Realidade virtual:
Ele entrara no quarto agora . Pegou seu disfarce no guarda roupas: um sobretudo cor de areia, chapéu, botas e um lenço preto que enrolou em volta da cabeça ao estilo dos árabes, deixando apenas seus olhos visíveis. Pensou por onde sairia daquela vez. Usar sempre a mesma porta para entrada e saída não era nada recomendável. Poderia usar a estreita saída de ventilação para chegar ao exterior; ou a falsa porta escondida atrás da cômoda; ou o alçapão embaixo da cama, embora fosse uma péssima idéia, pois cairia no esgoto que corria por esse mundo virtual sob seus pés, ainda restavam o alçapão para o alto do prédio, a falsa parede atrás da estante, e o STU.
Optou pelo STU. Qualquer um poderia rastrear a chamada e achá-lo, mas indo para o lugar certo, não daria tempo de meterem as mãos nele. Pegou as armas e o telefone, colocou a pistola sob o sobretudo e discou 00 no telefone.
Uma voz feminina suave e aveludada atendeu: “Sistema de Teletransporte Unido, um momento, por favor.” Esperou. A atendente pediu seu número de identificação.
— 0082486p2 — respondeu.
— Sr. Henrique Tuya, seja bem vindo, qual seu destino hoje?
— Estação Luz do Metrô.
— Tenha uma boa viagem…
(…)
Um dos locais mais tumultuados do centro. Era só embarcar logo num trem e sumir sem deixar rastros.
Uma multidão de pessoas à sua frente, todos os tipos, todas as idades, cada um seguindo o seu destino, mas todos com uma coisa em comum : não tinham acesso ao STU. Alguns por terem seu passe cassado, como pena por algum tipo de infração de caráter mais leve, outros por ainda precisarem dos privilégios adicionais, porém, a grande maioria realmente não tinha dinheiro para pagar pelo serviço. Comodidades nunca foram para todos. Se grande parte era efetivamente formada por bandidos e vigaristas, o restante também não valia grande coisa.
Ele foi caminhando rápido por entre a turba. Precisava alcançar logo um trem, chegar até o Túnel dos Turcos. Um bairro quase secreto, conhecido por muito poucos. Seu acesso difícil, se embrenhando através de uma estreita passagem em um verdadeiro labirinto de túneis perigosos, sujos e escuros, tornava a viagem impossível para quem não conhecesse todas as entranhas daquela rede subterrânea. A passagem ficava logo à frente, escondida no túnel do metrô.
Chegou na plataforma de embarque quando o trem saía. O metrô ia mais leve que o ar, flutuando um metro acima do chão, no começo, lentamente, mas logo desapareceu, na velocidade de um raio. Todos haviam embarcado, com exceção de um guarda distraído, que assistia um holofilme no projetor público de televisão. Olhou para trás, as pessoas que se dirigiam para lá não podiam vê-lo ainda, “era a hora”, pensou.
Ligou o cronômetro do relógio e saltou. Correu para o interior do túnel e sumiu na escuridão.
Tinha mais ou menos cinqüenta segundos antes do próximo trem passar. Quase nada se distinguia na escuridão interior, apenas manchas e leves brilhos reflexos. Então pôde ver a abertura, estava sinalizada pelo pulsar de uma pequena luz vermelha, do tamanho da cabeça de um alfinete. Restavam dez segundos quando entrou. Tirou uma bússola do bolso e esticou o braço à frente do corpo, e foi andando, a bússola ia lhe indicando o caminho no emaranhado de túneis, à cada bifurcação sua agulha pendia para o lado correto. Lembrou-se do que ouvira de Yadys quando viu essa bússola pela primeira vez.
Estavam no centro do deserto, no alto da maior duna já vista pelo homem: a duna mãe. Fazia um calor atordoante, mas estavam protegidos pelo traje térmico. A imensidão de areia se estendia até os confins do horizonte, onde se mesclava ao azul limpo do céu, nuvens de areia jogadas pelo vento circulavam logo acima da superfície, cintilando sob a luz do sol. Quando ela lhe falou, o vento brincava com seus longos cabelos negros e seus grandes olhos castanhos brilhavam como jamais vira, ela parecia colocar toda sua alma naquelas palavras que personificavam o amor dela e toda a responsabilidade que qualquer amor traz em si:
— Esta é a ‘Mão de Alá’, e só ela poderá guiá-lo nos túneis para chegar até minha pequena vila, como só a mão de Alá pode nos conduzir durante a vida. Com ela você atravessará os túneis e ela será sua senha para entrada no bairro. Caso você desonre de qualquer forma a nossa união, ela ficará cega como uma baioneta.
O fato de ela entregar a chave era a prova máxima de confiança que poderia lhe dar, não poderia haver honra maior para um ocidental.
Sentiu-se cheio de saudade à lembrança de Yadis, não só a única mulher por quem se importava no mundo, mas tudo o que mais importava no mundo. Por enquanto teria de vê-la assim, uma vez por semana, pouco mais de uma hora e dizer adeus. Qualquer vínculo com ele deveria ser mantido em segredo, para segurança dela. Ele estava sendo procurado por diversos atentados à bomba, pois era assim que ganhava sua vida, sendo um terrorista mercenário, trabalhando para quem tivesse a melhor oferta. Cão de guerra. Mas muito em breve a pequena fortuna que juntara durante os últimos cinco anos já lhe garantiria uma nova vida, no melhor lugar que existisse nesse mundo, e então, com uma nova identidade ele poderia se unir à Yadis, ser um homem feliz e honesto, pagando seus impostos. Faltava muito pouco, talvez essa fosse a última vez que precisariam se encontrar às escondidas.
Chegou à cidadela. Um enorme muro feito de pedras gigantescas fechava a cidade, bem à sua frente, o portão de madeira. Olhando dali, parecia alguma cidade de uma civilização extinta à milênios, como uma Babilônia ou uma fortaleza da mítica Atlântida. Os dois guardas protegiam: Mihaviel e Lughssiel, robôs série Z-52. Dois monstros de aço com dois metros e vinte de altura cada um, pesando duas toneladas, treinados para escorraçar e até mesmo matar qualquer um que não cumprisse o requisito: mostrar a “Mão de Alá”. Os monstros de aço deram um salto e pararam frente a ele, rápidos como um felino, mas pesados como elefante, fazendo a terra tremer. As luzes que faziam de olhos brilhavam vermelhos como olhos de rato na escuridão, incendiados de um ódio mecânico! Henrique ergueu a estranha bússola assustado, fechando os olhos e recuando de terror. Ao verem a senha os estranhos seres de metal sossegaram e voltaram lentamente à suas posições e o enorme portão se abriu.
Logo na entrada estava a feira livre. Os homens de tez morena, envoltos em suas finas roupas orientais, mercadejavam de tudo ali, num idioma ininteligível para ele. Uma mulher entoava cânticos mais à frente, aqui, dois homens discutiam rapidamente, cada qual gesticulando vivamente com as mãos e os braços. Um mouro negociava robôs usados, outro vendia ações aos berros, havia um mercador de armas e bombas, outro segurava um cálice de mitsvak, poderosa droga alucinatória, reconheceu ocidentais procurando diversão e mulheres, prostitutas caminhavam ao lado de uma tenda de artigos religiosos, mostrando os seios e molhando os lábios ao avistar um olhar de interesse, um grupo de vinte à trinta pessoas estava ajoelhada sobre tapetes, virada para Meca e rezando. Uma babilônia de sons, cores, odores, rumores e alarido, visões estranhas à nosso mundo cotidiano pareciam entorpecer os sentidos. Acima, sob o céu azul, os carros passavam rápidos numa confusão de vias e cruzamentos.
Entrou em uma viela estreita, quase deserta. Era uma rua de não islâmicos. Um velho cego, com a barba cerrada sobre a pele escura e rachada, lhe segurou pelo ombro, parecia querer lhe dizer algo. Henrique achou que poderia ser perigoso, tentou se desvencilhar, empurrando-o, mas ele agarrou-se com mais força ao seu ombro e disse, com uma voz trêmula:
— Alá derrama os bens sobre quem Lhe apraz e os restringe quando Lhe apraz. Ele conhece e observa Seus servos. Vosso Senhor bem sabe o que tende na alma. Se sois justos, Ele sempre perdoa aos que voltam para Ele, contritos. E não sigas o que ignoras: o ouvido, a vista e o coração também serão interrogados.
— Saia de mim, velho, eu não quero ouvir suas doutrinas!- gritou indignado.
O velho olhou para ele sem rancor:
— Vá, você segue o caminho dos demônios, e é o caminho rápido para a perdição. Não há nada mais para você aqui nesta vila, você não é digno de estar em solo islâmico, aceite meu conselho, fuja daqui e esqueça de sua vida passada, pois a manhã não é bela para os ímpios.
“Velho fanático idiota”, pensou.
O prédio onde morava Yadis viu ele passar por entre seus moradores e suas escadas sinuosas como a sombra de uma cobra ao entardecer, subindo da entrada até a porta de aço do quarto andar. Digitou a senha de acesso. A porta se abriu num leve ruído, correndo num piscar de olhos.
O apartamento estava escuro, as cortinas filtravam quase toda claridade vinda de fora. Não era muito amplo, como nenhum era ali na parte baixa do bairro, lugar de becos e vielas onde viviam os mais pobres dentre eles. Yadis apareceu, vinda do quarto, que estava em total penumbra. Seus longos cabelos estavam presos, fumava, e a fumaça enevoava a penumbra, seus olhos estavam tristes, quase não se movimentando, e ela não olhava para ele, fitava algum ponto imaginário logo à frente. Notou que estava elegante, teria saído para algum lugar? Não saberia responder, mas alguma coisa estava errada, podia notar… Nunca Yadis esteve tão fria, tão distante…
— O que houve?

Ela não respondeu. Parecia não ouvir, perdida, quem sabe nas lembranças de tardes no deserto. Por fim, disse, e sua voz saiu fraca e suave:
— Eu sei de toda a verdade…
Henrique estremeceu, o que seria? Teria descoberto sobre as bombas, sobre os danos, sobre o que realmente ele fazia?
Ela caminhou até o sofá e sentou-se lentamente, ainda com a expressão que agora ele podia definir melhor, que era a mais pura decepção.
— Eu confiei em você, lhe dei a chave para entrar nesse último refúgio islâmico que chamo de lar, e você me traiu, pura e simplesmente. Por quê Henri? Porquê? – gritou.
Parecia sem forças. Ferida por uma chuva de desilusão, um vento cortante a lhe dilacerar a alma, agora descrente de todas as boas coisas sobre a face da terra.
— Eu vi o que você fez, as pessoas que você matou, e, olhando para ele com lágrimas nos olhos, brilhando como diamantes, sussurrou a pergunta que lhe apertava o peito torcendo a alma:
Como pôde?
Henrique estava desnorteado, como ela poderia saber, quem teria lhe dito? Era preciso tentar faze-la mudar de opinião, era necessário o trabalho das mentiras:
— Mas ninguém morreu, nos atentados, só falsos avatares poderiam ter morrido, ninguém conectado à Realidade Virtual pode morrer por causa de uma bomba!.
— Realidade Virtual? O que eu vi não era realidade virtual, pessoas reais morreram ali.
Alguém montara uma cilada para ele. Teria a polícia descoberto sobre Yadis, e chegado até ele? Se isso fosse verdade, nesse momento poderiam estar rastreando sua localização e em breve o prenderiam.
— Diga-me, a polícia já sabe? — era melhor ser direto, se fosse necessário correr, quanto antes melhor.
“Ele só se preocupa com seu rabo, como pude ser tão tola…” – pensou ela.
Um policial apareceu, vindo do quarto na penumbra. Era um homem de mais ou menos trinta anos, cabelos pretos curtos, olhos verdes e nariz aquilino. Usava um sobretudo marrom, bem fechado, deixando aparecer a camisa de flanela listrada e a gravata preta abaixo do pescoço.
Estava apontando uma arma para ele.
— Pegamos você, finalmente, Alexander. Ou devo dizer Henrique Tuya, ou Alex Raymond, ou Charles Buckowski, ou ainda Gianfrancesco Giordano. O senhor adota muitos nomes falsos, não? Teria mais algum que desconheço?
O policial precisava ficar enrolando, ganhar tempo para rastrear. Alexander começou a desconectar.
— Vejo que está desconectando, senhor — disse o policial — mas é tarde demais.
Isso iria levar cerca de cinco minutos, não se pode cortar os estímulos ao sistema nervoso central de uma vez, os danos ao córtex deixariam Henrique comatoso pelo resto de sua vida.
O policial pegou o telefone do bolso. Ouvia alguma coisa.
Ele estava impaciente, precisava sair do Mundo Virtual logo, pegar a maleta e sumir sem deixar rastros. Yadis fora manipulada por eles, usaram seu aguçado senso moral contra ele.
— Já sabemos quem é você, agora considere-se um homem preso. Não pense que poderá escapar de nós, você é um pato morto! — sentenciou o detetive, com ar pomposo de triunfo.
Henrique detonou um vírus. Uma ilusão digital que os deixaria impossibilitados de se mover por algum tempo, tempo que ele precisava para se desconectar.
(…)
O efeito da desconexão lhe deixava entorpecido como se tivesse acabado de acordar de um sono de mil anos, e o gosto amargo da química que inundava seu cérebro lhe embolava o estômago, deixando os olhos enevoados… Sem vontade de levantar ele olhou em volta relembrando Yadis e o detetive. Mas era preciso fugir, era preciso escapar, ir para qualquer lugar distante e inatingível pela polícia, FBI, Interpol ou qualquer maldita milícia em seu encalço.
Conectado era fácil escapar, ele era um hacker treinado para isso, sabotar e abandonar, mas no mundo real, para onde escapar?
Olhou em volta, sua casa não era mais que um pequeno cubículo, entulhado de parafernália eletrônica, não era uma casa, era um lugar para conexão, pois ele sentia que aquelas paredes sujas não eram seu lar, seu lar era a mansão que ele tinha no mundo virtual, com todos os luxos e prazeres que merecia.
Era preciso escapar, fugir para qualquer lugar longe daquelas paredes espremidas e encardidas.
Mas estava tão cansado… a polícia chegaria a qualquer momento.
Nesse instante a questão lhe passava pela mente e impregnava seus neurônios novamente:
— Porque viver nesta realidade pobre e dura, se não seria mais possível voltar ao paraíso de ilusões?
Nos últimos anos uma humanidade viciada em conexão, desprezando a vida real por sensações virtuais em uma rede que interliga cérebros e mais cérebros numa catarse em rede, num esforço conjunto jamais visto para criar ilusão, tem se mantido à margem da realidade. Quando ele entrou para a resistência como sabotador, ele buscava restabelecer a ordem natural das coisas pelo terror, mas a teia o prendeu também.
“Deus, o que nós fizemos”…
— O que eu fiz? — se perguntava. E então ele se sentiu mergulhado no mar castanho dos olhos de Yadis, envolto pelo corpo macio, enredado naqueles finos fios de cabelos, a seda mais suave que a natureza já tecera, a única coisa que no fim das contas lhe importava, a alma mais preciosa que ele encontrara, e, treinado pela rede, traíra.
(…)
O oficial arrombou a porta num chute e jogou uma bomba de gás enquanto o esquadrão entrava. Os homens super protegidos por capacetes, máscaras e trajes de combate, armados até os dentes olharam o cubículo a procura de Alexander, o famoso terrorista, entraram rápido, pisando num líquido que se espalhava pelo chão, que não podiam distinguir devido ao gás que se espalhava pelo ar.
— Tarde demais, chefe, o canalha escapou! – gritou um dos soldados para o oficial que esperava lá fora.
Alexander fugira, fez sua última desconexão. Desta vez, da vida.

FIM

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