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Em artigo intitulado «Ratos e homens», publicado na sua então regular coluna «O Fio do Horizonte» do jornal Público a 22 de Dezembro de 1999, Eduardo Prado Coelho, licenciado e doutorado em Filologia Românica, professor, ensaísta, falecido em 2007, escreveu:

«Parece que um livro importante suscita neste momento um amplo debate no mundo científico: “Biological Exuberance”, do biólogo Bruce Bagemihl. O autor, assumidamente homossexual, tende a ver a homossexualidade como um fenómeno amplamente generalizado em toda a natureza. Ele seriam escaravelhos, ele seriam elefantes, ele seriam ratos, patos, bisontes ou koalas. Proposta nestes termos caudalosos, esta enumeração parece mais uma enciclopédia borgesiana do que um inventário rigoroso. (…) Na sua tipologia mistura coisas que, a serem tomadas à letra entre os humanos, alargariam vertiginosamente a noção de adultério: inclui o desafio amoroso, a afeição, as relações sexuais propriamente ditas, a amizade “duradoura” e a criação em conjunto de crianças. (…) A grande objecção que se pode colocar ao trabalho paciente e obstinado a que se dedicou Bagemihl é a de que os seus conceitos são demasiado folgados para a realidade de que pretende dar conta. Mas o que verdadeiramente se teme é que a ideia arcaica de “práticas contranatura” não resista a uma análise mais atenta da tórrida vida na natureza. A verdade é que isto de só haver dois sexos é de uma imensa melancolia e que tudo o que se puder inventar de novo nesta matéria contribuirá certamente para a alegria do mundo.»

Não é provável que os directores, executivos, criativos do Facebook alguma vez tenham lido este texto de Eduardo Prado Coelho, ou qualquer texto escrito por ele, ou que alguma vez tenham sequer ouvido falar dele, sabido da sua existência. Porém, e tendo como pretexto contribuir para o aumento e/ou o reconhecimento da «diversidade», mesmo que artificial e «politicamente correcta», a empresa fundada por Mark Zuckerberg decidiu recentemente alargar para 58 as «opções de género» oferecidas aos utilizadores do serviço, que são agora… Agender, Androgyne, Androgynous, Bigender, Cis, Cisgender, Cis Female, Cis Male, Cis Man, Cis Woman, Cisgender Female, Cisgender Male, Cisgender Man, Cisgender Woman, Female to Male, FTM, Gender Fluid, Gender Nonconforming, Gender Questioning, Gender Variant, Genderqueer, Intersex, Male to Female, MTF, Neither, Neutrois, Non-binary, Other, Pangender, Trans, Trans*, Trans Female, Trans* Female, Trans Male, Trans* Male, Trans Man, Trans* Man, Trans Person, Trans* Person, Trans Woman, Trans* Woman, Transfeminine, Transgender, Transgender Female, Transgender Male, Transgender Man, Transgender Person, Transgender Woman, Transmasculine, Transsexual, Transsexual Female, Transsexual Male, Transsexual Man, Transsexual Person, Transsexual Woman, Two-Spirit…

… E é inevitável a conclusão de que este novo «catálogo de identidades» vai indubitavelmente ao encontro do desejo, expresso por EPC há mais de 14 anos, de «inventar (algo de) novo» que contribua «para a alegria do mundo» pela diminuição da «imensa melancolia» – ou da «tirania»? – que representa a existência de «apenas» dois sexos. E fica a dúvida: se ele ainda fosse vivo, se utilizasse o Facebook, e se escolhesse uma das novas opções, qual seria? Na minha opinião, quatro se destacam como as mais prováveis: Pangender; Other; Gender Questioning (obviamente!); e Gender Fluid, quanto mais não seja pela semelhança com o título de uma das suas obras… «A Mecânica dos Fluidos».

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