No ano passado, e mais concretamente a 20 de Julho, assinalaram-se os 50 anos da chegada dos primeiros homens à Lua – Edwin «Buzz» Aldrin, Neil Armstrong e também (embora não tenha tocado no solo) Michael Collins. Aqui registámos a efeméride, e interrogámo-nos sobre o que teria acontecido se eles não tivessem conseguido lá chegar. Mas conseguiram mesmo, assim realizando um sonho de milénios que antes se julgava impossível…

… E que também por isso estimulou a imaginação de muitos cientistas e de muitos artistas para conceberem e concretizarem – ou tentarem concretizar – os modos, os processos para se empreender com sucesso a viagem. Após séculos de divagações fantasistas neste âmbito, a ficção começou a tornar-se realmente científica com Jules Verne e o seu «Da Terra à Lua», não tardando a ser seguidos por outros autores e as suas obras – uma amostra significativa dessa multiplicidade e dessa diversidade é a antologia «Com a Cabeça na Lua», organizada por João Seixas e editada em 2009, aquando dos 40 anos da Apolo 11. Compreensivelmente e até quase «naturalmente», e não obstante o pioneirismo do francês de Nantes,  quase toda a produção relevante posterior neste domínio, e a antologia acima mencionada é disso uma demonstração, é proveniente dos Estados Unidos da América. Também por isso as excepções tendem a ser notáveis…

… E a uma delas vai fazer-se agora referência. No segundo quadrimestre de 2019 decidi que todos os livros lidos – e ainda os destaques na música e no cinema – teriam como tema as viagens extraordinárias, interplanetárias, para a Lua, e um deles intitulou-se, precisamente, «Lua Ano Um». Publicado em Abril de 1961 pela Portugália Editora e integrado na colecção designada «O Homem e o Desconhecido», é uma colectânea de textos de vários autores que, apesar de aparentemente constituir uma série de artigos científicos e técnicos, mais não é de facto do que uma (outra!) notável antologia de contos antecipatórios e – prematuramente – celebratórios da primeira viagem tripulada ao satélite natural da Terra, protagonizada por uma nave e por uma equipa soviéticas e que ocorreria em… 1974. Sim, a realidade acabou por ser mais fantástica do que (est)a ficção, e não a contento dos propagandistas comunistas. Porém, não se pode deixar de realçar e até de elogiar o trabalho de autores, criadores hoje desconhecidos e esquecidos como Gueorgui Gourevitch, I. Friedman, K. Guilzine, M. Popovski, V. Levine, e outros, que quase totalmente previram e descreveram correctamente as fases e as componentes principais necessárias e indispensáveis ao êxito de um projecto de tão grande envergadura – com excepção da utilização de energia nuclear. A obra é tanto mais notável porque terá sido lançada nas livrarias antes do lançamento no espaço do Sputnik, em 1957…

… E terá sido talvez a tradução francesa, de 1959, a estar na origem da versão portuguesa dois anos depois. O exemplar que tenho e que li foi adquirido pelo meu pai e encontrava-se, vá lá, «imaculado» – isto é, com as folhas ainda por cortar – há quase seis décadas. Folheando as primeiras páginas, o que vi, o que li? Que a tradução foi feita por Carlos Chafirovitch e por… Mário-Henrique Leiria, que, aliás, foi igualmente o responsável pela capa – embora, o que não deixa de ser insólito, tenha omitido o apelido na respectiva indicação. Eis-nos, pois, perante mais um exemplo da versatilidade de um autor excepcional, que a E-Primatur em boa hora decidiu recordar através da edição das suas obras completas em três volumes – o primeiro em 2017 (prosa), o segundo em 2018 (poesia) e o terceiro em 2019 (manifestos, textos críticos e afins). Entretanto, foi descontinuado «Casos de Direito Galá(c)tico e Outros Textos Esquecidos», que eu li também no ano passado – em 2016 já lera «Contos do Gin Tónico» e «Novos Contos do Gin», em edições da Estampa. É fundamental que também em Portugal não sejam esquecidos aqueles que contribuiram decisivamente para que a imaginação e o conhecimento tivessem uma nova aurora.