O meu Programa Principal: ajudar os homens.

A minha função corrente: procurar os homens que necessitam de ajuda.

Informação visual: em meu redor há um terreno plano, tendo à direita um bosque e à esquerda um rio. Nao há homens no campo de visão. Em frente está uma auto-estrada de asfalto, que leva aos edifícios que se vêem no horizonte.

Análise da informação visual: muitos edifícios = uma cidade.

Inquirir as coordenadas da minha localização no espaço.

Resposta do bloco de auto-orientação: 45 graus 36 minutos 28 segundos da latitude Norte, 112 graus 38 minutos 59 segundos da longitude Leste.

Sugestão do bloco enciclopédico: «É a cidade de Dacores. 150 mil habitantes. Setores económicos principais: indústria ligeira e transformadora, agricultura, vários tipos de artesanato. Língua oficial: linguni, língua tradicional: inglês. Nao há especificação de relevo no que diz respeito à vida quotidiana e à actividade profissional dos citadinos».

Contactar a Rede local de Informações Electrónicas, a divisão «Anúncios dos particulares e das estruturas oficiais». As sub-divisões: «Exigem-se», «Procura de serviços», «Assistência mútua».

Resultados da verificação: negativos.

Sinal do bloco de autocontrolo: sobrecarga elevada nos circuitos de tensão.

Ligar o bloco suplementar de estabilização.

Elaborar o subprograma corrente: interrogar a população local com o objectivo da realização do Programa Principal.

Comando ao bloco de movimento: avançar pela berma da auto-estrada para a cidade de Dacores com a velocidade média de 40 km/h.

Sinal do bloco de visão: há um autoscooter em frente. Capa do motor retirada. A viatura está imóvel. O motor não está a funcionar. Ao lado da viatura está um homem. Análise da actividade do homem: tentativa de reparar a causa do mau funcionamento do motor.

Comando ao bloco do movimento: parar perto do autoscooter.

Ligar o sintetizador da linguagem:

– Posso ajudá-lo nalguma coisa?

O homem vira a cabeça. Idade: aproximadamente 40 anos. Sexo: masculino. Tem a face manchada com um líquido escuro. Nao é sangue. É o lubrificante do motor. O homem diz:

– Eh pá, donde é que apareceste, amigo? Sempre pensei que os Hábeis se tivessem extinto há muito tempo, tal como os mamutes!

Análise semântica da expressão do interlocutor: ausência de resposta directa à pergunta feita.

Informação do bloco enciclopédico: «Os mamutes são elefantes fósseis, da época quaternária. Viveram na Europa, na Ásia e na América do Norte. Extinguiram-se em consequência de mudanças bruscas do clima e devido à caça dos homens…»

Usar o sintetizador da linguagem:

– Cheguei aqui para prestar ajuda a qualquer homem em qualquer actividade. – (Resposta à primeira pergunta terminada). – Os Hábeis nunca morrem, senhor, apenas podem ficar inoperacionais temporariamente. – (Resposta à segunda afirmação do interlocutor terminada).

O homem está a sorrir ironicamente:

– Pelo que parece, não só és Hábil, mas ainda um grande filósofo…

Análise da afirmação: ausência de perguntas, é uma constatação.

Perguntar mais uma vez:

– O senhor permite-me ajudá-lo a eliminar os estragos na sua viatura?

O homem sorri de novo:

– «Os estragos» nao é o termo apropriado, Hábil. Já há muito que é preciso deitar essa carroça no lixo!

– Então, por que não faz isso, senhor? Talvez necessite de consulta sobre a escolha de um novo carro?

– Só o diabo sabe, por que não posso dizer adeus à minha velhota!.. Provavelmente acostumei-me a ela, nada mais. Mas não és capaz de compreender a minha afeição. E quanto à ajuda… Obrigado, mas de qualquer maneira vou tentar desembaraçar-me sozinho. Tanto mais, não é pela primeira vez que acontece uma avaria…

– Boa sorte, senhor.

Fim do acto da comunicação directa.

Comando ao bloco do movimento: continuar o avanço no regime anterior.

Sinal do bloco de autocontrolo: a sobrecarga nos circuitos computorizados vai aumentando.

Causa mais provável: falta da realização do Programa Principal.

Medidas preventivas: cessar a elaboração de conclusões lógicas e das analogias.

* * *

A cidade de Dacores.

Passar ao regime de observação circular.

Dados resultantes da análise de situação: uma série de prédios habitados de um piso, rodeados de cercas baixas. Transeuntes deslocam-se por toda a parte. As ruas estão cheias de meios de transporte de diversos tipos.

À direita, perto de uma casa, um homem necessita obviamente de ajuda. É um velho. Está a trabalhar, usando o instrumento antigo para cavar a terra que se chama «pá». Respira com dificuldade, tem a face coberta de gotas do líquido que o organismo humano segrega quando gasta uma grande quantidade de energia. Análise da actividade do homem: está a preparar os canteiros com o objectivo de semear plantas chamadas «flores». Interrogação:

– Permite que eu ajude o senhor?

O velho endireita-se, apoiando-se no cabo do seu intrumento.

– Como é que é?! Então tu achas, ó cabeça de ferro, que já não sou capaz de segurar uma pá?!

– Não, não acho, senhor. Mas eu poderia concluir esse trabalho com a máxima rapidez e alta qualidade.

– «Rapidez… qualidade» – repete o velho (Não se pôde identificar a entoação). – Se queres saber, a terra gosta mais das mãos do homem do que desses teus… manípulos!

O velho agita o braço de cima para baixo, depois cospe no chão e retoma a actividade laboral.

Fim evidente do acto de comunicação.

Continuar a execução do Programa Principal no regime antecedente.

Uma criança de sexo masculino aperta com as mãos um brinquedo estragado, soltando sons específicos e deixando correr dos olhos um líquido que significa uma aflição bem profunda.

Endereçar-lhe a proposta:

– Nao chores, menino. Deixa-me consertar a tua maquinita. Para mim é muito fácil.

– Não! Vai-te embora!

– Mas porquê? Talvez não saibas quem sou? Sei fazer tudo, entendes?

– E então? Mesmo que consertes a máquina, o meu papá fica chateado! Anda sempre a dizer que devo aprender a ser independente dos outros e nunca esperar uma ajuda de alguém… E também diz: «Tudo o que estragares, tens de saber consertá-lo!»…

Fim do acto de comunicação.

* * *

… – Poderia ajudá-lo, senhor.

– Deveras? E o que é que sabes fazer?

– Sei fazer tudo, senhor. Sou Hábil.

– Foi o que pensei. Porém, se eu utilizar agora os teus servicos, amanhã virás propôr-me de novo a tua ajuda. E assim por diante todos os dias. E nesse caso, o que me resta fazer a mim próprio?…

* * *

… – Tenho de constatar, senhora, que a sua mala é pesada de mais. A senhora não terá objecções quanto a um jeitinho da minha parte?

– Era só o que me faltava! Pois fica sabendo, nunca confiei nesses seres artificiais como tu! Pergunto: quem é que vos permite, robôs, andar à solta por toda a parte?! Não me esoantaria mesmo nada, se um dia te acontecer um curto-circuito lá por dentro e começares a destruir tudo à tua volta, como aquele ciborg maníaco no filme que passou ontem na TV!…

… – Tem problemas, senhor? Posso ser-lhe útil?

– Não, não podes, Hábil.

– O senhor não está a levar em conta que sei fazer tudo o que quiser. Foi precisamente para isso que fui destinado pelos meus criadores.

– Oh, meu pobre! Nem imaginas a quantidade de coisas que nem mesmo tu és capaz de fazer.

– Cite um exemplo de tais coisas, por favor.

– Serás por exemplo capaz de compôr música, escrever livros, pintar quadros… aliás, serás capaz de ser criador?

– O meu bloco mental contém muitíssimos programas eurísticos, senhor.

– Olha, rapaz, para criar obras da arte verdadeira, é preciso ser homem. Um homem que nem tudo sabe e nem é capaz de fazer tudo…

* * *

… – Pelo que vejo, o senhor necessita de ajuda. Creia-me, posso libertá-lo dum trabalho tão difícil.

– Libertar-me?! Ora essa! Mas pagam-me muito bem por este trabalho! Portanto, se vier alguém desempenhar as minhas funções, como é que irei sustentar a minha família? Estás a querer que eu fique no desemprego, ou quê?!…

* * *

Análise do estado de meio ambiente: o Sol vai descendo por baixo do horizonte. A diminuição brusca da iluminação condiciona uma ineficácia dos órgãos de visão. Comando ao bloco de visão: passar ao regime de observação nocturna.

A água cai de cima, havendo em média de 3 a 5 gotas por centímetro quadrado. É o que se chama chover a cântaros.

Tomar medidas preventivas de autoconservação: accionamento do sistema de lubrificação adicional das articulações de corpo e membros. Verificação da hermeticidade das juntas do corpo e do bloco da cabeça: tudo normal.

Nao há homens no campo de visão.

Alternativa: deslocação a uma outra localidade ou esperar um tempo diurno mais claro para continuar o cumprimento do P.P. em Dacores.

Generalização dos factores que facilitam a tomada de decisão…

ATENÇÃO! SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA EM QUE DEVES INTERVIR SEM INTERROGAÇÕES PRELIMINARES!

Em frente, sobre a ponte que cruza um rio, vê-se uma silhueta de homem. Está em perigo. Está a balancear em cima da balaustrada da ponte. Parece que ele mesmo não tenta conservar o equilíbrio. Agora cai para a água que corre 23 metros mais em baixo.

Prognóstico: choque resultante do embate com a superfície de água, penetração desta nos pulmões, morte.

Comando a todos os blocos e sistemas: passar ao regime extraordinário. Objectivo funcional: salvar a pessoa que está prestes a afogar-se. Rapidez da execução de comandos: máxima.

Salto.

Voo.

Queda. Choque. Regime de deslocação submarina. A visão torna-se obscura devido à pouca iluminação e à presença de pequenas partículas de terra na água. Ligar o regime de hidrolocalização.

O homem é descoberto no fundo. Rebocar o corpo até à margem. Inspecção de funcionamento do cérebro: o homem ainda está vivo. Prestar-lhe o primeiro socorro conforme o programa habitual. Extracção de água dos pulmões. Respiração artificial. Controlo de pulso, respiração, funções cerebrais. Injecção do estimulador cardíaco.

O objectivo funcional está atingido. O pulso e a respiração normalizaram-se, não há perigo para a vida dele.

O homem abre os olhos. O ritmo cardíaco agora é mais intenso. É uma consequência do choque emocional.

Inquirição:

– Posso ajudar o senhor com mais alguma coisa? Deseja que o transporte até à sua casa ou a um estabelecimento de cura?

O homem pronuncia quase inaudivelmente:

– Quem… quem te pediu para me salvar, idiota?

– A sua pergunta não está correcta, senhor. Presto assistência sem inquirição preliminar àqueles cuja vida corre perigo. Assim fui programado, senhor.

– Estúpido! És um grande estúpido, Hábil! Pois era eu próprio que queria morrer, ’tás a perceber?!…

– Não percebo, senhor. Qual a razão dessa sua idéia de autoliquidação? Talvez eu possa ajudá-lo com algo?

– Não, não podes – rouqueja o homem. – Nem ninguém no mundo poderá!… Como te posso explicar melhor? Simplesmente, um dia chega-se à conclusão que ninguém… ’tás a perceber? Ninguém!, precisa de ti… Imagina alguém que não tenha amigos, nem parentes. Tudo aquilo para que esse fulano vivia perdeu razão de ser. E quando esse homem se dá conta de que viveu a maior parte dos seus anos em vão, desespera-se. Não adianta refazer nada, pois não se volta atrás!.. Então o homem sente-se tão sozinho, isto é, talvez como uma folha seca que sobra no ramo de arvore por entre folhas verdes! Talvez ele próprio tenha tido a culpa pelo seu destino infeliz, mas é-lhe ainda pior quando se dá conta disso… O que é que achas?, valeria a pena continuar a viver assim?

– Sempre vale a pena viver, senhor. Cada sistema inteligente tem tendência para prolongar a sua existência, e é isso que o faz diferente dos sistemas que não têm intelecto. Parece que o senhor deve elaborar um outro programa funcional da sua actividade vital visto que o programa anterior ficou num beco sem saída…

– Oh, Hábil!.. Estás a esquecer que não sou robô, mas um homem, e os homens nem sempre são capazes de comecar uma nova vida. Pois bem, põe-te a andar par onde quiseres!…

* * *

Escolha do subprograma alternativo: deslocação para outra localidade.

Escolha de itinerário e de parâmetros da marcha.

Regime de visão circular. À direita há um campo. À esquerda vê-se um bosque. Em frente há uma estrada. Não há homens no campo de visão. Hora do dia: noite.

Resumo do cumprimento de P.P. pelas 24 horas passadas: o coeficiente de eficácia constitui um milésimo do valor potencial. Procurar causas desta pouca eficiência, com o fim de eventual correcção da Função Corrente.

Elaboração de uma série de conclusões lógicas: sou um robô que sabe fazer tudo. Os homens não sabem fazer tudo. Em consequência, eu devia ser muito útil aos homens, pois foi precisamente por isso que há cinquenta anos os homens construíram os Robôs-Hábeis Universais do meu género. Porém, agora os homens deixaram de aproveitar os meus serviços. Porquê?

Análise sincrónica e acelerada dos meus contactos com os homens ao longo dos últimos três mêses.

Conclusões:

1ª. As pessoas receiam que um ser semelhante ao homem, mas não sendo um tal, possa apresentar uma ameaça eventual para a humanidade.

2ª. Ao ficar conscientes de que os robôs são capazes de fazer tudo (ou quase tudo), os homens começam a ter um complexo de inferioridade.

3ª. Os homens não confiam na capacidade dos robôs para resolver bem as tarefas criativas e eurísticas.

4ª. Os homens têm uma tendência inconsciente paa se aperfeiçoarem a si próprios, o qual exige a sua realização em actividades prácticas.

Em resumo, os homens consideram que cometeram um erro, ao criar os seres, cujos saberes ultrapassam os dos seres humanos. Consequentemente, a recusa dos homens em aproveitar a assistência dos robôs universais é uma tentativa consciente da humanidade para corrigir o erro cometido. O erro… herro… ytgjyznyj… ï??C+h)w?p??+¦H_¦?F-?__9_–U-S?

ATENÇÃO! Um erro no bloco lógico LE 1543-8386! Causa: avaria do microchip G5-134.

Comando ao bloco lógico: cessar a elaboração das conclusões lógicas. Comando ao bloco de auto-reparação: substituir o microchip G5-134.

Diagnóstico de todos os blocos e sistemas: bom funcionamento a 100 por cento.

Continuar a marcha.

* * *

Inquirir o Sistema de Informação Electrónica, subdivisão «Serviços a recrutar».

Exame em regime de varrimento acelerado.

… «Contrata-se uma ajudante para todo o serviço de trabalhos domésticos, com menos de 35 anos. Não é para os Hábeis»…

… “Precisa-se dum homem que saiba construir fornos de tijolo e lareiras de tipo antigo»…

… «O Departamento Estatal de Emprego oferece trabalho em qualquer profissão a quem o deseje, excepto os Hábeis”…

ATENÇÃO! HÁ UM ANÚNCIO APROPRIADO!

O anúncio # 135769: «Há um trabalho para um robô universal do modelo Hábil que deve urgentemente comparecer no seguinte endereço: 16, St.Morgan Street, Townville».

Localizar a localidade de Townville.

Pôr-se em marcha no regime de velocidade máxima.

A estrada para os scooters tem 16 faixas de rodagem. É a via do Alaska ao Chile. O trânsito não pára, nem de dia nem de noite. A passagem subterrânea mais próxima encontra-se a dois km para Sudeste. Seguir por aí significa perder, mais ou menos, dois minutos e dez segundos. Seria óptimo atravessar a estrada aqui mesmo.

ATENÇÃO! UM SCOOTER VINDO DA ESQUERDA, A PROBABILIDADE DE COLISÃO ESTA PERTO DE CEM POR CENTO.

Realizar a manobra que permita evitar o acidente.

ATENÇÃO! DOIS SCOOTERS VINDO DO LADO DIREITO!…

Saltar para frente a 6,2 metros.

UM PERIGO DE COLISÃO! OS SCOOTERS ATRÁS E EM FRENTE.

Desviar-se das viaturas por saltos em ziguezague.

Em frente há um campo. O solo aqui apresenta-se sob a forma de lama. Os membros inferiores deslizam e tropeçam. Ligar o giroscópio automático para manter o equilíbrio.

Queda. Levantar-se para continuar a marcha.

Queda. Levantar-se para continuar a marcha.

Rio. Ligar o bloco de emergência. Tomar em conta a velocidade da corrente e avaliar a profundidade do rio.

ATENÇÃO! VIOLADA A HERMETICIDADE DO CORPO NA REGIÃO DO MEMBRO SUPERIOR DIREITO!

Comando ao bloco de autoreparação: soldar o orifício surgido, limpar todos os blocos com ar comprimido.

Para alcançar a margem restam 150 metros, 100 m, 50 m, 20…

Desligar o bloco anfíbio, continuar a marcha no regime anterior.

Floresta. Comando ao bloco de dispositivos suplementares: accionar os protectores mecânicos.

Evitar colisões com as árvores cujos troncos são maiores de 100 mm.

Impacto do corpo com um tronco. Sem estragos.

Golpes de ramos contra a face e as pernas. Sem estragos.

Golpes de ramos contra a cabeça. Escuridão.

Estrago mecÂnico dos ÓrgÃos de visÃo!

Ao bloco de reparação: restabelecer o bom-funcionamento da visão.

Comando ao bloco de manipulação dos receptores: passar temporariamente ao regime de radiolocalização dos obstáculos.

Visão restabelecida.

Continuar a corrida. Aumentar a velocidade. Aumentar a velocidade. Aumentar a velocidade…

* * *

Ao bloco de orientação: proceder à localização.

Informação obtida: cidade de Townville, St.Morgan Street, número dezasseis no lado oposto da rua.

Hora corrente: 3h 45 m. É noite.

Sugestão do bloco ético: a esta hora os homens têm o costume de dormir. Recomenda-se despertá-los apenas em casos urgentes, tais como… Não é preciso continuar.

Alternativa: esperar até que o dono da casa número 16 termine o seu descanso ou contactá-lo agora mesmo?

Decisão: segunda opção.

Argumentos confirmando a escolha: a) no anúncio falava-se em urgência, b) um outro Hábil poderia chegar durante a noite, o que provocaria uma confusão.

Accionar a campaínha da porta. Uma voz humana sai do alto-falante incorporado na parede:

– Podes entrar, Hábil. Avança pelo corredor, depois basta virares à direita…

Comando ao bloco de deslocação: seguir as instruções do dono de casa.

Toque da analisadora de situação: verificam-se algumas coisas estranhas que dificultam a devida análise ao ambiente. Os dados transmitidos pelos órgãos de percepção não são classificados. O corpo está sujeito a uma influência incompreensível vinda de fora. Se usar analogias, é a mesma coisa que uma observação alheia a executar-se sobre mim.

Comando ao bloco de autoconservação: estar pronto para acções de emergência.

Viragem à esquerda. Uma porta.

Informação visual: trata-se de um aposento de pequenas dimensões sem janelas. Não há móveis ou quaisquer outros objectos necessários para a vida dos homens. Não há homens no campo de visão.

O sinal: ATENÇÃO! PERIGO! vem do bloco de autoconservação com atraso (nota para o bloco de auto-reparação: posteriormente, há que realizar-se um teste ao bloco de autoconservação conforme todos os parâmetros principais).

O chão do aposento cai de súbito.

NÃO HÁ PERIGO! É um elevador que desce. O elevador pára.

A profundidade deve ser 10 metros e 15 cm, mais ou menos.

As portas abrem-se. Abandonar o elevador. As portas fecham-se nas minhas costas. Segundo a informação sonora, a cabina do elevador começa a andar para cima.

Análise visual do ambiente: o comprimento do aposento é de 20,1 metros, e a largura e altura são, respectivamente, de 10,53 m e de 3,82 m. O chão e as paredes são de betão armado. Móveis: do lado direito, tal como do esquerdo, encontram-se ao longo das paredes uns armários metálicos de finalidade desconhecida. Em frente, junto à parede onde se incorpora uma janela holográfica que dá para um pomar falso, há uma escrivaninha atrás da qual se senta um homem de meia idade, cabelos escuros e vestindo um fato sem nada de especial. Análise da expressão do seu rosto: ausente qualquer mímica emocional. O homem não faz nada.

No meio da sala, a 4,35 m da mesa, há uma cadeira de braços com espaldar alto. O homem diz, ao indicar a cadeira com a mão:

– Podes sentar-te, Hábil.

Conclusões resultantes da análise de situação: algumas contradições lógicas não têm a solução. Por exemplo: o interior do prédio não dá a impressão de ser um aposento de habitação, como parecia ao olhá-lo de fora. Primeira pergunta: qual a função do prédio em geral e, mais concretamente, a do aposento subterrâneo? Segunda: por que é que o homem está acordado a esta hora, violando as normas típicas da conduta dos seres humanos? Explicações prováveis: o homem está de serviço nocturno? Ele já sabia que eu vinha esta noite? Mas como o conseguiu saber?

Inquirição a todos os blocos analisadores: existem alguns indícios da presença de um perigo?

Resposta: negativa.

* * *

O homem repete, ao debruçar-se ligeiramente para frente:

– Senta-te na cadeira, amigo.

– Obrigado, senhor, mas a posição sentada é utilizada pelos homens para descansar, e eu não preciso de descanso.

– Falas de mais, amigo – sorri o homem. – Apesar de tudo, senta-te. Ser-me-á mais cómodo falar contigo se te sentares.

(Falar? Afinal, sou necessário a este homem para falar, apenas, e não para ajudá-lo?)

– Cumpro a ordem face à sua insistência, senhor.

Sentar-me na cadeira, inspeccionando-a com todos os receptores. Resultado da inspecção com o objectivo de descobrir algum perigo: negativo. Falar:

– Vim em resposta à sua inquirição, senhor. De que ajuda necessita?

– Antes de tudo, queria que respondesses a algumas perguntas, Hábil.

– Estou pronto, senhor.

– Quando foste fabricado?

– Há cinquenta e dois anos, três meses e vinte e quatro dias, senhor. O nosso lote foi experimental e consistia em duas mil unidades. Permita-me lembrar-lhe, senhor, que na altura a humanidade conseguiu um avanço tecnológico muito significativo para criar a Razão Artificial. Foram fabricados os sistemas aptos de auto-aperfeiçoamento que sabiam realizar qualquer actividade…

– Sei isso perfeitamente, Hábil, escusas de prosseguir. A fabricação dos robôs de teu tipo foi uma invenção genial dos homens, e assim por diante. Mas diz-me uma coisa: será que sabes realmente fazer TUDO?

– Sei, sim, senhor. Durante todo o tempo da minha existência realizei cerca de quinze milhões de operações diversas, inclusive as que exigem um alto nível profissional e conhecimentos especializados. Se me permite, posso enumerar as profissões que tenho exercido com o objectivo funcional de ajudar os homens.

– Não vale a pena, pois estou certo que tens cumprido a tua função principal com o maior zelo. Prefiro que me digas como é que estás a cumprir o teu Programa Principal nos dias que correm. Isto é, fazes muita coisa para os homens? É com freqüência que os homens pedem a tua assistência?

(Por que é que o homem mo pergunta? Porquê um interesse tão elevado quanto aos problemas de criação e de funcionamento dos robôs? Será que?… Será que é um daqueles engenheiros anónimos que criaram os Hábeis? Provavelmente, decidiram reunir-nos para resolver os nossos problemas?)

– Infelizmente, tenho de dar uma resposta negativa a todas as suas perguntas, senhor.

– Qual pensas ser a causa principal de tu e os teus colegas terem ficado inúteis para toda a gente?

– Quando tento analisar esse problema, o meu bloco lógico começa a falhar, senhor.

– Pois bem, serei eu próprio a dar-te a resposta. É que no decurso de cinco decénios a humanidade mudou, Hábil. Os homens mudam sempre, mas nos nossos dias eles mudam cada vez mais rapidamente, por causa do progresso. De início, pensavam criar-vos para se libertar de trabalhos pesados, utilizando-vos apenas na produção. Depois começaram a empregar os vossos conhecimentos na vida quotidiana, e depois também noutros domínios mais públicos. A pouco e pouco os homens começaram a ter mais tempo para se aperfeiçoarem, desenvolvendo progressivamente as suas aptidões intelectuais. O aparecimento dos robôs que sabem fazer tudo foi uma consequência da teoria que então vigorava, de que os homens se viam obrigados a desenvolver constantemente os seus meios de trabalho. Seguindo este caminho, chegaria uma etapa da evolução em que os homens acabariam por fabricar modelos de si próprios, o que vieram a fazer! Mas depois a humanidade tentou recuar, porque viu que tal caminho levava a um beco sem saída. É que cada sistema tem o seu destino funcional para com outros sistemas, não podendo trabalhar só para si mesmo, entendes? Mas para compreendê-lo, foi preciso aos homens criar-vos, Hábeis.

* * *

– Bem, e que é que devo fazer agora, senhor? Que devemos fazer todos nós, robôs que sabem fazer tudo?

– Foi por isso que pus o anúncio na Rede… Estás a ver que, mais cedo ou mais tarde, chegarias à conclusão de que não serias preciso a mais nenhum dos homens. Pelo menos como robô. As pessoas precisam da ajuda de outras pessoas, Hábil. E como és um sistema apto para te aperfeiçoares, um dia serias obrigado a introduzir certas correcções nos teus programas funcionais. Não te seria difícil concluir que, uma vez que os homens precisam de outros homens, ser-te-ia necessário pareceres-te ao máximo com um homem, aliás, fingir mesmo que és realmente homem. Nem é tão-pouco dificil fabricares um outro invólucro corporal quase indistinguível do corpo humano, e depois, empregando as técnicas de bioengenharia, substituíres os teus blocos electrónicos por órgãos humanos, ou QUASE humanos. Com certeza, tal tarefa exigiria muitos esforços e muito tempo, porém tu sabes fazer TUDO, pois és um Hábil, e tens uma eternidade, ou pelo menos, alguns séculos ao teu dispor… Deste modo, um belo dia chegarias a ser um homem artificial dotado de razão artificial.

– Ora, que mal vê nisso, senhor?

– A humanidade tenta evitá-lo, porque os homens têm medo que tal aconteça, Hábil. Ser portador de razão artificial não é a mesma coisa que ser homem. É por isso que a mais perfeita cópia de um quadro célebre difere da versão original. Não é possível tornar-se um homem a 99,99 por cento. Enquanto restar um milésimo de percentagem das diferenças entre ti e o homem, a gente terá medo de ti e dos teus análogos. Pelo menos, no futuro próximo…

– Tem a certeza de que os seus prognósticos são correctos, senhor?

– Na semana passada um operário de construção civil morreu em Brixton. Caiu do 25.º andar do arranha-céus em construção. E sabes o que é que ele tinha na cabeça em lugar do cérebro? Peças e miniblocos electrónicos, nada mais! Foi um teu semelhante que se havia transformado em homem.

– Aonde pretende chegar, senhor?

– A humanidade está a tentar evitar, antes que seja tarde, a aparição dos «quase-homens».

– Mas de que maneira, senhor?

– Pelo que vejo, o teu bloco prognóstico tem uma avaria, Hábil – sorri o homem sentado atrás da escrivaninha. – Mas já não terás oportunidade de corrigi-lo!

Um pequeno objecto surge na mão direita do homem. É uma coisa escura que na extremidade tem algo parecido com um funil. Informação do bloco enciclopédico: «Pistola atomizadora de calibre 100. Destina-se a destruir quaisquer objectos sem deixar o menor rasto deles. Trata-se de uma arma baseada na violação das forças de ligação das moléculas. Hoje em dia, só resta ao dispor de vários serviços especias…»

* * *

Arranque automático do bloco de autoconservação.

FALHA DO BLOCO DE AUTOCONSERVAÇÃO.

FALHA DO BLOCO DE MOVIMENTO.

FALHA DE TODOS OS SUBPROGRAMAS FUNCIONAIS.

Causa: uma radiação de natureza desconhecida que se efectua a partir dos armários metálicos situados ao longo das paredes.

Ligação de emergência de todos os blocos.

Sem sucesso.

Porém, o sintetizador da linguagem e os órgãos de percepção ainda estão a funcionar.

– O senhor quer destruir-me?

– Sou obrigado a fazê-lo. É nisso que consiste a minha missão. Faço-o para defender a segurança dos homens, entendes?

(O que é que posso fazer para sobreviver? Poderia eliminar o perigo só por meio da destruição deste homem. Mas o robô não deve causar dano ao homem. Há uma contradição irresolúvel).

Nota junta à análise momentânea: a contradição pode ser resolvida apenas por via única… A probabilidade é extremamente pequena, mas nada mais me resta fazer.

Comando ao bloco de visão: passar ao regime de raios X. Agora estou a ver o meu adversário como esqueleto nú. Um esqueleto? E o que é que tem ele na zona esquerda do seu cérebro? Qual é essa peça pequenina, feita de metaloplástico e de silício? Identificação do objecto: é um chip básico do bloco de Programa Principal.

Conclusão: o meu interlocutor não é homem. É um robô que está a fazer-se passar por homem.

O bloco de campo magnético? Está a funcionar. Ligá-lo ao máximo, concentrando as forças magnéticas num objecto determinado.

A atomizadora sai da mão do robô que finge ser homem, e entra na minha palma direita. Fogo!…

* * *

Programa Principal: prestar ajuda aos homens. Actuar no interesse dos homens. Ser necessário aos homens.

Elaboração de um novo Subprograma Funcional. Conseqüência das conclusões lógicas: os homens estão em perigo, e a ameaça vem da nossa parte, robôs que sabem fazer tudo. Por consequente, é preciso eliminar esta ameaça para socorrer os homens. Um simples acto de autodestruição não adianta, porque há outros Hábeis. Portanto, antes disso seria conveniente destruir todos os meus semelhantes.

Subprograma táctico: é mais facil destruir os meus semelhantes da maneira que empregava o robô armado com a atomizadora. É preciso fazer cair outros Hábeis na armadilha por meio de anúncios falsos sobre a necessidade de ajuda urgente, e publicá-los na Rede.

Aviso do bloco prognóstico: será impossível começar o cumprimento do novo S.P.F. devido à contradição seguinte: no fim das contas, seria necessário suicidar-me, e isto é bloqueado pelos sistemas de autoconservação. Nao foram previstas correcções no bloco de autoconservação.

Comando ao bloco de autoaperfeiçoamento: eliminar as falhas do bloco prognóstico que impedem o cumprimento do Programa Principal.

Analogia vinda da memória operativa: «O homem é capaz de chegar à conclusão que ninguém precisa mais dele… Quando conclui que viveu em vão, o desespero logo se apodera dele… Neste caso, valeria a pena viver?»

O desespero? Por que é que não o sinto? Em geral, o que é que significa «sentir»?..

??Z?_?_+o?v¦??V+?1w°+??¦_¦*¦§k¦*Q; ¦??H ?i? +??>[email protected]_ VR??1???`?}ht¦>?????_????T?%PZ”C !???[®™ ?~?^ Z? ??0 ???]¤!¶???b_?J_#~_–r?¬x5?”hv?< ]?????? p?_$… f?? ?=c±? ‰ ~_??N???E?9t`±?‹?_?? ??­|

ATENÇÃO! VISTO QUE APARECE UMA SOBRECARGA ELEVADA NOS CIRCUITOS DE BLOCO LÓGICO, PROVOCANDO FALHAS NUMEROSAS E CONSTANTES, RECOMENDA-SE CESSAR A BUSCA DE RESPOSTAS PARA AS PERGUNTAS QUE FOREM FEITAS!

Comando ao bloco de S.P.F.: iniciar a execução da nova função.

NÃO QUERO SER MAMUTE! NÃO QUERO SER MAMUTE! NÃO QUERO SER MA!…

Comando ao bloco de auto-reparação: eliminar as avarias que estão a provocar os curto-circuitos em mecanismos da memória.

Artigos relacionados:

  • Não há artigos relacionados