘Realidade’ é um conceito que se aprende. Nos primeiros meses de vida aprendemos conceitos básicos que se tornam os pilares da nossa saúde mental. Aprendemos o Amor e o Ódio, a Culpa e a Frustração, e como lidar com as relações. Mas antes disso, começamos a aprender as regras – que as coisas se movem de uma determinada forma, que há muitos sons e muitas cores, que uma banana sabe de uma forma e uma maçã de outra. Aprendemos a ‘Realidade’. A ideia de que tudo é um ‘mundo unificado’ não é particularmente óbvia – especialmente se as ‘regras’ do mundo forem demasiado confusas. A sanidade pode ser severamente danificada se não conseguirmos aprender estas regras e a unificação do mundo. Há muitas teorias sobre como a esquizofrenia se forma e se desenvolve até ao momento que algo a revela, normalmente no fim da adolescência quando os árbitros da ‘Realidade’ da nossa infância já não nos são úteis. Mas basicamente, diria que um esquizofrénico sente dificuldade em unificar a realidade, por isso sente-a fragmentada em diversos segmentos, como se fossem diversas ‘caixas’ ou ‘prateleiras’ onde armazena as ideias do mundo. Os problemas acontecem quando essas prateleiras se baralham e tudo fica confuso – até começa a achar que tudo o que lhe dizem é uma mentira, pois tudo é contraditório. Este tipo de experiência da ‘Realidade’ é, no meu entender, o ponto de partida de MATRIX. Neo porta-se como um esquizofrénico: age sobre a ilusão quando quer mudar a realidade e sobre a realidade quando quer mudar a ilusão. E aquilo que a TRILOGIA nos mostra é uma espécie de terapia em que o paciente Neo integra as suas ‘realidades’ de modo a formar uma identidade madura – e com isto desenvolver alguns temas filosóficos profundos – com a ajuda dos seus ‘terapeutas’, entre eles Morpheus e a Oráculo.

O que nos impulsiona para a frente nas nossas vidas é o nosso Desejo. A nossa capacidade de querer algo para nós próprios. O Sentido da Vida. E no entanto, quase parece que tudo o que temos é o que alguns poderiam chamar A Espuma dos Dias – uma sucessão sem sentido de eventos que Yates entitularia: o Vazio Sem Esperança. Como reconciliar o nosso Desejo de ter um Sentido com essa experiência etérea da Espuma dos Dias? Na minha opinião, este é o tema de MATRIX.

Um psicólogo chamado Viktor Frankl sofreu em tempos o desastroso internamento num campo de concentração Nazi. Suponho que será difícil pensarmos num espaço de maior opressão e desesperança. Tentando ajudar os prisioneiros numa situação de tanto sofrimento, ele aprendeu algumas coisas que mais tarde partilharia com o mundo. Um conceito simples é este: o que quer que aconteça nas nossas vida, seja qual for a dificuldade que encontremos, podemos sempre escolher. Quando tudo nos é tirado, temos ainda algo: a capacidade de escolhermos a nossa reacção, a nossa atitude. Se encontrarmos o nosso Sentido, encontramos a nossa força.

Sigmund Freud dir-nos-ia, no entanto, que temos grilhetas dentro de nós. Que é difícil escolhermos por nós próprios quando somos esmagados pelos conflitos dentro de nós. As lutas entre o que nós queremos e aquilo que podemos fazer, ou que acreditamos que podemos fazer, irão necessariamente obstruir a nossa liberdade de escolha. Mas se conseguirmos resolver estes conflitos, nem que seja numa pequena medida, poderemos finalmente começar a fazer as nossas escolhas. Podemos fazer Sentido das nossas escolhas. Só quando percebemos as nossas escolhas é que conseguimos escolher livremente – assim nos diz a Oráculo. A psicanálise, que me parece estar no centro da TRILOGIA, debruça-se exactamente sobre como nos tornarmos livres para escolher.

Lacan levaria as coisas um pouco mais longe que Freud. Tentarei simplificar um pouco, por isso dêem-me algum espaço de manobra. As viagens das nossas vidas começam com a aprendizagem de que não podemos ter tudo o que queremos. Os nossos Pais, os nossos Antepassados, a Sociedade, irão ensinar-nos a conformar-nos. Se quisermos sobreviver, teremos que obedecer às regras. Encaixar. Tornar-nos o que eles querem que nos tornemos. Esta é uma viagem de frustração. As nossas escolhas são manipuladas e limitadas. A certo momento parecerá que teremos de esmagar a nossa vontade dentro de nós ou sucumbir à própria Morte. Mas se queremos viver, estar verdadeiramente vivos, temos de nos rebelar. Temos que lutar contra as Forças da Opressão: o Sistema, o Governo, as Figuras de Autoridade, as Corporações maléficas, o Complexo Industrial Militar, etc. O que não entendemos neste ponto, no momento da rebelião, é que estamos a entrar num novo tipo de prisão (e é isso que nos revela o segundo filme da TRILOGIA: RELOADED). Estamos a tornar-nos ‘mais um rebelde’. Os rebeldes têm estado aqui desde o início da História, são apenas mais um tipo de prisioneiro. Um tipo de prisioneiro que o Sistema já integrou e aprendeu a dominar e manipular: drogas, leis draconianas, escolas opressivas e exames, análises de crédito, tribunais, prisões, manicómios, são tudo manifestações do Sistema a lidar com a rebelião. E no entanto, o Sistema trabalha para nós. Desenhámo-lo para sairmos da selva. Se queremos ver um país em anarquia, o domínio da rebeldia, olhemos para a Somália ou outro território Não-Estado. Aí o Sistema não interfere…

Claro que o Sistema pode ser cruel e sádico. Todos os crimes dos Nazis foram cometidos dentro de um Sistema Jurídico. Mas como já referi noutros lados, a melhor maneira de confrontar o Mal vem de pessoas que escolhem. Pessoas como tantos burocratas na Europa que salvaram milhões de Judeus por desobedecerem, por minarem o Sistema, por escolherem a Humanidade. E estas pessoas não eram rebeldes, não eram excepções. Tanto os soldados de todo o mundo como as pessoas que se riam enquanto eram bombardeadas ou os heróis dentro das burocracias europeias como Aristides Sousa Mendes e Schindler e muitos outros, não eram rebeldes. Eram pessoas que pensavam. Pessoas capazes de fazer as suas escolhas. Eram livres. Eram o centro.

Para sermos livres, temos não só de rejeitar a opressão do Sistema como a ilusão da Rebelião. Temos que ser algo mais. Temos de ser Humanos. Abraçar tanto as nossas limitações como a nossa capacidade de escolha. É esta, na minha opinião, a mensagem da TRILOGIA MATRIX.

Uma das ideias mais inteligentes e bem sucedidas da História da Humanidade é o que podemos chamar de Agenda Liberal. A Agenda Liberal nasceu há algumas centenas de anos e foi consagrada no que é, no meu entender, uma das mais brilhantes legislações jamais escritas: a Constituição Americana. Liberdade de Expressão, Liberdade de Religião, Liberdade de Associação, Igualdade, Democracia, Estado de Direito, etc. Esta Agenda levou-nos a um dos mais incríveis períodos de paz e prosperidade: as últimas décadas. E representa a Escolha. Representa a protecção da Liberdade. O cerne da Agenda Liberal dentro da Constituição Americana não é necessariamente a imagem daquilo que os EUA se tornaram – mas é um ideal que tem suportado as democracias de todo o mundo ao longo dos anos de uma forma ou de outra.

No final, a grande luta é: seremos comandados pelo Medo, ou comandados pela Escolha? Somos incapazes de parar a Mudança e somos incapazes de parar o Tempo. A Mudança nunca pára e o Tempo nunca pára, isso é um dado adquirido. Como dizem os Budistas: nós agimos para evitar o sofrimento ou procurar a felicidade – enquanto o Tempo e a Mudança acontecem. No fim, talvez fiquemos apenas com a Espuma dos Dias – as experiências de todos os dias. Mas o que verdadeiramente interessa é a nossa atitude perante esta luta. Será que tudo isto é mesmo um Vazio Sem Esperança? Mas a Humanidade de facto evoluiu. Milhões vivem hoje na segurança das suas casas de um modo que nunca teriam na selva, capazes de fazer coisas que seriam consideradas Magia apenas há algumas décadas – como falar com pessoas a milhares de quilómetros de distância ou ver imagens incríveis de pessoas que não estão ali dentro do vidro, ou ouvir música como se tivéssemos orquestras privativas nas nossas salas. Se assim é, então as nossas vidas não são de facto vazias. Algo está a acontecer no Universo. Algo de que fazemos parte.

Qual é mesmo a escolha certa? É escolhermos por nós próprios. Como Neo faz no final da saga: paramos de lutar e começamos a viver. E isso, meus amigos, é o que eu chamo a Verdadeira Decisão Crítica do Herói. A Decisão de Fazer Acontecer. De Escolher o que Importa.

A TRILOGIA MATRIX é ainda para mim uma referência cinematográfica, mas também uma curiosa referência filosófica, uma referência que me alimenta há duas décadas. E assim continuará.

Para lerem uma análise mais profunda da TRILOGIA MATRIX, e como se liga momento a momento a tudo isto que referi, vejam aqui.