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No passado dia 10 de Setembro, por volta das 19 horas, quem esteve – e eu estive – presente na Sala Manoel de Oliveira do cinema São Jorge foi testemunha privilegiada de um momento único, emocionante: dezenas e dezenas de pessoas a aplaudirem de pé, ovacionando, António de Macedo, assim que ele chegou ao palco, não só para apresentar o seu filme «O Segredo das Pedras Vivas» que teria estreia mundial logo a seguir, mas também para receber o troféu mais importante atribuído pela equipa da organização do MoteLx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa: o «Garra de Carreira».

Tendo atrás de si vários dos que com ele colaboraram, entre técnicos e actores (destes se destacando Manuel Cavaco e Helena Isabel, esta aliás protagonista de «Os Abismos da Meia-Noite»), na feitura da mini-série televisiva «O Altar dos Holocaustos», exibida originalmente na RTP em 1992 e de que «O Segredo das Pedras Vivas» é uma adaptação com outra montagem e melhor som, António de Macedo relembrou o contexto, os factos, as circunstâncias que estiveram na origem desta sua obra, e o modo em que ocorreu a sua produção há quase 25 anos. Apesar de serem naturalmente evidentes as marcas do tempo entretanto passado – visíveis tanto nos automóveis como na juventude de alguns dos actores do elenco que então davam os primeiros passos na profissão e que agora quase são «veteranos», como André Gago, João Reis e Rita Salema – os temas principais e profundos que o marcam continuam actuais, e assim o entende o realizador. Com razão, pois no filme se expressam dicotomias e até oposições várias: cidade e campo, urbanismo e património, direitos privados e interesses públicos, ciência e religião (e mesmo superstição), perenidade e fatuidade.

Em texto de apresentação e de divulgação do projecto publicado (antes da conclusão) no seu sítio na Internet, a Kintop sintetiza o processo que conduziu à sua concretização: «Se bem que os seus sucessos principais datem sobretudo das décadas de sessenta, setenta e oitenta, a retrospectiva organizada pela Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema mostrou claramente que, na segunda década deste milénio, a obra de António de Macedo está tão moderna como na altura da sua criação. E foi precisamente nesta ocasião em que se projectava a obra completa deste realizador que surgiu uma lacuna: a obra “O Altar dos Holocaustos”, produzida em formato de mini-série para a RTP em inícios da década de noventa. Trata-se de um dos últimos trabalhos do realizador. No entanto, a lacuna provocada pela ausência deste filme, lamentada por muitos dos espectadores que aderiram à retrospectiva da obra de António de Macedo, pôde ser não só finalmente colmatada como dela surgir um novo filme do realizador, que sempre quis realizar uma longa-metragem a partir dos materiais filmados. Apenas há alguns meses atrás foram encontradas na Rádio Televisão de Portugal as três cassetes emitidas em 1992. Mais importante ainda, logo após esta descoberta, foram encontrados no Arquivo de Imagens em Movimento os negativos originais e o magnético sonoro. Uma deslocação ao ANIM, em companhia do realizador e de técnicos especializados, permitiu-nos verificar que as imagens do negativo desta obra se encontravam em bom estado de conservação, necessitando, todavia, de um trabalho de intervenção cuidadoso. Num estado mais debilitado encontram-se, porém, as fitas magnéticas que compõem a banda sonora. Estas necessitarão de uma intervenção quase cirúrgica e uma parcial recriação.»

Tudo isso foi feito. Mas terá sido mesmo este o último filme de António de Macedo? Este disse que quase de certeza o é, e não apenas no sentido de «mais recente». A idade e a falta de apoios tiraram-lhe (e não foi agora) a motivação e a paciência (ele falou em «pachorra») para (tentar) prosseguir a sua carreira cinematográfica. Porém, a do seu colega de profissão que deu o nome à sala onde estava e falava bem que poderia servir de exemplo e de incentivo para que o autor de «Os Emissários de Khalôm» não desista ainda. Tanto mais que, e como que justificando o prémio que recebeu há uma semana, o seu trajecto – e não só na sétima arte – se tem distinguido pela… «garra». O texto da Kintop também o salienta: «Todo o seu percurso é caracterizado por uma notável coerência filosófica e temática. Autor que trabalha o fantástico de forma ímpar na cinematografia portuguesa, as suas obras desdobram-se entre o sério e o humor mais surrealizante. Cineasta multifacetado, dele houve quem dissesse: “António de Macedo é um marginal tão marginal que é rejeitado pelos próprios clubes de marginais”.» Felizmente, e como ficou mais uma vez demonstrado, existem muitos «sub-marginais» – eu incluído me confesso 😉 – que não lhe regateiam a admiração e o apoio.

(Imagem retirada daqui.)

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